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O que se temia com um novo conflito é mesmo um cenário provável: os recentes ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irão aumentam o risco de inflação e colocam a economia europeia em alerta.
À semelhança do que aconteceu em 2022 com a invasão russa na Ucrânia, há o receio de uma espiral da subida de preços que, na altura, obrigou à subida mais abrupta de sempre das taxas de juro. Esse é o cenário que ninguém quer ver repetido (mas que pode acontecer).
Como estava a economia europeia antes do conflito e o que muda?
O Banco Central Europeu parecia estar numa fase estável. As taxas de juro mantinham-se nos 2%, nível considerado confortável para equilibrar crescimento e controlo da inflação. A economia dava sinais de recuperação gradual, com crescimento moderado, e a inflação estava controlada, no limite a que o banco de Christine Lagarde considera aceitável.
Tudo muda com o conflito no Médio Oriente, que vem criar a incerteza do que pode acontecer daqui para a frente: e quanto mais tempo passa, pior pode ficar.
O preço do barril de Brent subiu quase 10% esta segunda-feira, tendo ultrapassado o valor de sexta-feira, dia anterior à Operação "Fúria Épica" que já tinha sido o mais elevado dos últimos sete meses. Além disso, a interrupção do estreito de Órmuz, uma das mais importantes rotas marítimas do mundo e por onde passa cerca de 20% do consumo mundial de petróleo, preocupa os especialistas que alertam para uma inevitável subida dos preços, possivelmente de forma generalizada e não apenas do petróleo e combustíveis.
De acordo com o jornal Observador, analistas do Bankinter têm a expectativa de que o conflito seja curto e, consequentemente, os impactos sejam possíveis de atenuar. No entanto, num cenário em que a guerra se prolongue, não há como aliviar os riscos.
Quais os cenários hipotéticos?
Jörg Krämer, economista-chefe do Commerzbank, explica que uma guerra prolongada pode aumentar a inflação na zona euro, pelo menos 1%. Já relativamente ao crescimento económico, o impacto seria um decréscimo de poucas décimas.
Christian Schulz, da Allianz Global Investors, acrescenta: a subida de 5% a 10% no preço do petróleo tende a elevar a inflação em 0,1 a 0,3%, a curto-prazo.
Posto isto, e parecendo que a economia europeia está a entrar numa espécie de "deja vu" onde já viveu este cenário em 2022, o BCE tem que fazer uma escolha: subir novamente os juros para conter a inflação, ou, por outro lado, proteger a economia europeia dos efeitos colaterais do conflito. Se, por um lado, Krämer diz que o BCE pode ignorar a pressão dos preços, se a inflação esperada não subir, o banco neerlandês ING alerta que será pouco provável o Banco Central Europeu ver a subida de preços como algo passageiro, após ter atravessado a mais recente crise de inflação.
Resta aguardar não só pela decisão do Banco Central Europeu, como pelo desenrolar do conflito no Médio Oriente, iniciado no passado sábado com ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irão. Já morreram mais de 500 pessoas no Irão. O conflito já se estende a vários países alvos de retaliação, nomeadamente ao Chipre, membro da União Europeia. Donald Trump dá a previsão de quatro a cinco semanas para chegar a um cessar-fogo, mas o seu aliado de conflito, Israel, garante que "a guerra vai durar o tempo que tiver de durar".