quarta-feira, 13 mai. 2026

Leonardo Mathias. “Vamos conseguir recuperar 40% das garrafas já neste ano”

Leonardo Mathias afasta a ideia de que esteja a ser criada mais uma taxa, referindo que o cliente paga,  mas recebe. E deixa em aberto, tal como está previsto na lei, que o valor possa subir. O presidente da SDR diz ainda que as embalagens ao serem reutilizadas permitem que Portugal evite a produção ou a importação de mais plástico.
Leonardo Mathias. “Vamos conseguir recuperar 40% das garrafas já neste ano”

Como está a correr a implementação do sistema Volta?

A informação que nos chega da indústria de retalho em Portugal, bem como da distribuição e da produção de bebidas é que está a correr muitíssimo bem, mas também temos feito um esforço bastante significativo de informação à população por parte de uma entidade gestora que foi licenciada pela Agência Portuguesa do Ambiente, pela Direção-Geral de Economia e homologada pelos respetivos ministérios. A legislação não tem nada de novo, houve uma primeira em maio de 2024, há uma segunda alteração em maio desse ano, é uma legislação que já faz dois anos. Acima disso, temos um regulamento europeu que entrará em vigor no dia 12 de agosto e que é de incorporação direta no benefício jurídico nacional, num contexto que temos um consumo anual em Portugal de 2,1 mil milhões de unidades entre garrafas de plástico até três litros e latas de alumínio. Somos 10,7 milhões de habitantes e há uma particularidade portuguesa que também é muito significativa no sul da Europa é que não há aldeia que não tenha um café ou um restaurante. Ou seja, em Portugal, há 92 mil pontos de venda deste tipo de garrafas e podemos acrescentar os 29 milhões de turistas que recebemos.

Foram criadas várias modalidades.

Criámos uma rede de recolha ao abrigo da lei que é dividida em três. Número um, é a rede de recolha obrigatória que são os supermercados com um espaço superior a 400 metros quadrados. A segunda rede, a que chamamos de rede suplementar, que são os quiosques Volta, em que as máquinas são muito maiores e aceitam um fluxo muito superior às que vemos nos supermercados. Vamos ter 48 desses quiosques, espalhados em 36 municípios. Neste momento, quatro a cinco municípios já têm estes quiosques com o objetivo de servir o canal Horeca. E finalmente há a rede voluntária, estamos a estudar se naquilo que equacionámos na nossa rede há falhas de mercado. É o caso, por exemplo, dos portos de recreio, aeroportos, eventos.

Quantos vão ser instalados?

Os chamados automáticos são cerca de 2.550, depois há os chamados aderentes manuais, neste momento, temos 871 e estamos a negociar mais 580. Isto faz uma cobertura total do nosso país e todos os estudos que temos apontam no sentido que conseguimos atingir não só a capitalidade do nosso país, como também conseguimos atingir aquilo a que nos propusemos e que é o mais importante que é cumprir as metas que foram definidas na nossa licença e que estão explicitadas no Regulamento Europeu.

Estava à espera desta desconfiança?

Todos sabemos e é humano que qualquer mudança gera desconfiança e desconforto, mas posso garantir que há mitos urbanos. Um é que é mais um imposto para o Estado, está errado. O segundo é que o Estado anda a gastar dinheiro, não. O investimento de 150 milhões foi feito pelos associados. Outro mito é que alguém vai ganhar com isto, está errado e na lei está definido que podemos ter a figura de uma associação sem fins lucrativos que é o que temos. Todas estas pequenas faltas de informação são perfeitamente aceitáveis e estamos a fazer um esforço de irmos esclarecendo. Há uma coisa muito interessante que tem acontecido, particularmente nas redes sociais, onde aparecem comentários: ‘Vivi na Alemanha, vivi na Bélgica, vivi na Holanda, vivi na Suécia, vivi na Roménia’ e têm sido essas pessoas que passaram por essa experiência que dizem que é graças a este sistema que as ruas, os rios de muitos países europeus estão limpos destas garrafas e destas latas. Cada país tem o seu desafio e cada comunidade tem os seus hábitos.

E qual é nosso desafio? É uma questão de mentalidade?

Primeiro, há desconhecimento. Há quem diga não vou comprar garrafas que tenham o símbolo Volta, pedimos desculpa, mas a partir de 9 de agosto, que é o fim do período de transição, não haverá garrafas sem este símbolo. A não ser que a pessoa não queira beber nem mais uma cerveja, nem um sumo, nem uma água e é livre de o fazer. Depois, volto a repetir, não é uma taxa. O cidadão paga, mas recebe. Obviamente que tem de ser ambientalmente responsável, na medida em que se estragar a garrafa, tirar o papel, tirar a marca, espalmar e se ficar inutilizada irá para o ecoponto amarelo. Também temos consciência de que passámos 37 ou 38 anos a explicar à população que quando vir uma garrafa de plástico para tirar a tampa, esmigalhar a garrafa, até podia tirar o papel e metê-la no ecoponto amarelo. Depois aparece esta identidade a dizer: não tire a tampa, não esmigalhe a garrafa, não arranque o papel, mantenha a garrafa em condições aceitáveis e não a ponha no ecoponto amarelo, mas numa máquina que diz Volta.

As exigências não são demasiado apertadas?

Temos de nos habituar. São regras europeias que temos de cumprir e a vantagem deste sistema é que as garrafas entram diretamente num centro de contagem e triagem e são vendidas a um reciclador que transforma essas garrafas em novas garrafas e essas latas em novas latas. Nós, sim, somos o símbolo da economia circular em Portugal, como nunca houve. Nós, sim, vamos potenciar aquilo que os engenheiros do ambiente falam muitas vezes que é o chamado plástico infinito. Não temos de produzir mais, porque tudo o que fazemos vai ser reutilizado. Este é talvez o aspeto mais relevante que é o de possibilitar a não criação de mais plástico em Portugal, nem a importação de mais plástico para Portugal.

A aplicação dos 10 cêntimos estimula este sistema?

Fizemos um estudo baseado num cabaz de comidas comparativo na Europa, um estudo baseado em capacidade de poder de compra e rendimento disponível das famílias portuguesas médias fizemos estas comparações e apontámos para este valor de 10 cêntimos. Fomos nós que propusemos este valor à Direção Geral de Economia e à Agência Portuguesa do Ambiente e se fosse muito pouco diriam que eram trocos e que não se iriam chatear. Se fosse muito caro diriam vou deixar de beber. Imagine uma garrafa de água 33 que custa 15 cêntimos se fossemos cobrar o dobro. É possível que este valor e está previsto na lei que possa evoluir.

Poderá subir para quanto?

Não sei. Neste momento estamos muito confiantes por todos os sistemas estarem a funcionar e de inclusivamente apanharmos fraudes. Em menos de 24 horas havia pessoas a pôr autocolantes com o sistema Volta em garrafas que não tinham.

Daí o período transitório até agosto.

Primeiro, temos de ter consciência que a indústria de bebidas tinha os seus stocks. Segundo, entendemos que seria bom que, entre as campanhas de informação e as dúvidas que existissem que a entrada de garrafas no sistema fosse gradual. Agora a cada semana que passa haverá mais bebidas com o símbolo Volta e acho que em finais de maio, provavelmente, o mercado estará quase todo coberto.

Há várias formas de reembolso.

Seria muito complicado e muito caro fazer máquinas específicas para Portugal que dessem moedas. Esses 10 cêntimos não carecem de IVA e não são negociáveis. Há quatro formas de pagamento. Uma é pegar no papel, ir à caixa e receber os 10 cêntimos. Dois, pode descontar nas compras do supermercado, até porque se calhar tem cinco ou 10 papéis. Terceiro, carregar automaticamente o cartão de fidelização e há muitos em Portugal. Quarto também é uma forma muito rara na Europa – achávamos que era muito importante e faz parte do nosso ADN que houvesse responsabilidade social – que é a doação. Neste momento temos quatro entidades, mas vamos poder alargar a outras e deixar que entidades locais possam ser beneficiárias. Neste momento, temos a Liga dos Bombeiros, a Cáritas, a Liga da Proteção do Ambiente e a Liga da Proteção dos Animais que são instituições nacionais acima de qualquer suspeita e que todos gostamos de ajudar. Se calhar daqui a seis meses, por exemplo, em Aveiro há a Casa dos Velhinhos ou as Crianças que têm dificuldades e pode-se fazer a doação para essa instituição.

Mas reconhece que no caso da restauração face às várias formas de pagamento será mais difícil de aplicar?

Sem dúvida nenhuma e temos a perfeita noção que o canal da restauração representa praticamente metade das 2,1 mil milhões de unidades, ou seja, 948 milhões por ano e é importantíssimo para o bom funcionamento do sistema. Temos consciência que a esmagadora maioria, salvo algumas exceções, não têm espaço na traseira da loja. Temos consciência que uma coisa é esmigalhar uma lata, outra é mantê-la igual, como também temos consciência da rapidez do funcionamento do restaurante ou de hotel. Talvez, nos maiores centros urbanos tenha chegado essa informação, se calhar não chegou ao país todo, daí essas dúvidas todas. Mas, mais uma vez, não é uma questão de má vontade nossa, é uma questão de cumprir a lei que segue os padrões europeus. A par disso há desafio que não controlamos que é qual vai ser a prática e o comportamento do cidadão. E quando digo cidadão falo não só de pessoas comuns, mas também dos agentes económicos. Os hotéis e o restaurantes vão começar a perceber que se não aderirem ao sistema ou se não guardarem bem as suas garrafas podem ter um impacto real nas contas da tesouraria.

Qual é a meta para este ano?

O objetivo é atingir uma taxa de recolha inicial de 40% em 2026, em 2027 pretende-se atingir os 80% e em 2029, o objetivo será atingir 90%.Na Irlanda, no mês de outubro, estavam a recolher 90% do fluxo e implementaram o sistema há ano e meio. A Áustria chegou aos 90% em dois anos.