Jaime Nogueira Pinto: 'Salazar foi o único com pensamento político próprio'

Considerado, por muitos, o ideólogo do Chega, o politólogo e empresário fala de Trump, wokismo, Salazar, de como é aceite por comunistas e não só, e da sua luta para evitar a tragédia.
Jaime Nogueira Pinto: 'Salazar foi o único com pensamento político próprio'

Valores Europeus — Uma Longa História, o seu mais recente livro, da Dom Quixote, procura em pouco mais do que 400 páginas revisitar três milénios de história ocidental. Não foi um desafio demasiado arriscado?

Já tive e aceitei outros mais arriscados e menos intelectuais. É uma investigação-definição dos valores de orientação permanente. São “europeus” quanto à origem, “universais” quanto à extensão – Deus, Pátria, Família, Liberdade, Justiça.

Qual a razão para o livro ter sido primeiro editado na Polónia?

Foi a origem: em 2021, o então governo nacional-conservador da Polónia entrou em conflito com a Comissão Europeia por causa dos chamados “novos valores europeus”; um amigo meu polaco, o Prof. Szymanek, pediu-me para escrever sobre o tema. Por isso o livro saiu lá primeiro, em Outubro do ano passado.

Houve algum período da História que se compare ao que estamos a viver?

As voltas, as crises, fins ou princípios de grandes ciclos históricos: Roma no século V, a Europa do século XVI, e da passagem do século XVIII para o século XIX. Mais perto, o pós-Grande Guerra, os outros “Anos Vinte”, há um século.

O que teve mais peso na transferência de votos dos 'antigos' comunistas para os partidos populistas ou de extrema-direita? A deslocalização das fábricas para o oriente e África ou a força do wokismo?

Sem dúvida a desindustrialização, o fim da URSS, dos partidos comunistas e a “orfandade” da classe trabalhadora. O wokismo adensou essa orfandade coma as novas esquerdas a abandonarem a justiça social e as classes trabalhadores e a entrarem numa deriva de novas dicotomias exploradores-explorados, mais individualistas e hedonistas, mais elitistas e decadentistas, raiando o absurdo. Entraram, em certo sentido, em guerra aberta com a realidade, até com a biologia, com “afirmações tão estúpidas, que só um intelectual se atreveria a dizê-las, nuca um homem comum!”, como diria Russel Kirk

Trump 'travou' o wokismo ou deu-lhe mais força, devido aos anticorpos criados?

Trump, ao menos, furou o policiamento do discurso wokista, expôs a espiral de novos interditos e acabou com os subsídios estatais a instituições académicas e outras que patrocinavam as “novas causas”. Nesse aspecto o saldo trumpista é positivo.

É abusivo comparar este período de Trump com o Macarthismo?

São tempos e situações muito diferentes. Quando McCarthy apareceu, na primeira metade dos anos 1950, o inimigo número 1 da América e do Ocidente era a União Soviética de Estaline, com “quintas colunas” que eram os partidos comunistas. McCarthy e a Comissão de Actividades Anti-Americanas empenharam-se em combater o que qualificavam de “perigo vermelho” – um perigo que era real, entre a intelectualidade e a academia, o entretenimento e o alto funcionalismo. Os soviéticos adiantaram a obtenção da bomba atómica com a cumplicidade de americanos comunistas. Hoje não há Estaline, não há URSS, os “comunistas” são uma minoria, as classes trabalhadoras americanas e europeias votam em Trump e nos populistas da direita radical. Trazer o McCarthismo à baila para acusar Trump, sempre é menos mau que compará-lo a Hitler.

Meloni ou Marine Le Pen?

Cada uma tem o seu “encanto”. Meloni é uma nacional-conservadora italiana, que transformou os Fratelli no maior partido da Itália e mantém equilíbrios nacionais e internacionais interessantes. Marine Le Pen, além de uma lutadora persistente, é uma nacional-populista, menos conservadora que Meloni, mas que pode vir a ser presidente da França.

Segundo algumas correntes, ou como escreveu Sontag, em 1967, o homem branco é o cancro da história humana. Como se chegou a este delírio?

O delírio vem do fenómeno de autoculpabilização e autocomiseração, que é uma forma de discriminação, de paternalismo e de infantilização do “outro”: nós somos os conscientes opressores, capazes de reconhecer e de sentir culpa, “os outros” são os “bons selvagens”, inocentes, eternas vítimas. É também um processo característico das civilizações decadentes: os romanos chiques da Decadência usavam túnicas com buracos e imitavam o “pão e circo” das massas, como os “liberais chiques”, caricaturados nos seus alvores, nos anos 60, pelo Tom Wolfe, convidavam os Panteras Negras para os seus cocktails bilionários.

Recentemente entrevistei o bispo da Guarda que dizia: 'É preciso que o respeito pelo islão não seja em contraponto com um silenciamento das expressões religiosas e civilizacionais de matriz judeo-cristã'. O padre Edgar Clara, que tem nove igrejas, na Mouraria, Alfama e Castelo, afirmava que o 'islão não consegue conviver com a diversidade'. A Europa está condenada a ser 'dominada' pelo Islão?

Ainda vamos a tempo de resistir. Mas é preciso não confundir as coisas, sobretudo não confundir o Islão com os grupos jihadistas e terroristas. Sem abusar aqui da publicidade, escrevi um livro, O Islão e o Ocidente – a Grande Discórdia, onde falo disso, insistindo que não devemos nem podemos ir para uma “guerra de religiões”.

Tem cerca de 17 mil livros. Consegue dizer cinco de leitura obrigatória para todos?

Homero, Odisseia, tradução, notas e comentários de Frederico Lourenço. Maquiavel, Discursos dobre a Primeira Década de Tito Lívio, Edições 70, Lisboa, 2024. Oliveira Martins, Portugal Contemporâneo. Leo Tolstoi, Guerra e Paz. F. Scott Fitzgerald, The Great Gatsby. E, claro, de Dante, Camões, Shakespeare, Cervantes, tudo o que puderem ler.

Sempre foi um homem conservador, católico, e defensor do império português, do Minho a Timor. Como foi assistir à queda desses valores?

A tentar evitá-la, sem desistir, mesmo quando tudo parecia e já estava perdido. É a melhor e mais saudável forma de enfrentar a tragédia.

Há uns bons anos cruzámo-nos na piscina do Hotel Polana, em Moçambique, onde eu estava com o José António Saraiva. Nós estávamos a tratar do lançamento do jornal em Moçambique, penso que o Jaime estava lá devido às suas ligações a empresas de segurança privada. Como é que alguém que foi contra o fim do Império Português, depois fez negócios com as ex-colónias?

O meu objectivo era criar uma “companhia militar privada” que garantisse a segurança, no Norte de Moçambique, da exploração do gás natural. Era um projecto de interesse público que, infelizmente, a falta de visão estratégica de alguns responsáveis lá e cá frustrou. Perdi aí muito tempo e muito dinheiro. Esse “negócio”, como lhe chama, saiu-me muito caro. E o terrorismo continua – e o gás por explorar e a miséria também.

Continua convencido que Salazar foi o melhor político português?

Se é o melhor ou o pior, depende das ideias de cada um. Mas é sem dúvida o mais importante político português do século XX; porque mandou por quase 40 anos, e depois dele, os que vieram só pensavam em fazer o contrário do que ele fez ou faria. É com certeza o único com um pensamento político próprio, pensado para Portugal. Tinha um grande problema e vulnerabilidade, porém: criou um regime ou um sistema que só funcionava com ele.

Chateia-o que digam que é o ideólogo de André Ventura?

Devem dizer coisas piores… Mas ele não precisa de “ideólogos” o Chega reequilibrou um sistema político com meio século de desvio à esquerda.

Depois do exílio voltou a Portugal e passou a ser 'um fascista' aceite pela esquerda comunista, nomeadamente Ruben de Carvalho, e mais recentemente Pedro Tadeu. Qual o segredo para essa convivência?

Graças a Deus sou aceite por muito mais gente. O segredo são coisas que partilho com esses e outros radicais – senso comum, realismo, independência intelectual, humor. E que às vezes faltam aos “humanistas” e “moderados”.

Recorda-se de como era o seu dia-a-dia no campo de refugiados de Culinnan, na África do Sul, que recebeu milhares de portugueses que fugiram de Angola e de Moçambique durante a descolonização?

Não era propriamente o Gulag do Soljenitsin de Um dia na vida de Denisso Vitch. Além disso, graças ao meu “fascismo” (nesse tempo não tão bem aceite) fui incluído nas listas de “malfeitores associados” do 28 de Setembro de 1974. Culinnan, durante a Segunda Guerra Mundial, tinha sido um campo de prisioneiros das tropas do Eixo, dos italianos capturados pelos ingleses nas campanhas da África Oriental. Estava com a Zezinha, tínhamos livros, tabaco, alguma privacidade. Foi uma experiência, com os nossos compatriotas, refugiados de Moçambique do 7 de Setembro