quarta-feira, 15 jul. 2026

Portugal e Espanha pedem mais financiamento da UE para energia e querem acelerar interligações elétricas com França

Portugal e Espanha defenderam um reforço do orçamento europeu para a energia e apelaram à aceleração das interligações elétricas com França. A ministra do Ambiente e Energia anunciou ainda que o Governo vai estudar uma ligação elétrica a Marrocos para reforçar a segurança do abastecimento
Portugal e Espanha pedem mais financiamento da UE para energia e querem acelerar interligações elétricas com França

Portugal e Espanha defenderam esta segunda-feira um reforço do financiamento europeu para o setor da energia e apelaram a uma atenção especial da União Europeia às interligações elétricas com França, argumentando que a reduzida capacidade de ligação da Península Ibérica continua a limitar a integração no mercado energético europeu.

A posição foi transmitida pela ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, no final da reunião ministerial sobre o programa de interligações energéticas para o Sudoeste da Europa, realizada em Paris e que reuniu representantes de Portugal, Espanha, França, da Comissão Europeia e uma delegação da Alemanha.

Segundo a governante, ficou acordada a realização de uma nova reunião técnica em setembro e o tema continuará a ser debatido nas próximas cimeiras bilaterais entre Portugal e França e entre Espanha e França.

Portugal quer mais verbas da UE para redes elétricas

Maria da Graça Carvalho explicou que Portugal e Espanha pediram à Comissão Europeia, ao Parlamento Europeu e aos Estados-membros que o próximo orçamento plurianual da União Europeia atribua maior prioridade aos investimentos na área da energia.

"O que defendemos foi uma grande prioridade para a energia em geral e, em especial, para as redes elétricas e interconexões, nomeadamente entre França, Espanha e Portugal", afirmou.

A ministra recordou que a ligação elétrica entre a Península Ibérica e França permanece nos 3,1%, um valor muito abaixo dos objetivos europeus e que, segundo sublinhou, mantém Portugal e Espanha numa situação semelhante à de uma "ilha energética".

Península Ibérica continua a funcionar como uma "ilha"

A responsável lembrou que o problema das interligações é discutido há mais de duas décadas, tendo sido identificado numa cimeira luso-francesa realizada na Figueira da Foz, quando Durão Barroso era primeiro-ministro.

"Continuamos com uma interligação entre a França e a Península Ibérica de 3,1%", afirmou.

Na opinião da ministra, esta realidade justifica que Portugal e Espanha possam beneficiar de apoios europeus semelhantes aos atribuídos a territórios insulares, como Irlanda, Malta e Chipre, ou às regiões ultraperiféricas.

"Os problemas que há em gerir um sistema elétrico numa ilha são diferentes dos que existem num mercado interno mais alargado", salientou.

Além das interligações, Portugal pediu também à Comissão Europeia maior apoio financeiro para projetos de armazenamento de energia, reforço da rede elétrica e mecanismos de flexibilidade do sistema.

Sobre a receptividade da Comissão Europeia, Maria da Graça Carvalho afirmou que o comissário europeu para a Energia e Habitação, Dan Jørgensen, lhe pareceu "sensível" aos argumentos apresentados.

Governo vai estudar ligação elétrica a Marrocos

A ministra revelou ainda que o Governo português vai analisar a viabilidade de uma ligação elétrica a Marrocos, à semelhança da que já existe entre o país do Norte de África e Espanha.

Segundo explicou, deverá receber "dentro de dias" a ministra da Energia de Marrocos, em Lisboa, para discutir a possibilidade de desenvolver um projeto de interligação elétrica por cabo submarino.

"Temos de fazer uma análise de custo-benefício, mas queremos avaliar as vantagens de Portugal também estar ligado a Marrocos", afirmou.

A possibilidade de criar esta ligação já tinha sido colocada em 2016, quando os dois países lançaram um estudo de viabilidade técnico-financeira para uma futura interligação elétrica.

Apagão mostrou importância das interligações

Questionada sobre o apagão de 28 de abril de 2025, Maria da Graça Carvalho considerou que uma maior capacidade de interligação internacional não impede a ocorrência de falhas elétricas, mas acelera significativamente a recuperação do sistema.

"Uma interligação não evita um apagão, mas ajuda muito a recomeçar mais cedo", afirmou.

A ministra recordou que Portugal depende exclusivamente da ligação à rede espanhola e, como o apagão teve origem em Espanha, o país teve de aguardar pela recuperação da rede do país vizinho antes de poder beneficiar da interligação.

Segundo explicou, caso Espanha dispusesse de uma ligação mais robusta com França, teria recuperado mais rapidamente e poderia ter apoiado Portugal mais cedo.

Maria da Graça Carvalho adiantou ainda que Portugal dispõe atualmente de quatro centrais com capacidade de "black start", o dobro das existentes anteriormente, o que permitirá acelerar a reposição do fornecimento elétrico caso ocorra uma nova falha generalizada.

"Espero que não, mas, se existir um outro apagão, o recomeço da eletricidade será mais rápido", afirmou.

A governante considerou ainda que a recuperação do sistema elétrico português após o apagão de 2025, concluída em cerca de 11 a 12 horas, foi positiva, tendo em conta a dimensão da ocorrência.