quarta-feira, 15 abr. 2026

Quanto 'dinheiro vivo' devemos ter em casa em caso de guerra? Conheça a recomendação do Banco Central Europeu

O conflito no Médio Oriente e a instabilidade geopolítica global estão a relembrar a todos os europeus que a preparação para emergências não é paranoia, é prudência. O Banco Central Europeu já estudou o tema e o Banco de Portugal acompanhou o aviso. Há uma resposta prática para cada família.
Quanto 'dinheiro vivo' devemos ter em casa em caso de guerra? Conheça a recomendação do Banco Central Europeu

Quando as imagens de destruição chegam de uma região que fica a pouco mais de quatro horas de avião de Lisboa, é tentador pensar que a distância nos protege. Mas a guerra não precisa de tocar as nossas fronteiras para mudar a nossa vida. Os preços disparam, as cadeias de abastecimento partem-se, os sistemas financeiros vacilam, e o que parecia garantido torna-se frágil em questão de dias.

O agravamento do conflito no Médio Oriente, com as suas consequências directas nos mercados de energia e nas rotas comerciais internacionais, voltou a colocar uma questão que muitos preferem não formular em voz alta: e se o sistema falhasse? E se os terminais de multibanco deixassem de funcionar? E se os pagamentos digitais ficassem indisponíveis durante horas ou dias?

Não é um cenário apenas teórico. Guerras, ciberataques, catástrofes naturais ou um apagão inesperado são suficientes para paralisar os sistemas de pagamento digital durante horas críticas. As recomendações que se seguem não foram feitas para nenhum destes eventos em particular. Foram feitas precisamente porque qualquer um deles pode acontecer.

O que diz o BCE sobre dinheiro em casa

O Banco Central Europeu (BCE) não foge a esta pergunta. Num estudo intitulado "Keep Calm and Carry Cash: Lessons on the Unique Role of Physical Currency Across Four Crises", os economistas da instituição analisaram o comportamento das pessoas e dos sistemas financeiros durante quatro momentos de ruptura: a crise global de 2008, a crise grega de 2014/2015, a pandemia de Covid-19 e a guerra na Ucrânia.

A conclusão é inequívoca: em todos esses momentos, a procura por dinheiro físico aumentou de forma imediata e expressiva, mesmo em países altamente digitalizados. O numerário é o único meio de pagamento que funciona sem electricidade, sem rede de telecomunicações, sem servidores e sem intermediários bancários. É o que sobra quando tudo o resto falha.

No mesmo estudo, o BCE cita expressamente as orientações de vários bancos centrais nacionais e conclui que as autoridades dos Países Baixos, da Áustria e da Finlândia sugerem que os cidadãos mantenham em casa um valor que varia, aproximadamente, entre 70 e 100 euros por membro da família, suficiente para cobrir as necessidades essenciais durante cerca de 72 horas.

O banco central neerlandês, o De Nederlandsche Bank, é o mais específico: recomenda 70 euros por adulto e 30 euros por criança do agregado familiar, como parte de um verdadeiro kit de emergência financeira.

E o Banco de Portugal, o que diz?

O Banco de Portugal acompanha esta posição. No Boletim Notas e Moedas de outubro de 2025, o banco central sublinha que o numerário "continua a ser indispensável" e que "funciona como rede de segurança, assegurando que a economia prossegue mesmo quando a tecnologia falha", recordando que eventos súbitos de qualquer natureza podem tornar os sistemas digitais indisponíveis sem aviso.

A recomendação do Banco de Portugal é explícita: "continua a ser prudente os cidadãos manterem algum dinheiro físico disponível." O banco central português não fixa um montante concreto, deixando que cada família calcule o valor adequado às suas necessidades. O referencial europeu do BCE dá uma pista prática: 70 a 100 euros por adulto cobrem o essencial durante três dias.

Num agregado de dois adultos e uma criança, isso representa uma reserva entre 170 e 230 euros, em notas guardadas em casa e rapidamente acessíveis.

Como guardar o dinheiro em casa com segurança

Ter numerário em casa é prudente. Tê-lo de forma irresponsável pode criar problemas diferentes. Tanto a Deco como a PSP têm alertas práticos a este respeito.

Use notas pequenas. Guarde sobretudo notas de 5, 10 e 20 euros. Em situação de emergência, fazer troco pode ser impossível, e uma nota de 50 euros pode não ser aceite numa mercearia de bairro sem troco disponível.

Escolha um local seguro e discreto. O Banco de Portugal e a PSP sublinham que não é aconselhável manter quantias elevadas em local de fácil acesso. O dinheiro deve ser guardado num local seguro, de preferência numa pequena cofre doméstica fixa, e nunca deve ser comentado fora do círculo familiar mais restrito.

Não acumule em excesso. O objectivo é cobrir 72 horas de necessidades básicas, não constituir uma poupança paralela ao sistema bancário. Manter grandes quantias em casa representa um risco de segurança que supera os benefícios.

Complemente com outros preparativos. A Comissão Europeia recomenda que cada cidadão disponha de um kit de emergência que inclua água, alimentos não perecíveis, medicamentos essenciais, documentos importantes e dinheiro em notas. O numerário é uma peça desse conjunto, não a única.

Reveja o valor periodicamente. A inflação corrói o poder de compra. Actualize a reserva em função das despesas reais do seu agregado.

Porque é que isto é urgente mesmo para quem vive longe da guerra

Portugal não faz fronteira com zonas de conflito. Mas isso não nos isola das suas consequências.

A guerra na Ucrânia fez disparar os preços da energia em toda a Europa. O conflito no Médio Oriente perturbou rotas comerciais no Mar Vermelho, encarecendo produtos e gerando rupturas de stock. Os preços dos combustíveis, em particular o gasóleo, são dos primeiros a reagir a qualquer escalada geopolítica nessa região, dada a dependência europeia do petróleo que atravessa o Estreito de Ormuz e o Canal de Suez. E as autoridades europeias têm alertado de forma crescente para ciberataques a infra-estruturas críticas, incluindo sistemas bancários, frequentemente associados a actores ligados a zonas de conflito.

Num cenário desse tipo, quem tiver dinheiro em notas não precisa de entrar em pânico na fila do multibanco que não funciona.

O BCE foi directo no título do seu estudo. Mantenha a calma e tenha dinheiro consigo. Não é pessimismo. É literacia financeira de emergência.