sexta-feira, 17 abr. 2026

Hotelaria portuguesa com crescimento estagnado no Carnaval e aguarda Páscoa com reservas a "meio gás"

Guerra no Médio Oriente já afeta um em cada quatro hotéis em Portugal. Procura dos EUA cai para metade e mercado interno continua principal motor da procura
Hotelaria portuguesa com crescimento estagnado no Carnaval e aguarda Páscoa com reservas a "meio gás"

A hotelaria portuguesa registou no Carnaval deste ano uma taxa de ocupação estagnada face a 2025, e olha para a Páscoa com reservas que ficam ainda abaixo dos 60%. O conflito no Médio Oriente já está a travar as reservas em 24% dos estabelecimentos hoteleiros do país.

Os dados são do mais recente inquérito da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP), divulado esta quinta-feira, que inquiriu 394 estabelecimentos associados entre 9 e 20 de março, no âmbito do estudo "Balanço Carnaval & Perspetivas Páscoa 2026".

No período de Carnaval, entre 13 e 17 de fevereiro, a taxa de ocupação (TO) média situou-se nos 65%, idêntica ao ano anterior. O preço médio por quarto (ARR) ficou nos 112 euros — menos um euro do que em 2025 — o que, com a inflação de custos operacionais, representa um recuo real.

O RevPAR (rendimento por quarto disponível) fixou-se nos 73 euros, também em linha com o período homólogo.

"Uma paragem do ritmo de crescimento", resume a AHP em comunicado, que aponta dois fatores: as tempestades de final de janeiro e fevereiro e o agravamento do contexto geopolítico internacional.

As assimetrias regionais são marcadas. A Madeira destacou-se com a maior ocupação do país (79%) e o ARR mais elevado (151 euros). A Grande Lisboa registou 75% de ocupação — acima dos 67% de 2025 — mas o preço médio desceu 4%, para 131 euros.

Na outra ponta, as regiões do Norte e do Oeste e Vale do Tejo sofreram o impacto direto das intempéries: quebras de ocupação de 3% e 8%, respetivamente, e descidas de 11% no ARR em ambos os casos.

O Centro Interior foi a exceção positiva, com o ARR a subir 17%, para 118 euros — mas o Centro Litoral ficou muito abaixo da média nacional.

Portugal, Espanha e Reino Unido foram os principais mercados emissores durante o Carnaval. Já a Coreia do Sul foi assinalada como mercado relevante por 23% dos hoteleiros do Oeste e Vale do Tejo — associada ao turismo religioso —, enquanto a China foi destacada por 45% dos inquiridos da Península de Setúbal.

Páscoa: 57% de ocupação reservada no fim de semana

Para a Páscoa, os dados "on the books" (reservas já confirmadas à data do inquérito) indicam que para as Férias escolares (27 de março a 12 de abril) há 55% de ocupação, com ARR de 132 euros e que no fim de semana pascal (3 a 5 de abril) a ocupação é 57%, com ARR de 147 euros.

A Madeira lidera novamente, com níveis de reserva a atingir os 75% nas férias e 76% no fim de semana pascal. A Grande Lisboa e o Algarve seguem com ritmos também positivos.

O mercado interno é o principal motor da procura, mencionado por mais de 70% dos hoteleiros para ambos os períodos. Espanha e Reino Unido surgem a seguir.

Um dos dados mais preocupantes do inquérito é a quebra na procura norte-americana: apenas 22% dos hoteleiros referem os EUA como mercado relevante para o fim de semana da Páscoa, face a 38% no ano anterior — uma queda de quase metade.

A instabilidade no Médio Oriente também começa a deixar marcas concretas: 24% das unidades hoteleiras já identificam um abrandamento de reservas ou aumento de cancelamentos diretamente associados ao conflito. Os hotéis da Península de Setúbal e dos Açores são os que mais sentem este efeito.

Ainda assim, 60% das unidades não reportam alterações face ao esperado, e 16% referem mesmo um aumento da procura — beneficiando do desvio de turistas de destinos mais afetados pelo conflito.

Booking e sites próprios dominam. Expedia sobe

Nos canais de reserva, a estrutura mantém-se estável: a Booking continua líder (referida por 96% dos inquiridos), seguida dos websites próprios dos hotéis (89%). A Expedia regista uma subida relevante, sendo mencionada por 45% dos hoteleiros — mais 7 pontos percentuais do que no mesmo período do ano anterior.

Num inquérito anterior, realizado em janeiro, antes do agravamento do contexto internacional, os hoteleiros portugueses atribuíam uma nota de 7,4 em 10 à confiança no desempenho do turismo nacional em 2026. Os principais desafios identificados eram então a capacidade aeroportuária (51%), a instabilidade económica e geopolítica (49%) e o aumento dos custos operacionais (37%).

A presidente da AHP citada no comunicado, salientou que, apesar da revisão em baixa do Banco de Portugal para o crescimento da economia portuguesa, a instituição mantém uma previsão de crescimento e sublinha a robustez das contas públicas.

"O turismo em Portugal poderá continuar a crescer, quer em hóspedes e dormidas, quer em receitas, mas com claro abrandamento relativamente ao ritmo que vinha sendo registado até aqui", afirmou Cristina Siza Vieira.