Incertezas poderão assombrar cenário económico em 2026

Tensões internacionais e possível abrandamento do consumo terão consequências já este ano.
Incertezas poderão assombrar cenário económico em 2026

As previsões para 2026 deverão ser ainda mais incertas tendo em conta o cenário internacional cada vez mais instável. Ao Nascer do SOL, Luís Aguiar-Conraria não hesita: «As incertezas são mais do que muitas. Toda esta incerteza, toda esta instabilidade e termos um Trump à frente de um país tão importante com as suas políticas erráticas fazem com que tudo seja imprevisível. Por isso é que tenho tantas dificuldades em prever como é que as coisas evoluem».

Também pouco otimista está João César das Neves, ao considerar que «o cenário global e local está muito incerto, convidando aos cenários mais catastróficos que, no entanto, teimam em não se verificar». E acrescenta: «À política errática da administração americana, a vários níveis, com destaque para as guerras militares e tarifárias, junta-se o risco de uma forte crise financeira, seja por causa da euforia bolsista americana ou pelo descontrole francês. Internamente, a fragilidade do executivo minoritário e as reações às políticas estruturais que insistem em introduzir podem ameaçar o clima económico».

Apesar da instabilidade, Paulo Monteiro Rosa admite que a economia portuguesa deverá continuar a contar com três pilares fundamentais: turismo, aumento da população empregada e o investimento estrangeiro, mas «desde que não haja um forte abrandamento ou mesmo recessão na economia dos EUA, nem uma correção inesperada e significativa nos mercados acionistas globais, em particular nos EUA».

E recorda que, para 2026, as projeções do Executivo e do Banco de Portugal preveem um aumento do PIB a rondar 2,3% a 2,4%. «Esta evolução reflete a expectativa de manutenção do dinamismo da procura interna, suportada pelo consumo privado e pelo investimento, ainda beneficiando da execução dos fundos europeus», salienta ao nosso jornal.

Isto significa que, segundo o economista, «o maior crescimento esperado em 2026 assenta sobretudo no reforço do investimento, em particular o investimento público e empresarial apoiado pelos fundos europeus (PRR), e numa recuperação gradual das exportações após o fraco desempenho em 2025. O consumo privado deverá manter-se positivo, beneficiando da redução da inflação e da melhoria das condições financeiras, permitindo uma reaceleração do crescimento económico».

Reformas poderão contrariar riscos

Também o Fórum para a Competitividade enumera uma série de riscos. Desde logo, a ameaça dos EUA sobre a Gronelândia, «que pode ter as mais variadas implicações», assim como uma possível uma rutura da NATO, o que obrigará a antecipar o aumento da despesa em defesa, pressionando as contas públicas que, em vários países, sobretudo em França, estão já muito próximas do limite, além do provável reacendimento do conflito comercial entre os EUA e a UE, «com potenciais consequências muito gravosas para ambos».

Ao mesmo tempo, a entidade liderada por Ferraz da Costa chama a atenção para os ataques à independência da Reserva Federal que «estão a colocar em causa o papel internacional do dólar, sendo uma das razões para a forte apreciação do euro, que está a limitar a competitividade das exportações da zona euro, e que deverá prosseguir».

Ainda assim, acredita que a nível nacional, esses riscos poderão ser contrariados, lembrando que está previsto serem conhecidos os primeiros sinais das reformas estruturais que têm vindo a ser anunciadas e, como tal, podem começar «a contribuir para um aumento do potencial de crescimento da nossa economia».

No entanto, reconhece que «os fatores que estimularam o aumento do consumo privado em 2025 deverão continuar a estar presentes no corrente ano, mas com uma intensidade inferior».