O acordo comercial provisório entrou em vigor há poucas semanas, ao fim de quase 27 anos de negociação. Para lá do simbolismo, o que muda?
É um marco histórico e, sobretudo, prático. O Acordo Mercosul – União Europeia, assinado em 17 de janeiro de 2026, aprovado pelo Congresso Nacional brasileiro em março e em vigor provisório desde 1 de maio de 2026, abre uma nova fase de oportunidades reais e mensuráveis. Juntos, Mercosul e União Europeia correspondem a mais de 700 milhões de consumidores e um PIB combinado de €19 trilhões. Estamos falando de um acordo que cobre aproximadamente 95% dos bens e 92% do valor das exportações brasileiras para a Europa.
E os números são expressivos. Só em 2025, o comércio bilateral Brasil-UE totalizou €86 bilhões, com exportações brasileiras alcançando €42,9 bilhões – crescimento médio de 8% ao ano entre 2021 e 2025. Já entre janeiro e março de 2026, as exportações cresceram 9,7% em relação ao mesmo período de 2025. Estima-se que o Brasil pode ampliar em até €860 milhões as exportações para a UE (União Europeia) nos primeiros 12 meses de Acordo. Esse movimento se intensifica em diversos setores. Para o agronegócio, por exemplo, o Acordo abre cotas ampliadas para carne bovina (99 mil toneladas), carne de aves (180 mil toneladas), açúcar (180 mil toneladas), etanol (450 mil toneladas de etanol industrial), milho (1 milhão de toneladas) e suco de laranja, entre outros. Além das cotas, o acordo traz desagravamento tarifário imediato para produtos industriais estratégicos: óleo essencial de laranja (€179 milhões exportados em 2025, com tarifa de 7% zerada de imediato), motores elétricos e turborreatores. A ApexBrasil mapeou 543 oportunidades de negócios com desagravamento tarifário imediato, que correspondem a um mercado europeu de €37,8 bilhões em importações anuais – e o Brasil exporta hoje apenas €948 milhões desse total, o que revela o tamanho da oportunidade.
O papel da ApexBrasil é apoiar as empresas brasileiras a transformarem cada uma dessas oportunidades em contratos reais. Fazemos isso com inteligência de mercado, qualificação de empresas, rodadas de negócios e presença nas principais feiras europeias. E os resultados concretos já começam a aparecer. Em maio, o Brasil exportou o primeiro container de uvas de mesa para o continente europeu sob o acordo, com desgravação imediata de 11,5% para zero.
Nesse contexto do Acordo, Portugal é, para nós, um ponto de partida natural, pela língua, pela proximidade jurídica e pela densidade de relações empresariais. Queremos que a empresa brasileira veja em Lisboa não um destino isolado, mas a primeira escala de uma estratégia europeia.
Muitas empresas brasileiras olham para Lisboa como plataforma de acesso ao mercado europeu. Essa ‘ponte portuguesa’ é uma prioridade estratégica da sua gestão, ou é mais retórica do que substância quando comparada com hubs como Roterdão ou Madrid?
É substância, e explico o porquê com dados. Portugal é hoje o país da União Europeia com maior número de oportunidades comerciais identificadas pelo Mapa de Oportunidades da ApexBrasil: 548 oportunidades – à frente de Espanha (418), França (407), Alemanha (382) e Itália (331). Não é coincidência; é o resultado de afinidades estruturais que nenhum outro ponto de entrada combina da mesma forma: língua comum, enquadramento jurídico familiar, uma comunidade empresarial habituada a operar entre os dois lados do Atlântico e infraestruturas logísticas competitivas.
Lisboa é tão estratégica para a ApexBrasil que mantemos na cidade um escritório próprio, a partir do qual apoiamos diretamente as empresas brasileiras na sua entrada no mercado europeu. No plano dos investimentos, a relação é de mão dupla. O Brasil tem €6,5 bilhões em estoque de investimento direto português, e as empresas brasileiras têm em Portugal o principal destino dos seus projetos greenfield na União Europeia: 54 projetos anunciados entre 2021 e 2025, com CapEx de €411 milhões e estimativa de geração de 1.300 empregos.
Não vejo Portugal em concorrência com outros polos europeus – vejo-o como porta preferencial e como complemento. A nossa atuação concretiza-se em apoio à instalação de empresas, parcerias institucionais e promoção de setores onde há afinidade evidente: agroalimentar, tecnologia, serviços e energia. É uma relação de dois sentidos, e queremos aprofundá-la.
Portugal é um dos maiores investidores europeus no Brasil e há cada vez mais capital brasileiro em Portugal. Que setores quer atrair de Portugal e da Europa e que garantias dá a investidores europeus num momento de incerteza global?
O Brasil é hoje um dos destinos mais atrativos para o investimento de longo prazo, e os números falam por si. Em 2025, o Brasil foi o 3º maior receptor de Investimento Estrangeiro Direto no mundo – €66 bilhões, atrás apenas de Estados Unidos e China. Só a ApexBrasil apoiou, nesse mesmo ano, €8,6 bilhões em investimentos, de mais de 360 investidores, com expectativa de geração de mais de 160 mil empregos.
Segundo o Banco Central do Brasil, o estoque de Investimento Estrangeiro Direto da UE no Brasil alcançou €400,3 bilhões em 2024 – 40,7% do total de IED no país. Se a UE fosse contabilizada como um único país, seria o maior investidor no Brasil, à frente inclusive dos Estados Unidos. É uma confiança que se traduz em projetos concretos: só em 2025, empresas europeias anunciaram 230 projetos greenfield no Brasil – recorde do período –, com CapEx de €8,6 bilhões, gerando estimativa de mais de 100 mil empregos entre 2021 e 2025. Os setores que mais queremos aprofundar são energia e transição energética – renováveis, hidrogénio de baixo carbono e biocombustíveis –, minerais críticos – terras raras, nióbio, grafite, entre outros, num país que detém a 2.ª maior reserva de terras raras do mundo –, infraestruturas, tecnologia e agroindústria de valor acrescentado. Exemplos recentes ilustram bem esse potencial: a EDP Renováveis (Portugal) e a Engie (França) anunciaram em conjunto o parque eólico offshore Ventos do Sul, de 6,5 GW no Rio Grande do Sul, com investimento estimado de €14 bilhões; a Iberdrola está ampliando posição no setor elétrico brasileiro; a Volkswagen tem expandido fábricas em São Paulo e no Paraná.
A garantia que oferecemos é a de um país que negoceia, que cumpre e que abre mercados de forma previsível. A ApexBrasil acompanha o investidor de ponta a ponta – com informação, contatos e apoio à instalação. Quem investe no Brasil investe num parceiro estável, e é essa confiança que estamos construindo, mercado a mercado.