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A subida dos combustíveis prevista para segunda-feira é a maior de que há registo em Portugal desde que existem dados sistemáticos, em 2015. E a diferença entre o que sobe o gasóleo e o que sobe a gasolina levanta uma dúvida natural: porque é que os dois combustíveis se comportam de forma tão diferente?
Segundo um comunicado do Ministério das Finanças de sexta-feira, sem qualquer intervenção do Estado, o gasóleo rodoviário subiria 23,4 cêntimos por litro e a gasolina sem chumbo 7,4 cêntimos. O Governo anunciou um desconto extraordinário de 3,55 cêntimos no Imposto sobre os Produtos Petrolíferos (ISP) para o gasóleo, o que reduz a subida para cerca de 20 cêntimos. A gasolina não beneficia de qualquer desconto porque não ultrapassou o limiar estabelecido pelo executivo.
Para quem tem um depósito de 60 litros a gasóleo, a conta é directa: abastecer vai custar mais 12 euros do que na semana passada.
O petróleo subiu, mas o gasóleo subiu muito mais
O primeiro ponto a perceber é que o que chega às bombas de combustível não é petróleo bruto, mas um produto refinado. E os produtos refinados têm os seus próprios mercados, com dinâmicas de preço distintas.
O barril de Brent, a principal referência europeia para o preço do petróleo bruto, subiu entre 5% a 13% após o início do conflito, fixando-se nos 87 dólares à data de publicação deste artigo. O gasóleo refinado negociado na Europa disparou a um ritmo muito superior. É essa diferença entre o crude e o produto final que explica grande parte do que vai sentir na bomba.
O Estreito de Ormuz: um canal de 33 quilómetros que abastece o mundo
O ponto de partida da crise é o Estreito de Ormuz, um canal de apenas 33 quilómetros de largura entre o Irão e Omã. Por ali passavam, antes do conflito, cerca de 20 milhões de barris de petróleo e derivados por dia, o equivalente a um quarto do comércio mundial de petróleo por via marítima e a um quinto do consumo global.
Após os ataques americanos e israelitas de 28 de fevereiro, as principais transportadoras marítimas mundiais suspenderam as operações na zona por razões de segurança. As seguradoras começaram a cancelar a cobertura de risco de guerra para embarcações na área. O resultado foi uma quebra brusca no fornecimento de produtos refinados disponíveis na Europa. E o gasóleo foi o produto mais afectado.
Por que é o gasóleo mais vulnerável do que a gasolina?
Há uma razão estrutural para esta sensibilidade: a Europa é deficitária em gasóleo. Produz menos do que consome e depende de importações, uma parte das quais provinha da Rússia antes de 2022 e foi sendo substituída por fornecimento de outras regiões, incluindo do Médio Oriente.
O gasóleo é o combustível dominante na logística internacional e tem uma produção geograficamente mais concentrada do que a gasolina. Quando a rota principal é interrompida, as alternativas são escassas e demoram tempo a activar-se. A gasolina tem uma rede de produção mais diversificada, o que a torna menos vulnerável a perturbações numa única rota de abastecimento.
Portugal e o gasóleo: uma dependência que vai além dos carros
Em Portugal, o impacto de uma subida do gasóleo é mais amplo do que noutros países europeus. Segundo o relatório "Vehicles on European Roads" da ACEA, publicado em janeiro de 2026, 90,3% dos veículos comerciais ligeiros em circulação na União Europeia funcionam a gasóleo. Portugal está acima dessa média.
Isto significa que uma subida acentuada no preço do gasóleo não afecta apenas quem conduz um carro a diesel: afecta directamente o transporte de mercadorias, a agricultura, a construção e, em cadeia, os preços de praticamente tudo o que é distribuído por via rodoviária no país. A Associação Nacional de Transportadores Públicos Rodoviários de Mercadorias (ANTRAM) já alertou que as empresas do sector terão de repercutir os custos adicionais nos clientes.
O que fez o Governo
O primeiro-ministro Luís Montenegro tinha prometido no debate quinzenal de quarta-feira que, se a subida dos combustíveis ultrapassasse os 10 cêntimos por litro, o executivo aplicaria um desconto no ISP equivalente à receita adicional de IVA que o Estado receberia com a subida dos preços.
O Ministério das Finanças confirmou, em comunicado de sexta-feira, uma redução temporária e extraordinária de 3,55 cêntimos por litro no ISP do gasóleo rodoviário no continente. A medida não tem prazo definido e será reavaliada consoante a evolução do mercado.
O preço médio do gasóleo deverá passar de 1,634 euros para cerca de 1,824 euros por litro. A gasolina 95 deverá subir de 1,705 euros para cerca de 1,78 euros por litro, de acordo com os cálculos da Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG).
A Associação Nacional de Revendedores de Combustíveis (ANAREC) considerou o desconto insuficiente e pediu ao Governo que fosse além da mera devolução do IVA adicional, com a vice-presidente Mafalda Trigo a afirmar que "pedíamos que o Governo abdicasse de alguma base orçamental para não prejudicar tanto a economia em geral".
O que dizem os mercados sobre os próximos meses
As projecções para os próximos meses divergem. O Goldman Sachs reviu em alta as suas estimativas para o segundo trimestre de 2026, elevando a previsão para o Brent em 10 dólares para 76 dólares por barril. Num alerta divulgado a 6 de março via Reuters, o banco indicou que, se os fluxos pelo Estreito de Ormuz não se normalizarem em breve, o barril de Brent poderá ultrapassar os 100 dólares e que os preços dos produtos refinados poderão superar os máximos de 2008 e de 2022.
A Fitch Ratings adopta uma perspectiva mais moderada. Num relatório de 4 de março, considerou que o encerramento efectivo do estreito será provavelmente temporário. A agência assinala que os stocks mundiais de petróleo atingiram o nível mais elevado desde março de 2021, com 8,2 mil milhões de barris no final de 2025, e que países como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos dispõem de oleodutos alternativos que contornam Ormuz.
Cinco coisas que talvez não saiba sobre os combustíveis em Portugal
O gasóleo foi durante décadas mais barato do que a gasolina. Existia um tratamento fiscal diferenciado para proteger o transporte de mercadorias e a agricultura. Esse enquadramento foi sendo progressivamente eliminado, expondo o gasóleo à volatilidade do mercado internacional em maior medida.
O ISP é cobrado antes do IVA. O Imposto sobre os Produtos Petrolíferos e Energéticos incide sobre o combustível antes de ser aplicado o IVA a 23%. Quando o preço base sobe, o Estado recebe automaticamente mais IVA em termos absolutos, mesmo sem alterar a taxa. É essa receita extra que o Governo devolve, em parte, através do desconto no ISP.
Esta é a maior subida de que há registo. A variação de 23,4 cêntimos por litro no gasóleo prevista antes do desconto supera os 14 cêntimos de março de 2022, na sequência da invasão russa da Ucrânia, que era até agora o recorde absoluto desde que a DGEG regista dados sistemáticos sobre preços de combustíveis, em 2015.
Nove em cada dez veículos comerciais ligeiros na Europa são a gasóleo. Segundo o relatório da ACEA de janeiro de 2026, 90,3% dos veículos comerciais ligeiros em circulação na União Europeia funcionam a gasóleo, o que ilustra a dependência estrutural do sector da logística neste combustível.
Pode comparar preços antes de abastecer. A DGEG disponibiliza gratuitamente o comparador oficial de preços em precoscombustiveis.dgeg.gov.pt, onde é possível consultar os postos mais baratos em qualquer ponto do país.