terça-feira, 18 ago. 2026

Quatro em cada 10 freguesias não têm acesso a dinheiro físico e há 67 a mais de 15 quilómetros do ponto mais próximo

Mais de 1.200 freguesias portuguesas não tinham, no final de 2025, qualquer ponto de acesso a dinheiro físico, segundo um estudo do Banco de Portugal. A situação afeta cerca de 700 mil pessoas, sobretudo em zonas rurais, e há 67 freguesias onde o ponto de acesso mais próximo fica a mais de 15 quilómetros
Quatro em cada 10 freguesias não têm acesso a dinheiro físico e há 67 a mais de 15 quilómetros do ponto mais próximo

Cerca de 40% das freguesias portuguesas não tinham, no final de 2025, qualquer ponto de acesso a dinheiro físico, segundo um estudo divulgado esta segunda-feira pelo Banco de Portugal (BdP).

Das 3.092 freguesias existentes em Portugal, 1.241 não dispunham de qualquer caixa automática, agência bancária com serviços de numerário ou outro ponto de acesso a dinheiro físico.

A situação abrange cerca de 700 mil pessoas, que têm de se deslocar para fora da sua freguesia para levantar ou depositar dinheiro.

O problema assume particular expressão em algumas regiões do interior. Nos distritos de Bragança e Vila Real, mais de 40% da população reside em freguesias sem qualquer ponto de acesso a numerário.

O Banco de Portugal ressalva, contudo, que a ausência de um ponto de acesso na freguesia de residência não significa necessariamente que exista uma limitação significativa, uma vez que podem existir equipamentos ou serviços disponíveis em freguesias próximas.

Há 67 freguesias a mais de 15 quilómetros de um ponto de acesso

O estudo identifica, contudo, 67 freguesias com maiores constrangimentos, onde residem cerca de 16 mil pessoas.

São freguesias situadas a mais de 15 quilómetros do ponto de acesso a numerário mais próximo. Em 15 destes territórios, a distância média ultrapassa mesmo os 20 quilómetros.

A freguesia mais afastada de um ponto de acesso a dinheiro físico é a União das Freguesias de Quirás e Pinheiro Novo, no concelho de Vinhais, onde a distância é de 30,6 quilómetros.

Com base nestes indicadores, o Banco de Portugal identifica Beja, Boticas, Bragança, Carrazeda de Ansiães, Chaves, Mirandela, Mogadouro, Montalegre, Torre de Moncorvo, Vimioso e Vinhais como os concelhos que enfrentam maiores desafios no acesso a numerário.

"Nestes territórios, uma eventual contração da rede poderia revelar-se particularmente crítica para a população residente", alerta o supervisor bancário. Em causa estão cerca de 174 mil pessoas, ou 1,7% da população nacional.

Portugal tinha quase 18 mil pontos de acesso em 2025

Apesar dos constrangimentos identificados, no final de 2025 existiam em Portugal quase 18 mil pontos de acesso a numerário.

Cerca de 14.600, correspondentes a 80% do total, eram caixas automáticas, incluindo a rede Multibanco. Havia ainda cerca de 2.700 agências bancárias com serviços de numerário e aproximadamente 550 pontos de cash-in-shop, integrados na rede da marca Nickel.

Segundo o Banco de Portugal, os dados mostram que a falta de acesso ao numerário tem relevância territorial, mas apresenta uma "expressão demográfica limitada" à escala nacional.

O supervisor considera ainda que a situação não parece ter-se agravado nos últimos anos.

36 freguesias são consideradas potencialmente vulneráveis

O estudo identifica também 36 freguesias potencialmente vulneráveis, ou seja, territórios onde existe atualmente pelo menos um ponto de acesso a numerário, mas onde o encerramento de uma agência bancária ou a retirada de uma caixa automática poderia provocar um impacto significativo.

O distrito de Beja concentra o maior número de freguesias nesta situação, com oito, seguido de Santarém, com cinco, Castelo Branco, com quatro, e Évora, com três.

São consideradas potencialmente vulneráveis as freguesias onde, em média:

  • cada ponto de acesso serve 4.000 ou mais residentes;

  • cada ponto serve uma área de pelo menos 150 quilómetros quadrados;

  • ou cada ponto serve simultaneamente pelo menos 1.500 residentes e uma área de 50 quilómetros quadrados.

No estudo divulgado em 2023, com dados referentes a 2022, tinham sido identificadas 30 freguesias particularmente vulneráveis. O Banco de Portugal alerta, contudo, que os critérios utilizados nessa análise eram diferentes, pelo que os valores não são diretamente comparáveis.

95% da população tem acesso a numerário a menos de cinco quilómetros

Apesar das diferenças territoriais, o Banco de Portugal indica que 95% da população portuguesa tinha, em 2025, um ponto de acesso a numerário a menos de cinco quilómetros da residência, considerando a distância por estrada.

Se o limite for alargado para 10 quilómetros, a cobertura sobe para 99% da população.

Os cálculos foram realizados com base nos últimos Censos e, por isso, não refletem a estimativa mais recente do Instituto Nacional de Estatística (INE), segundo a qual a população residente em Portugal atingiu 11,4 milhões de pessoas no ano passado.

Em 2025, os levantamentos realizados em caixas automáticas totalizaram 29 mil milhões de euros, através de 358 milhões de operações.

Governo prepara projeto-piloto para reforçar acesso a serviços bancários

Perante os desafios identificados em algumas regiões, o Governo apresentou recentemente o projeto-piloto Multibanco + Perto, destinado a garantir o acesso a serviços bancários a populações residentes em localidades sem qualquer ponto de atendimento.

A iniciativa deverá contar com 30 terminais, numa tentativa de minimizar o impacto da redução da rede tradicional de balcões e caixas automáticas, sobretudo em territórios de baixa densidade populacional.

A tendência de redução da rede bancária tem levado as instituições financeiras a privilegiar localizações com maior concentração populacional, atividade económica e intensidade turística, deixando algumas das zonas menos povoadas mais expostas a dificuldades no acesso presencial ao dinheiro e a serviços bancários.