Relacionados
As operadoras de telecomunicações europeias lançaram um aviso à Comissão Europeia: se Bruxelas as forçar a remover tecnologia chinesa das suas redes, os serviços vão colapsar. E a fatura pode ser muito elevada.
Numa carta enviada à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, a que o jornal POLITICO teve acesso, os dois grupos de pressão mais influentes do setor — GSMA e Connect Europe — alertam que uma "substituição em larga escala" da tecnologia chinesa "não pode ser alcançada sem perturbar a qualidade e disponibilidade dos serviços durante e após a transição".
A missiva, datada de 10 de fevereiro, representa a crítica mais contundente da indústria à nova proposta legislativa da Comissão para impor normas obrigatórias de cibersegurança nas cadeias de fornecimento tecnológico.
Custos "vastamente subestimados"
"Os custos destas medidas são vastamente subestimados", lê-se carta. "É um ato de autolesão para a Europa desviar recursos escassos — investimento e pessoas — para um exercício de arrancar e substituir quando a Europa precisa de recuperar o atraso face aos seus pares globais."
A Comissão Europeia estima que a remoção de tecnologia considerada de risco custará às operadoras entre 3,4 mil milhões e 4,3 mil milhões de euros por ano, durante três anos — um total que pode atingir os 12,9 mil milhões de euros.
Mas a indústria contesta estas contas e garante que os valores reais serão muito superiores. Além disso, a proposta de revisão da Lei da Cibersegurança "não inclui medidas para compensar a indústria das telecomunicações", criticam.
Setor já debilitado enfrenta novo golpe
A contestação surge numa altura em que os líderes europeus se reuniram esta semana na Bélgica para discutir como revigorar a economia europeia. O setor das telecomunicações foi identificado pelo antigo primeiro-ministro italiano e conselheiro de competitividade da UE, Mario Draghi, como um dos setores-chave com dificuldades para competir globalmente.
"A proposta vai além das preocupações de segurança e não considera o ciclo de investimento do setor, o que significa que todos os setores da economia pagarão o preço", avisam GSMA e Connect Europe.
Embora a legislação vise várias indústrias, as telecomunicações serão as primeiras a ter de cumprir requisitos vinculativos para eliminar tecnologia considerada de risco.
Medidas "sem precedentes" a nível mundial
Os lobbies sublinham que "o prazo e o âmbito da UE para remover equipamento de fornecedores de alto risco de redes de telecomunicações inteiras são igualmente sem precedentes a nível global".
A vice-presidente executiva da Comissão para política tecnológica e de segurança, Henna Virkkunen, disse ao POLITICO em janeiro que não estava "satisfeita" com a forma como os Estados-membros da UE implementaram a caixa de ferramentas 5G — o conjunto de recomendações de segurança para redes móveis aprovado em 2020.
A pressão de Bruxelas para acelerar a exclusão de fornecedores chineses como a Huawei e a ZTE intensificou-se nos últimos meses, num contexto de crescentes tensões geopolíticas entre o Ocidente e a China.
No entanto, as operadoras argumentam que a transição tecnológica tem de ser gradual e planeada, sob pena de comprometer a prestação de serviços essenciais a empresas e cidadãos europeus.