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A inflação voltou a aumentar e, com isso, os problemas para o dia-a-dia dos portugueses. Segundo os mais recentes números do Instituto Nacional de Estatística (INE), o Índice de Preços no Consumidor (IPC) atingiu, em abril, uma taxa homóloga de 3,3%, mais 0,6 pontos percentuais do que em março, segundo dados divulgados esta terça-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). O aumento dos preços dos combustíveis continua a ser o principal fator por detrás da subida da inflação, refere.
Para Vítor Madeira, analista da XTB, o aumento da inflação em Portugal não deverá ser encarado como um fenómeno temporário ligado apenas aos combustíveis. E diz que já existem sinais claros de um efeito de contágio a vários setores da economia, com impacto crescente sobre empresas e consumidores.
«O mercado petrolífero atua como o custo base da economia e já observamos uma transmissão clara e generalizada para outras classes de ativos fundamentais», afirma o analista. Segundo Vítor Madeira, a valorização de metais industriais essenciais, como níquel, cobre e zinco, bem como a subida das matérias-primas agrícolas, como milho, trigo e soja, demonstram que o choque energético está a alastrar à restante cadeia de valor.
«Não estamos perante um efeito temporário, mas sim perante efeitos de ‘segunda ordem’, onde o choque energético se traduz numa pressão inflacionista estrutural e generalizada», sublinha.
O impacto já se faz sentir nos orçamentos das famílias portuguesas. De acordo com o analista, a energia representa «um custo transversal a todos os setores da economia», pelo que a transferência desses custos para o consumidor final resulta «numa perda imediata do poder de compra no cabaz do dia a dia».
Além disso, alerta para o risco de agravamento através das taxas de juro. «O facto de a inflação continuar persistente e estar a subir pode ‘obrigar’ o BCE a subir as taxas de juro, sendo o cenário mais provável de três subidas ainda este ano», refere. Nesse cenário, acrescenta, haverá «um aumento direto das prestações bancárias, penalizando fortemente as famílias com crédito à habitação indexado a taxas variáveis».
Sobre o facto de Portugal apresentar uma inflação acima da média europeia, Vítor Madeira aponta o peso do turismo na economia nacional como um dos principais fatores explicativos. «A nossa economia é altamente alavancada pelo setor do turismo. Esta atividade gera uma injeção de capital na economia e uma procura externa robusta que sustenta – e até inflaciona – os preços em setores críticos para os residentes», explica.
Entre os setores mais pressionados estão o mercado imobiliário, os custos de habitação, a restauração, hotelaria, bens alimentares e retalho. «Enquanto a procura turística se mantiver forte, provavelmente veremos uma pressão sobre os preços nestes setores a empurrar a inflação portuguesa para níveis superiores aos dos nossos parceiros europeus», diz.
Quanto à evolução dos preços nos próximos meses, o analista considera que o risco de novas subidas permanece elevado. «Os condicionamentos e as tensões no Estreito de Ormuz mantêm um prémio de risco elevado sobre o preço da energia», afirma, apontando para impactos nos preços da eletricidade e dos combustíveis.
Vítor Madeira destaca ainda que o barril de petróleo se mantém «de forma sustentada acima da fasquia dos 90 dólares», cenário que poderá continuar a pressionar os preços das restantes matérias-primas. «Isto poderá criar um ciclo contínuo de inflação que impactará toda a cadeia de abastecimento», conclui.