segunda-feira, 13 abr. 2026

José Maria Ricciardi. O banqueiro com coração de leão

No fim do 2.º ano na Católica, as contas ficaram congeladas e formou-se na Bélgica com dinheiro emprestado.
José Maria Ricciardi. O banqueiro com coração de leão

1954–2026. Destacou-se por liderar o BESI e por denunciar a gestão de Ricardo Salgado.

Morreu aos 71 anos, vítima de doença prolongada, sem conseguir «regenerar o nome da família Espírito Santo». Foi uma das figuras centrais nos últimos meses do Banco Espírito Santo (BES) ao contestar a liderança do seu primo, Ricardo Salgado, à frente da instituição financeira, tendo denunciado ao Banco de Portugal (BdP) irregularidades na gestão do grupo que acabaram por levar ao colapso do império.

Em 2023 confessou, numa entrevista ao Público que estava a tentar «criar um banco novo, um conceito diferente dos chamados bancos clássicos», numa tentativa de virar a página ao nome da família. No entanto, reconheceu que já não era novo, mas que esperava ter energia e tempo pela frente para cumprir esse desejo. «A família Espírito Santo era conhecida em todo o lado, o melhor nome da banca portuguesa foi destruído. Se conseguir começar a fazer a sua regeneração, para que as gerações seguintes o desenvolvam, partirei desta vida com a consciência tranquila de que fiz tudo o que podia», disse. Um desejo que não conseguiu cumprir.

Ricciardi dedicou quase toda a sua carreira ao setor da banca e nunca lhe foi retirada a idoneidade. Foi presidente da comissão executiva e vice-presidente do conselho de administração do Banco Espírito Santo de Investimento (BESI), membro da comissão executiva do BES e presidente do conselho de administração do BES Investimento do Brasil (BESI Brasil).

O seu nome não pode ser dissociado do BESI, pois liderou-o durante décadas, elevando o banco a líder ibérico em operações de fusões, aquisições e privatizações. O banco de investimento acabou por ser vendido ao grupo chinês Haitong Securities, em 2015, após a resolução do BES no ano anterior, por 379 milhões de euros. Ricciardi foi o principal rosto desta transição e manteve-se na sua liderança até 2016.

Apesar dos motivos da sua saída não terem sido revelados, nos corredores falava-se de um braço-de-ferro com o presidente não executivo, que durou meses e que estaria relacionado com divergências profundas sobre a estratégia de gestão.

No seu currículo conta ainda com uma passagem pelo Banco Inter-Atlântico, no Rio de Janeiro, e pelo BIC, tendo sido também financial controlle na sede europeia do grupo Espírito Santo (GES) e diretor adjunto do Bank Espírito Santo International Limited, entre outros cargos.

Já com o BES no olho do furacão, chegou a admitir na comissão parlamentar de inquérito à queda do banco que foi «a única pessoa» que tentou «mudar o curso das coisas» e que tinha alertado o então governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, para a existência de «um banco dentro de um banco» e para a concentração de poder num núcleo controlado por Ricardo Salgado.

Paixão pelo Sporting

A sua paixão não se limitou apenas à banca. O nome de José Maria Ricciardi também ficou conhecido no mundo desportivo pela sua ligação ao Sporting Clube de Portugal, do qual o seu tio-avô, José Alvalade, foi sócio fundador.

Foi membro do conselho fiscal do Sporting durante vários anos e, em agosto de 2018, apresentou a sua candidatura à presidência do clube, nas eleições em que Frederico Varandas saiu como vencedor.

Como adepto leonino ferrenho disse, numa entrevista a Anabela Mota Ribeiro, que não queria ver os jogos na tribuna porque não só não conseguia ver os golos, como não se conseguia manifestar ou chamar nomes ao árbitro. «Uma vez, num final de uma Taça de Portugal (que nós ganhámos ao Porto, se não me engano), estava um tipo ao meu lado de tal maneira incomodado que disse: ‘Oh pá, você nem parece um banqueiro!’Nesta altura, quero lá saber se sou banqueiro! Hoje em dia, uma pessoa ser espontânea, que é uma coisa admirável, é mal visto», confessou.

Era um dos cinco filhos de António Ricciardi, que foi presidente do Conselho Superior do Grupo Espírito Santo, e de Maria Isabel Espírito Santo Silva. Na mesma entrevista disse ter tido uma infância normal, sem ter a perceção da sua vida privilegiada. «Tive uma infância normal, numa casa com muita gente, muito movimento. A minha mãe adorava ter convidados. Sou o quinto de sete irmãos; tivemos as coisas normais das crianças. As primeiras imagens são de uma vida muito boa, agradável. Talvez não tenha tido consciência da situação privilegiada em que vivia, e que muitos outros não teriam», reconheceu.

Estudou na Escola Ave Maria e mais tarde foi para o liceu Pedro Nunes, onde confessou que começou «a ter uma visão mais realista da sociedade» já que lidava com pessoas dos mais diversos meios sociais. Ainda terminou o segundo ano do curso na Universidade Católica, em 1975, mas nessa altura, as contas ficaram congeladas e acabou por se formar em Economia na Universidade Católica de Lovaina , na Bélgica. «O meu pai, pelo facto de ter trabalhado muitos anos nos petróleos de Angola, cujo maior accionista era a Petrofina, (na época, a maior empresa da Bélgica), foi ajudado. Eles é que emprestaram ao meu pai dinheiro para viver. E pôs-se a hipótese de eu ir para Lovaina. O meu pai deve ter falado com os belgas e arranjaram o dinheiro suficiente para poder ir. Fui viver de uma forma diferente daquela a que estava habituado», salientou.

Vai para o Brasil quando acaba a licenciatura e só volta a Portugal mais tarde. Católico praticante, admitiu na mesma entrevista que sempre se imaginou a casar na igreja, um sonho falhado por se ter apaixonado por uma mulher casada que já tinha filhos. «Foi um drama para mim. A minha mãe ficou chateadíssima. Muita gente da família achou que eu não estava bom da cabeça. Socialmente foi duro. As pessoas achavam que me estava a querer divertir e a destruir um casamento. Tinha uma grande paixão por ela; tanto tinha que casei. Os meus enteados sempre foram extraordinários comigo, nunca disseram: ‘O tio não é o meu pai’. Gosto deles como se fossem meus filhos. São os irmãos da minha filha. Não estou arrependido, mas demorou tempo e obrigou-me a casar tarde». l