O negócio entre a Galp e a Moeve para a refinaria de Sines está a deixar o Governo em alerta. Apesar de a ministra do Ambiente ter inicialmente afastado a ideia de uma perda estratégica para Portugal, o ministro da Economia já veio admitir que o Governo irá ter uma atuação "cautelosa", uma vez que, estão em causa "interesses estratégicos do Estado". O Estado tem uma participação na Galp de 8,24% através da Parpública.
Em causa está a fusão da atividade de refinação e combustíveis entre as duas empresas na Península Ibérica e, mesmo tratando-se de de um negócio entre companhias privadas, Manuel Castro Almeida chama a atenção para a relevância dos ativos envolvidos. "Sabendo que o essencial da negociação pertence às empresas, estamos a falar de um negócio entre empresas que são privadas. Agora, há uma relação com interesses estratégicos do Estado em que o Estado tem de estar atento e estará", referiu o governante.
Uma posição vista com naturalidade por João Queiroz, Head of Trading do Banco Carregosa. "A posição do Governo é natural e institucionalmente adequada. Estamos a referir-nos a infraestruturas críticas – energia, combustíveis, logística e mobilidade – com implicações claras e diretas na segurança de abastecimento, concorrência e transição energética", realçou, acrescentando que "acompanhamento não significa interferência, mas apenas monitorização regulatória e estratégica, assegurando alinhamento com o interesse público, regras de concorrência e compromissos climáticos, ou seja, boa governança". "Esse enquadramento tende, aliás, a reduzir risco político de futuras contestações e tende a ser observado de forma construtiva pelos investidores", referiu ao Nascer do SOL.
O que está em causa
João Queiroz reconhece que a separação em duas plataformas – uma focada em retalho e mobilidade (RetailCo) e outra industrial (IndustrialCo), tal como tem sido apresentado o projeto, irá permitir "maior foco estratégico, melhor alocação de capital" e, ao mesmo tempo, "potencia sinergias operacionais significativas, num setor cada vez mais intensivo em escala e investimento".
Quanto ao impacto no mercado nacional não hesita: "Reforça a posição da Península Ibérica como hub energético e industrial competitivo, com capacidade para atrair investimento em refinação, petroquímica e, sobretudo, em moléculas verdes como o hidrogénio. Internacionalmente, cria plataformas com escala e dimensão europeia, capazes de competir num contexto de consolidação do setor energético e de aceleração da transição energética".
E dá exemplos: a Galp possui aproximadamente 1.240 postos na Península (706 em Portugal e 524 em Espanha) e uma refinaria em Portugal (Sines), além de 1,7 GW de renováveis instaladas na Península. Por seu lado, a Moeve tem 1.736 postos nos dois países (252 em Portugal e 1.484 em Espanha) e duas refinarias em Espanha.
No entanto, recorda que, segundo a proposta, a RetailCo ficará com uma rede de 3.500 postos na Península, em controlo conjunto 50%/50%, estimando-se aproximar da escala da Repsol no retalho ibérico, enquanto a IndustrialCo consolida três refinarias (Sines, Huelva e Algeciras) com 700 kbpd de capacidade conjunta, ficando a Galp com uma posição minoritária: menos de 20%. "Em termos de geração renovável, a ‘comparação direta’ com Repsol resulta menos óbvia, porque a operação é principalmente downstream, ainda assim, a Galp mantém um bloco relevante (1,7 GW na Península), enquanto a Repsol já tem escala em renováveis (por exemplo, uma carteira com 700 MW em Espanha)".
Já Vítor Madeira, analista da XTB, reconhece que, para a Galp, "este movimento permite uma desalavancagem operacional no setor fóssil tradicional, uma vez que, ao manter apenas 20% da unidade industrial, a empresa liberta-se do peso da gestão direta da refinação e dos seus riscos regulatórios para se focar no seu upstream, nomeadamente na exploração na Namíbia e no Brasil", enquanto para a Moeve, sob o controlo da Mubadala e da Carlyle, este negócio garante a escala crítica necessária para competir com a Repsol, "consolidando um eixo industrial de elevada eficiência logística entre Cádiz, Huelva e Sines".
Em relação às consequências para o mercado nacional, admite que esta operação gera sentimentos mistos. "O facto de a Refinaria de Sines, que é responsável por 90% do combustível consumido no país, passar a ser gerida por uma entidade sediada em Espanha e maioritariamente detida por capitais estrangeiros de Abu Dhabi e dos EUA, levanta questões de autonomia estratégica que o Governo português já confirmou estar acompanhar com atenção". No entanto, lembra que esta integração potencia a eficiência e a transição energética, "visto que a escala da nova empresa permite investimentos em hidrogénio verde e combustíveis sustentáveis para aviaçã que a Galp dificilmente suportaria de forma isolada, transformando Sines num componente vital de um hub multi-energias mais resiliente".