segunda-feira, 09 mar. 2026

‘Os bancos têm criado mais postos de trabalho nos últimos três anos’

Paulo Marcos, Presidente do SNQTB, diz que, face aos resultados que a banca tem apresentado, não faz sentido apresentar propostas de aumentos salariais inferiores a 2,25%. As negociações continuam mas não descarta a realização de ‘protestos, manifestações e, eventualmente, greves’ no setor
‘Os bancos têm criado mais postos de trabalho nos últimos três anos’

Como vê a situação da banca em Portugal? Os bancos começam a apresentar os resultados de 2025, mas os lucros têm descido face a 2024. Era previsível? O ano de 2025 foi de uma certa normalidade, aliás, 2024 foi um pouquinho excecional. Acho que 2025, 2026 e 2027 vão ser muito similares, com bons níveis de rendibilidade, suficientes para remunerar trabalhadores, acionistas e fornecer crédito.

Foi atípico por causa da descida das taxas de juro?

Por um lado, a taxa de crescimento do PIB foi um pouco superior àquilo que é o potencial de longo prazo da economia, por outro, devido à descida das taxas de referência, num ano em que caíram de forma rápida. Também a margem de intermediação e o alto dos passivos bancários melhorou bastante. Esses efeitos de automatismo desapareceram e agora têm um negócio normal: recolher depósitos, avaliar riscos e emprestar dinheiro.

É mais fácil explicar aos portugueses os lucros obtidos pela banca? Agora com a tempestade as ajudas à banca voltaram a ser faladas...

Os lucros dos bancos não são elevados face aos capitais que são empregues. Há ‘n’ setores na economia portuguesa que são muito mais excitantes, em termos de remuneração do que oferecem aos investidores. Tanto é que só agora, após 15 anos, é que a cotação dos bancos se aproxima daquilo que é o seu valor. Durante 15 anos, os bancos cotados estavam abaixo do seu valor capitalista, o que quer dizer que os investidores viam os bancos como sendo incapazes de valorizar adequadamente os capitais. Nestes últimos 15 anos quem investiu nos bancos a nível europeu não terá feito um negócio muito excitante. A distribuição alimentar, a energia, as telecomunicações, as tecnologias de informação são setores que deram remunerações aos acionistas entre duas a sete vezes superiores. Os lucros dos bancos são altos em volume, mas são relativamente baixos em relação aos capitais que usam. Se compararmos com empresas de software instaladas em Portugal, mas que não publicam contas no nosso país, como a Microsoft, Google, Meta, etc., arrisco-me a dizer que essas remunerações do capital são duas, três, quatro vezes mais. Por exemplo, a Apple ganhou 103 mil milhões de euros no último trimestre, mas, que se saiba, a Apple não pagou impostos em Portugal nem cria empregos. Possivelmente a Apple em Portugal ganhou mais dinheiro do que o BCP, e o BCP paga impostos, gera empregos – é responsável, direta ou indiretamente por mais de meio milhão de empregos – e concede crédito a milhares. Então temos muito por onde começar a pedir solidariedade. O que há em Portugal é um problema ao nível de remuneração dos depósitos, que está na média baixa da União Europeia, mas o regulador tem um bom mecanismo para isso.

O que pode fazer?

É dificultar as operações de fusão e concentração e promover maiores níveis de concorrência. Ora, o que temos visto é que, nesta última década, permitiu-se que houvesse um conjunto de aquisições e fusões em território nacional. Não podemos dizer que queremos ter um setor muito eficiente, tecnologicamente avançado e depois acharmos estranho que um setor muito concentrado tenha um nível de concorrência na captação de depósitos relativamente mais baixo. Se calhar os portugueses têm de ser mais exigentes com o Banco de Portugal e com o Ministério das Finanças.

No ano passado, o stock em depósitos ultrapassou os 200 mil milhões...

Assistimos a um nível de concentração razoavelmente elevado na captação dos depósitos, onde os cinco maiores bancos têm mais de 80% de quota de mercado e é uma situação relativamente atípica e não acontece no Reino Unido, na França, na Itália, mas acontece em Espanha, curiosamente. Mas se uma remuneração abaixo da média europeia atinge recordes de depósito então acho que está tudo bem. O mercado funciona para a apetência dos portugueses a produtos de poupança mais tradicionais que tipicamente não cobrem o custo da inflação. No entanto, isso é uma preferência pela liquidez em detrimento da rentabilidade, que é capaz de ser uma característica idiossincrática da sociedade portuguesa.

Em relação à estrutura dos bancos continuam a ser anunciadas saídas de trabalhadores e fecho de balcões?

Nos últimos três anos, o setor tem criado mais postos de trabalho do que tem destruído. O saldo é positivo desde 2022, inclusive.

As estruturas foram tão reduzidas que agora é necessário ajustar?

Isso com certeza, porque houve uma redução demasiado acentuada numa expectativa de que a digitalização e a inteligência artificial teriam impactos mais rápidos do que têm tido. Daí nos últimos dois anos ter havido, claramente, um reforço de contratação, mas nem todos dotaram os seus quadros dos efetivos necessários, ainda espero que alguns dos bancos clássicos continuem a contratar. Por outro lado, o perfil de emprego mudou. Hoje vemos menos emprego de contacto e está mais ligado às tecnologias, análise de risco e controle. Portugal, com uma mão-de-obra qualificada relativamente jovem e mal paga face ao centro da Europa, é muito atrativo. Há menos balcões, mas o emprego tem crescido de forma modesta, nestes últimos três anos terá crescido 2%, depois de vir de uma década e meia em que decresceu 2 a 3% ao ano.

O Abanca é um caso isolado?

O Abanca é o resultado da fusão de três estruturas: Deutsche Bank, Abanca e Eurobic. São várias operações com algumas sobreposições e o Eurobic era talvez o único dos 10 principais que ainda não tinha feito um redesenho das suas estruturas que estivesse em linha com os seus pares quanto à digitalização e automatização e está a fazer agora o que não foi feito durante uma década devido a alguma incerteza acionista. Até ver, estamos a falar de programas voluntários, de uma escala muito pequena e depois de alguns percalços iniciais, ainda em 2024, os processos têm decorrido de forma consensual, sem atrito. Estamos a acompanhar, até agora não temos nada a apontar.

E quanto aos aumentos salariais?
Não estamos muito avançados. No ano passado, os sindicatos mais politizados ou partidarizados fecharam acordos de 2,5% sobre as tabelas, nós não fechámos. Estamos nos processos de tentativa de ação junto da Direção-Geral de Emprego e Relações de Trabalho no que toca a 2025. Este ano as propostas negociais dos bancos estão entre 1,5% e 1,8% quando as expectativas de inflação variam entre 2,1% e 2,4%, a priori não vemos razão nenhuma para que a negociação se faça em bitolas abaixo de 2,25%. É um processo que, como se costuma dizer, ainda está no adro, depende da resistência e da capacidade de lutar de cada uma das partes. Estou razoavelmente otimista quanto à possibilidade de atingir um acordo razoável.

Quando haverá novidades?

Possivelmente depois de uma ronda de protestos, manifestações e eventualmente greves. Vejo um certo imobilismo e uma tentativa de empobrecer os bancários. Não me parece que faça sentido quando o setor está robusto, sólido, com bons níveis de rendibilidade e com capacidade para acomodar aumentos salariais faça a classe bancária perder poder de compra. Do ponto de vista moral é absolutamente escandaloso propostas abaixo da inflação quando o setor está a conseguir remunerar capitais entre 13% e 15%, que são níveis adequados. Numa reunião, o presidente do conselho de administração do Abanca estava muito otimista com Portugal e passo a citar: ‘É o segundo país da Europa com melhor remuneração acionista na banca’. Então, não faz sentido sermos os segundos mais mal remunerados trabalhadores bancários da Zona Euro.

Quando podem ocorrer estas paralisações ou greves?

O SNQTB, como sindicato de matriz independente, negoceia até ao limite. Não parto para as negociações com pré-condições e com posições de chantagem. Ainda estamos a negociar e há um caminho a fazer. Não temos ainda em cima da mesa um calendário de lutas extremas, mas, como mostrámos nestes últimos anos e agora recentemente na greve geral, estamos cá para todas as contingências, sem medo nenhum.

Em relação à reforma laboral, faz sentido não terem sido ouvidos?

A ministra resolveu tirar esta reforma do chapéu sem ter envolvido ninguém, muito especialmente os sindicatos independentes. O mundo laboral não acaba na UGT e na CGTP, arrisco-me a dizer que o mundo laboral é, grosso modo, independente. É muito estranho num Governo social-democrata, em teoria reformista, a ministra continuar a pensar que estamos em 11 de março de 1975. O mundo laboral mudou bastante e os sindicatos e os trabalhadores portugueses têm níveis de qualificação e formação que lhes permite opinar, participar nestas discussões desde o início e não se revêm nos representantes do costume. Não só o SNQTB é o maior sindicato português, como está numa central sindical há 30 anos e há 30 anos que é marginalizada e ostracizada. Percebo que a independência causa incómodo. Este anteprojeto é um retrocesso civilizacional e, através da capa de uma suposta modernidade, pretende introduzir uma redistribuição de rendimentos que nos aproxima de um padrão terceiro-mundista, mais para o capital e menos para os trabalhadores. Aparentemente, ninguém encomendou isto e não se percebe muito bem porque raio a ministra tirou isto da cartola, não se encontra respaldo em nenhum programa eleitoral, nem do CDS nem do PSD. E o que isto vai provocar é que vai tornar o despedimento fácil, rápido e barato. A perseguição à parentalidade e à amamentação é apenas a ponta do iceberg de um desvario completo. E no limite permite que um jovem vá até à velhice sempre em contratos a prazo.

Que avaliação faz do novo governador do BdP?

Não notamos na esfera pública a existência de um governador ou do Banco de Portugal, acho que é o maior elogio que se pode fazer. A partir daí temos de tirar ilações e elogiar Santos Pereira por ser sóbrio nas suas intervenções, recentrando o Banco de Portugal nas suas capacidades em análises técnicas e isso é bem-vindo. Provavelmente, Mário Centeno achou que mereceria um palco maior do que aquele que o árbitro – como deve ser visto o Banco de Portugal – lhe oferecia. Eventualmente Centeno seria um bom ministro do Trabalho, que não tivemos

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