segunda-feira, 14 set. 2026

Romaria d’Agonia: da dor se fez festa

O que une a fé das mulheres da ribeira ao ouro das mordomas e à loucura dos Zés P’reiras? A festa de Viana do Castelo é um grande teatro da condição humana. Dramas e emoções continuam a passar entre gerações
Romaria d’Agonia: da dor se fez festa

Convém começar por olhar para ela. A Senhora d’Agonia é uma imagem setecentista de roca. A armação de madeira ganha forma humana graças à túnica roxa e ao manto azul bordados a ouro. Tem as mãos cruzadas sobre o peito. No rosto, uma lágrima. Não exibe um coração trespassado por espadas. Bastam aqueles dois olhos negros e tristes, muito grandes e levemente trocados, a contemplar o cadáver do Filho crucificado. Ele não precisa de subir ao andor. Está sempre lá, nas mãos vazias e no rosto desamparado da Mãe.

A Senhora d’Agonia tem os dedos compridos de quem espeta agulhas no linho e crava sacholas na terra. O cabelo é preto, como o de muitas mulheres do Minho. Vai ourada, mas sem exageros: broche ao peito, pedras nos punhos, brincos compridos. É uma encarnação contida e minimalista da dor suprema. Não é a mulher que exibe a ferida: é a que se agarra a si própria – a que fica sozinha depois de tudo estar consumado.

O mar ali é bravo. Quando os barcos tardavam, elas iam para o cais, ajoelhavam-se e rezavam. Antes dos paredões de betão construídos entre 1977 e 1981, um cordão de areia móvel e traiçoeiros rochedos faziam da entrada e da saída o momento mais arriscado da viagem. Muitas mulheres viram filhos e maridos ser crucificados até à morte pelo mar. Foram os pescadores a escolher esta padroeira. Ou, mais provável ainda, as mulheres e as mães deles. Não podia ser a Senhora da Alegria, nem a dos Remédios, tampouco a da Boa Viagem. No coração de Viana está a brava Senhora da hora má, a que fica quando já não há nada a fazer.

O bombo como esconjuro

Viana do Castelo «respira, ainda, ares da Galiza, húmidos de névoas», escreveu o poeta António Manuel Couto Viana num livro sobre a Romaria d’Agonia. Mesmo antes da abertura de fronteiras, o rio Minho sempre foi mais de passagem do que uma barreira. Os pescadores galegos vinham à Senhora d’Agonia antes de haver espaço Schengen e continuam a vir. Os gigantones, aos beijos na boca a descer a avenida, são os turistas mais altos e divertidos. Por incrível que pareça, já foram noivos abençoados pela Santa Igreja.

A tradição entrou na romaria em 1893, trazida de Santiago de Compostela, onde os gigantes abriam as procissões do Corpo de Deus e representavam os povos da terra – Europa, Ásia, África – rendidos ao Santíssimo. Passaram do sagrado ao profano não por terem perdido a fé, mas por terem sido postos na rua. Em 1780, uma real cédula de Carlos III expulsou-os das procissões, com o argumento de que distraíam e arrefeciam a devoção.

Vão dançar amanhã à frente do Cortejo Histórico e Etnográfico. Procure-os nas vibrantes revistas de Gigantones, Cabeçudos, Gaiteiros e Bombos. As mais espetaculares vão acontecer este sábado, na Praça da República, às 11h30 e às 22h00, numa inédita versão noturna. Nove grupos rufam como se não houvesse amanhã. Para cima de cem Zés P’reiras batem furiosamente em bombos e tambores até o Diabo fugir a sete pés, levando com ele as tristezas desta vida. No dia da Santa, inovação recente, a ‘Revista’ passou para o Largo de São Domingos, porta de entrada na Ribeira. Os gigantones ainda não foram readmitidos numa procissão, mas já festejam com o povo a alegria dos tapetes floridos que cobrem as ruas para receber a padroeira no regresso do mar.

O ouro é uma oração

Miguel Esteves Cardoso, queque de Lisboa com olhos para o Minho, escreveu em 1990 que as raparigas de Viana têm «belezas perigosas». E adoram mostrá-lo. Nos últimos anos, o Desfile da Mordomia tornou-se uma febre, fértil em polémicas. As inscrições abriram em maio e fecharam nas mil mordomas. A plataforma online foi assaltada: milhares de tentativas vindas de umas centenas de endereços IP, por mecanismos automatizados. A VianaFestas suspendeu tudo, reabriu com autenticação de dois fatores por SMS e denunciou às autoridades perto de 17 mil pedidos fraudulentos.

Para quem só vai à romaria no fim de semana, o cortejo etnográfico tem outro desfile da mordomia lá dentro, provavelmente com mais de mil raparigas. Muitas trazem ao peito quantidades de ouro para preencher montras de ourivesaria. A organização avalia em mais de cem milhões de euros o ouro que sai à rua nestes dias. A PSP trata o assunto com reforço de guardas, drones e câmaras a monitorizar os desfiles em tempo real.

Não é uma exposição de joalharia, é genealogia pendurada ao pescoço. Cada peça tem nome e já foi usada por gerações de mulheres da família. Cordões, corações, brincos à rainha, a maioria dessa filigrana passou da bisavó para a avó. Carrega histórias antigas de amor, emigração, doença e promessa. O ouro, afinal, é uma forma de oração. Até a padroeira vai ourada, vestida por mãos da terra. Não são as mulheres que imitam a imagem – é a imagem que foi vestida à maneira delas.

O padre Vasco Gonçalves, presidente da Confraria da Senhora d’Agonia, citado pelo semanário Alto Minho, chamou-lhe há dias «um fenómeno social total». O conceito de Marcel Mauss é exato e feliz. A romaria não é uma missa e um sermão com festa à volta, nem uma festa com três procissões lá dentro. Na capela da Santa ou na Praça da República vive-se a mesma festa sobre a condição humana, tão bem representada no coração de filigrana de Viana.