Os alarmes voltaram a soar com mais um aviso da Agência Internacional de Energia (AIE): As reservas de petróleo estão a esgotar-se «muito rapidamente», disse o diretor executivo Fatih Birol, garantindo que «restam várias semanas, mas devemos estar cientes que está a diminuir rapidamente».
Com os preços a aumentar à velocidade da luz, será este aviso motivo de alarme?
Para Paulo Monteiro Rosa, economista do Banco Carregosa, as declarações da AIE devem ser vistas «mais como um alerta sobre a fragilidade do sistema energético global do que como um aviso de que o mundo está prestes a ficar sem petróleo».
O economista assume que as reservas estratégicas estão a diminuir à medida que o estreito de Ormuz continua quase totalmente bloqueado, «e essas reservas são, como o próprio nome indica, mecanismos temporários de emergência destinados a responder a disrupções de curto prazo no abastecimento». Trata-se, no fundo, «de petróleo já armazenado acima do solo, utilizado precisamente para estabilizar o mercado e garantir continuidade de fornecimento durante alguns meses em cenários excecionais».
O economista Paulo Monteiro Rosa defende que o mundo está longe de enfrentar um esgotamento geológico do petróleo. Pelo contrário, as reservas conhecidas continuam elevadas e, em muitos casos, superiores às estimadas há décadas, graças aos avanços tecnológicos, às novas descobertas e a métodos de extração como o shale oil nos EUA, o offshore e o pré-sal muito comum na extração de petróleo do Brasil.
Segundo o economista, o debate atual já não é sobre a falta de petróleo, mas sim sobre a capacidade de produção, transporte, refinação e distribuição de energia num contexto de tensões geopolíticas. «O Peak Oil geológico há muito ficou para trás», afirma, sublinhando que os atuais desafios passam pela logística, investimento e estabilidade internacional.
Paulo Monteiro Rosa destaca ainda que as maiores reservas de petróleo se concentram no Médio Oriente, Canadá e Venezuela. Com mais de 1,5 biliões de barris conhecidos e um consumo diário de cerca de 75 milhões de barris, considera existirem reservas suficientes para mais de 50 anos ao ritmo atual.
Para o economista, o verdadeiro problema não é a inexistência de petróleo, mas sim garantir que o sistema global consegue produzir, transportar e entregar energia de forma estável perante guerras, conflitos e tensões internacionais.
Ao Nascer do SOL, João Freitas, vice-presidente da Associação Nacional de Revendedores de Energia, Combustíveis, Estações de Serviço, Estacionamentos e Lavagens Automóveis (Anarec), defende que estas declarações «devem ser lidas com prudência e sem alarmismo». O responsável acrescenta que a avaliação técnica sobre reservas internacionais e nacionais não é da competência desta associação. No entanto, lembrando que em Portugal essa responsabilidade é da ENSE, João Freitas adianta que «de acordo com a informação que dispomos à data, e é pública, a ENSE, assegura diretamente parte das reservas de segurança nacionais, existindo também reservas constituídas pelos operadores obrigados». Portanto, as boas notícias são que, para já, não há informação «que permita afirmar que exista risco iminente de falta de combustível no país».
Além disso, o vice-presidente da Anarec recorda que «os mercados internacionais não são homogéneos» e que existem «diferenças relevantes entre bacias de consumo e abastecimento, nomeadamente entre o Atlântico e a Ásia-Pacífico, pelo que uma leitura global das reservas não deve ser automaticamente transposta, sem enquadramento, para a realidade portuguesa ou europeia».
Da mesma opinião é a Associação de Empresas Portuguesas de Combustíveis e Lubrificantes (Epcol) que ao nosso jornal refere que as declarações da AIE não serão «sinal de alarme, mas temos de ver estas declarações como um sinal de alerta, perante a possível rutura no mercado de refinação e distribuição, atendendo a que as reservas globais estão a cair ao ritmo acelerado devido ao bloqueio prolongado do Estreito de Ormuz, o que coloca o mercado num défice estrutural severo, pelo menos até ao final do ano». E acrescenta que «a situação das reservas de petróleo e combustíveis em Portugal apresenta-se estável, estando resguardada por uma diversificação de fornecedores».
Consequências
E se as reservas mundiais de petróleo continuarem a cair rapidamente, até que ponto isso pode afetar inflação, transportes e preços dos alimentos em Portugal?
Paulo Monteiro Rosa explica que se as reservas estratégicas e os stocks comerciais continuarem pressionados, «é possível uma intensificação do aumento dos preços dos combustíveis, dos transportes e da energia, acabando por impulsionar também o preço dos alimentos e a inflação em Portugal», acrescentando que o petróleo «continua a ser central para a logística, agricultura, indústria e transporte global».
No entanto, defende que o cenário mais provável «é o de maior volatilidade e preços elevados devido a tensões geopolíticas e problemas logísticos, e não uma falta física de petróleo no mercado». E dá números: o petróleo pesa mais de 50% na matriz energética primária portuguesa e o gás natural à volta de 15%, ou seja, «estes dois combustíveis fósseis respondem por dois terços do mix energético primário de Portugal».
Questionado sobre se Portugal e Europa têm alternativas reais para reduzir a dependência do petróleo do Médio Oriente no curto prazo, o economista do Banco Carregosa diz que, no curto prazo, «as alternativas são limitadas». E acrescenta: «Apesar da transição energética em curso, e muito impulsionado após a crise energética de 2022, a Europa continua muito dependente do petróleo e do gás». É que, apesar de existir «alguma diversificação através de importações dos EUA, Brasil, África ou Noruega, o Médio Oriente continua a ter um peso central no mercado global devido à sua enorme capacidade de produção e exportação».
Já a médio e longo prazo, «a aposta nas energias renováveis, a eletrificação, a crescente eficiência energética e as novas tecnologias deverão reduzir essa dependência, mas essa transição demora e tem custos significativos».
Preços podem continuar a subir
A verdade é que este alerta da AIE pode vir agravar uma tendência que já tem acontecido nos últimos tempos: o aumento do preços dos combustíveis. Atualmente na casa dos dois euros por litro tanto para gasolina simples 95 como para gasóleo simples, estes valores estão muito acima do que se verificava em 2019 mas, ainda assim, muito semelhantes aos do período inicial da guerra na Ucrânia.
E podem continuar na tendência de subida. João Freitas é perentório: «É expectável que continuem sujeitos a volatilidade, em função das cotações internacionais do crude e dos produtos refinados, dos custos logísticos, dos biocombustíveis, da taxa de câmbio e da carga fiscal». E, por isso, a Anarec defende «um acompanhamento atento pelas entidades competentes, com informação clara ao mercado e aos consumidores, evitando leituras precipitadas ou alarmistas».
Já a Epcol alerta que «a persistir a contração da oferta, haverá uma pressão no sentido da subida». No entanto, acrescenta que existem muitos fatores «que influenciam as cotações nos mercados internacionais que são fortemente influenciados pelas perceções e, portanto, pela evolução geopolítica, pelo que a volatilidade deverá manter-se».
Por sua vez, Paulo Monteiro Rosa adianta que enquanto persistirem as tensões geopolíticas no Médio Oriente e a disrupção no abastecimento global, «os preços dos combustíveis poderão continuar elevados e com volatilidade acima do habitual». Todavia, o mercado petrolífero «é muito sensível a fatores políticos, económicos e financeiros, pelo que movimentos bruscos de subida podem também ser seguidos de correções rápidas caso a situação estabilize ou a procura global abrande».
Na sua opinião, mesmo «que o conflito terminasse amanhã, é difícil que os preços dos combustíveis regressem no curto prazo aos níveis pré-conflito, devido ao prémio de risco elevado que poderá persistir durante algum tempo». «Desde seguros mais caros para os petroleiros até salários mais elevados das tripulações, tudo isso implica custos adicionais que acabam por refletir-se no preço final do petróleo e dos combustíveis», finaliza.
Economia muito mais diversificada
O Nascer do SOL tentou ainda perceber se há risco de esta crise energética provocar uma recessão semelhante às crises petrolíferas dos anos 70. Paulo Monteiro Rosa explica que «existe risco de abrandamento económico se os preços da energia permanecerem elevados durante muito tempo, sobretudo devido ao impacto na inflação, nos custos de produção, na deterioração do rendimento disponível e, consequentemente, no consumo».
No entanto, defende que a economia global atual «está muito mais diversificada, eficiente e tecnologicamente preparada do que nos anos 70, além de existirem reservas estratégicas, mercados mais flexíveis e maior diversificação de fornecedores». Por último, «nunca houve tantas reservas de petróleo conhecidas no subsolo, além de existirem hoje muitas alternativas energéticas».
Na sua opinião, o cenário mais provável será «o de maior volatilidade económica e pressão inflacionista, e não necessariamente uma repetição direta das crises petrolíferas dos anos 70. Pelo menos esse não é o cenário principal em cima da mesa atualmente».