segunda-feira, 18 mai. 2026

Restauração fala em colapso e critica declarações de governador do BdP

Governador do Banco de Portugal, Álvaro Santos Pereira questionou a crise na restauração, apontando que "os números são de tal forma evidentes que falam por si". PRO.VAR reagiu com “total oposição” a esta leitura.
Restauração fala em colapso e critica declarações de governador do BdP

A PRO.VAR – Associação Nacional de Restaurantes, alertou para o “colapso da restauração”, reagindo assim às recentes declarações do governador do Banco de Portugal, Álvaro Santos Pereira, que colocou em causa a existência de uma crise no setor, afirmando que “os números [...] falam por si”.

Numa análise divulgada publicamente, o governador destacou que o setor tem registado um crescimento expressivo desde 2019 – cerca de 69% em termos nominais e 25% em termos reais -, sublinhando ainda que as margens se mantêm relativamente estáveis, o crédito vencido é reduzido e há mais empresas a abrir do que a fechar. “Será assim?”, questionou, referindo-se à perceção generalizada de dificuldades no setor.

A PRO.VAR rejeita esta leitura e acusa o regulador de apresentar uma visão “manifestamente redutora e desfasada da realidade”. “A restauração não é um setor homogéneo e não pode ser tratada como tal”, afirma a associação, defendendo que a análise mistura realidades distintas como restaurantes tradicionais, cadeias organizadas, fast food e restauração em supermercados.

Segundo a associação, o crescimento identificado pelo Banco de Portugal está concentrado em modelos de grande escala, “onde os custos são mais diluídos e a operação mais eficiente”, o que acaba por inflacionar os indicadores globais. “Esses modelos [...] apresentam resultados muito positivos, contribuindo para distorcer os indicadores do setor”, refere.

Em contraste, a PRO.VAR descreve um cenário crítico na restauração tradicional – “aquela que transforma ao momento” – onde os custos com matérias-primas, energia, salários e rendas “dispararam”, comprimindo severamente as margens. “Muitos negócios faturam mais, mas ganham menos”, alerta, acrescentando que há empresas já com dificuldades em cumprir obrigações junto da banca e fornecedores.

A associação fala mesmo numa “fase crítica de rutura na cadeia de valor” e alerta para uma transformação estrutural do setor, com a substituição progressiva dos restaurantes tradicionais por modelos de escala. Um processo que, diz, pode ter impacto na identidade gastronómica e na atratividade turística do país.

Apesar das críticas, a PRO.VAR reconhece as recentes medidas anunciadas para a reestruturação das dívidas contraídas durante a pandemia, considerando que “têm o mérito de reconhecer o problema”. Ainda assim, alerta que a aplicação indiferenciada desses apoios pode agravar desigualdades, beneficiando modelos mais resilientes, como grandes cadeias, em detrimento dos negócios mais frágeis.

“Seria profundamente injusto e até paradoxal” que essas mesmas empresas viessem a influenciar ou limitar medidas destinadas a salvar a restauração tradicional, sustenta a associação, defendendo uma abordagem diferenciada por tipologia de negócio e região.

A PRO.VAR insiste que o setor precisa de uma resposta estrutural, propondo medidas como a descida do IVA da alimentação para 6%, a adaptação da TSU e a criação de um modelo forfetário de IVA. “Os números podem sugerir estabilidade, mas a realidade no terreno mostra exatamente o contrário”, conclui a associação, alertando que “o setor está sob forte pressão e a entrar em colapso em muitos casos”.

Também a AHRESP já tinha alertado para a situação crítica do setor, pedindo ajuda ao Governo.