A incerteza em relação ao crescimento económico aliada à subida da inflação não dá tréguas e poderá assombrar as estimativas do Governo. Para já, o Banco de Portugal (BdP) manteve a previsão de crescimento da economia portuguesa em 1,8% em 2026, ainda assim, é mais pessimista do que a meta estipulada pelo Governo que aponta para um crescimento de 2% para este ano. O banco central estima ainda que o Produto Interno Bruto (PIB) aumente 1,8% em 2026, 1,6% em 2027 e 1,8% em 2028, enquanto a inflação «deverá subir para 3,1% em 2026 e retornar a valores próximos de 2% nos anos seguintes».
Ao Nascer do SOL, João César das Neves desvaloriza estas diferenças ao reconhecer que «as previsões são praticamente iguais» às que já eram conhecidas em março e que «o desvio não é grande», lembrando que «cada um está a fazer o seu papel» e que perante um quadro tão incerto admite que «qualquer deles pode ter razão», embora referindo que «tecnicamente, o Banco de Portugal é em geral melhor porque é menos político».
No entanto, o economista aponta para duas mudanças significativas: «A inflação do IPC [Índice de Preços no Consumidor] deste ano que sobe de 2,8% para 3,1% e o excedente da balança corrente e de capital que cai este ano de 3,5% para 2,7% do PIB. São pequenos ajustamentos, ambos devidos à novidade desde março: a subida do preço do petróleo».
Também para o economista do Banco Carregosa, Paulo Monteiro Rosa, as diferenças entre as contas do regulador e o Governo «resultam sobretudo de pressupostos distintos quanto à evolução da economia internacional, dos preços da energia e do impacto dos fundos europeus na atividade económica», afirmando que ambos esperam a continuação do crescimento da economia portuguesa, ainda que a um ritmo mais moderado do que nos últimos anos. «O BdP é mais prudente do que o Governo, prevendo um crescimento económico ligeiramente inferior e uma inflação mais elevada. Porém, as hipóteses que sustentam as projeções do BdP, sobretudo no que toca aos preços da energia, evoluíram favoravelmente nas últimas semanas», acrescentando que a descida do preço do petróleo «poderá culminar num abrandamento da inflação e num crescimento mais robusto do que o antecipado no relatório de 15 de junho.
Aliás, o ministro das Finanças já veio desvalorizar estas diferenças ao afirmar que a diferença entre o défice previsto pelo Banco de Portugal para 2026 e a projeção do Governo «não é significativa», recordando que Miranda Sarmento já admitiu um pequeno défice este ano. «Já assumi que este ano pode haver um pequeno défice, face ao volume de impactos de que estamos a falar, coisa diferente daquilo que sempre disse sobre 2025, de que não haveria défice, ao contrário, haveria um superavit robusto», acenando com o resultado do ano passado, altura em que foi registado um excedente orçamental de 0,7% do PIB.
O governante admitiu que o primeiro trimestre foi «difícil» para Portugal, depois de ter sido penalizado primeiro com as tempestades e depois com o conflito no Irão, pelo impacto que gerou no preço dos combustíveis e pela incerteza que causou.
Mais tarde foi a vez de Luís Montenegro afirmar que Portugal está hoje numa posição financeira que coloca o país entre os melhores desempenhos da União Europeia e que a situação económica nacional «faz corar de inveja qualquer economia da União Europeia», apesar de reconhecer que é preciso continuar a mudar para garantir novos investimentos e crescimento.
Incerteza dita redução da dívida pública
Em matéria de dívida pública, o Banco de Portugal defende que deverá continuar a trajetória de redução, para 85,7% do PIB este ano, 82,5% em 2027 e 79,5% em 2028. Mas, mesmo com esta diminuição do rácio da dívida pública, o governador Álvaro Santos Pereira, alertou que o país não deve ser «complacente e relaxar o esforço de desendividamento da economia», considerando que «é importante reiterar e todos perceberem que o esforço do desendividamento público tem de continuar nos próximos anos».
Um apelo aplaudido por João César das Neves ao lembrar que as questões orçamentais, «embora estejam num momento bom» estão longe de estarem resolvidas.
Também Paulo Monteiro Rosa considera que a redução da dívida pública tem sido um dos principais fatores de constante revisão em alta da classificação de crédito de Portugal pelas várias casas de rating nos últimos anos, permitindo ao país enfrentar períodos de maior incerteza económica e financeira numa posição mais favorável. «O próprio BdP prevê que a dívida pública continue a diminuir nos próximos anos. Sem prejuízo da importância de apoiar o crescimento económico e o investimento, a manutenção de uma trajetória descendente da dívida pública deve continuar a ser um objetivo da política económica portuguesa», diz.
E não hesita: «Independentemente das diferenças sobre crescimento e inflação, tanto o Governo como o BdP assumem que as finanças públicas portuguesas permanecem relativamente sólidas e que a trajetória da dívida continua descendente. O BdP vê rácio da dívida pública abaixo dos 80% em 2028».
Riscos que podem comprometer previsões
De acordo com Paulo Monteiro Rosa, a principal preocupação no curto prazo diz respeito à subida da inflação para 3,1% em 2026, explicada principalmente pelo aumento dos preços da energia ditado sobretudo pelo conflito no Médio Oriente. «O BdP aumentou a estimativa da inflação em 3 décimas de 2,8% em março para 3,1% em junho. Ainda assim, o BdP considera que Portugal se encontra hoje mais bem preparado para enfrentar um choque energético do que no passado, devido ao maior peso das energias renováveis e à melhoria da situação financeira das famílias e das empresas», explica ao nosso jornal.
Ainda assim, o economista reconhece que o crescimento económico deverá continuar a ser sustentado pela procura interna, pelo mercado de trabalho, que permanece robusto, e pela execução dos fundos europeus, sobretudo pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). «O investimento deverá manter-se dinâmico em 2026, beneficiando da aplicação desses fundos, embora o BdP antecipe um abrandamento nos anos seguintes. O desemprego deverá permanecer em níveis historicamente baixos, na casa dos 6%, ou ligeiramente abaixo, apesar de o BdP esperar uma gradual desaceleração do crescimento do emprego», salienta.
O responsável lembra também que o relatório alerta para alguns desafios estruturais da economia portuguesa, nomeadamente a perda de quota das exportações portuguesas em vários mercados, o aumento da concorrência internacional e a necessidade de reforçar a produtividade para sustentar o crescimento futuro. «O BdP sublinha ainda que os principais riscos continuam associados à evolução do conflito no Médio Oriente, à possibilidade de preços da energia mais elevados durante mais tempo e a uma evolução internacional menos favorável, podendo culminar, assim, em menor crescimento económico e inflação mais elevada do que atualmente previsto», acrescenta.
Certo é que, nos dias de hoje, todos os dias podem trazer alterações ao futuro da economia. A inflação continua a subir mas o mais recente acordo entre EUA e Irão pode trazer algum alívio. Segundo Vítor Madeira, analista de mercados da XTB, esse acordo poderá ser um «catalisador relevante do lado da oferta global, com impactos concentrados no mercado das commodities energéticas», lembrando que a flexibilização das sanções económicas «permitiria o regresso gradual de mais de um milhão de barris de crude diários ao circuito comercial, o que pressionaria o preço do barril de Brent para baixo». É certo que, como a energia é um «custo transversal que contamina desde a produção industrial até à distribuição logística, este alívio ajudaria a arrefecer a inflação global». E Vítor Madeira recorda que os mercados já reagiram e «já observamos quedas fortes no preço do petróleo, o que poderá reduzir dentro de alguns meses a pressão inflacionária».
Questionado sobre como pode este aumento impactar as famílias portuguesas, Vítor Madeira defende que as fortes quedas «deverão criar um alívio nos preços dos combustíveis e, por sua vez, ajudar as famílias a recuperar uma parte do seu poder de compra». Caso contrário, alerta, com o regresso da guerra, «esta podia facilmente escalar o preço do petróleo novamente e, dessa formal o quotidiano dos consumidores portugueses continuaria a ser marcado por uma compressão do seu rendimento disponível». O analista explica que a inflação persistente «funciona como um corte salarial invisível, uma vez que as atualizações salariais raramente conseguem acompanhar a velocidade da subida dos preços». E avisa para uma consequência direta: as famílias vão organizar as prioridades orçamentais e «assistiremos a uma degradação da já reduzida taxa de poupança média em Portugal».
Para as empresas, o cenário também não é animador: «O tecido empresarial português, composto maioritariamente por micro, pequenas e médias empresas, encontra-se num cenário ‘esmagado’ de margens financeiras», diz Vítor Madeira. E explica que, as organizações enfrentam o complexo dilema do chamado pricing power, «isto é, a capacidade de refletir o aumento dos custos das matérias-primas e da energia nos seus preços de venda sem perder a carteira de clientes para a concorrência». O cenário pode ficar ainda pior: «Aquelas que optam por absorver os custos sofrem uma perda severa de rentabilidade nas suas margens, o que, combinado com o atual custo elevado do crédito bancário, paralisa novos investimentos de modernização e fragiliza as empresas que já apresentam níveis de endividamento mais salientes», explica.
Sobre se existe o risco de a inflação voltar a níveis semelhantes aos registados após a crise energética de 2022, o analista diz que essa probabilidade «é muito reduzida». Isto porque a crise desse ano «foi desencadeada por um choque geopolítico e estrutural profundo com o corte abrupto do gás russo, numa altura em que as cadeias de distribuição mundiais ainda recuperavam dos estrangulamentos da pandemia» a que se juntam «injeções de capital sem precedentes pelos Bancos Centrais» que foram o «cocktail perfeito para explodir os preços dos bens e serviços». Hoje, o panorama macroeconómico «mostra cadeias logísticas normalizadas, uma Europa com fontes energéticas mais diversificadas e bancos centrais focados na contenção da liquidez».
Ainda que a inflação tenha vindo a dar sinais contraditórios, para Vítor Madeira diz que as projeções apontam para que o nosso país entre «numa fase de estabilização persistente, fixando-se, no entanto, em patamares acima da meta idealizada dos 2%» e é da opinião que «embora os chamados efeitos de base ajudem a suavizar os indicadores oficiais quando comparados com os picos do passado, a inflação subjacente demonstrará uma rigidez considerável».
O analista diz que este fenómeno «será alimentado pela resiliência do mercado de trabalho nacional e pelo dinamismo contínuo do setor do turismo, que mantém a procura interna aquecida e sustenta a rotação de preços elevada na economia, sugerindo que o alívio total ainda irá demorar a materializar-se».