A hotelaria portuguesa entra no verão de 2026 com sinais mistos: apesar de as reservas se manterem em linha com o ano passado e de os empresários anteciparem uma valorização do preço médio, cresce a preocupação com a instabilidade económica e geopolítica internacional, apontada por 71% dos hoteleiros como o principal risco para os próximos meses.
Os dados constam do inquérito "Balanço Páscoa & Perspetivas Verão 2026", divulgado esta terça-feira pela Associação da Hotelaria de Portugal (AHP), que revela também uma alteração nas expectativas quanto aos mercados emissores. O mercado residente continua a figurar entre os três principais mercados para a maioria dos inquiridos, mas perde peso relativo face ao ano anterior.
“Na globalidade, as perspetivas dos hoteleiros são de quebra relativa do verão de 2026 perante o verão de 2025”, confessou a vice-presidente executiva da AHP, Cristina Siza Vieira, acrescentando que, com estes dados, estão a ser “prudentemente realistas”.
Os dados mostram ainda que 40% dos hoteleiros perspetivam proveitos totais “piores” ou “muito piores” que os de 2025, enquanto 32% esperam resultados “melhores” ou “muito melhores”.
Segundo o estudo, 68% dos hoteleiros identificam Portugal como um dos três mercados mais importantes para o verão, uma quebra significativa face aos 78% registados nas perspetivas para 2025. Em contrapartida, os mercados do Reino Unido e da Alemanha ganham relevância, acompanhados por uma subida mais ligeira da Irlanda e dos Países Baixos.
A evolução é interpretada pela associação como um possível sinal de contenção da procura interna. Os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística já apontam nesse sentido: em abril deste ano, as dormidas de residentes na hotelaria recuaram 1% face ao mesmo mês de 2025.
Apesar de as reservas já registadas para o período entre junho e setembro se encontrarem em níveis semelhantes aos observados há um ano, a avaliação dos empresários é mais prudente. O indicador utilizado pela AHP revela uma perceção negativa relativamente à evolução da taxa de ocupação, da estada média e dos proveitos totais, ainda que exista expectativa de crescimento moderado do preço médio.
Na apresentação dos resultados, a associação sublinhou que a leitura das previsões deve ser feita com cautela, uma vez que as respostas foram recolhidas durante a primeira quinzena de maio, num contexto de elevada volatilidade internacional e de crescente peso das reservas de última hora.
Aliás, a tendência do last minute continua a ganhar expressão, o que pode vir a melhorar os dados. “As pessoas estão a guardar-se mais para o último momento”, como chegou a dizer Cristina Siza Vieira.
A instabilidade económica e geopolítica lidera destacadamente a lista de preocupações para o verão, surgindo à frente do aumento dos custos operacionais (38%), das limitações da capacidade aeroportuária (37%) e da subida dos custos dos transportes (35%).
O contexto internacional está também a influenciar as estratégias tarifárias. Mais de um terço dos inquiridos (36%) admite estar a reduzir preços para o verão, enquanto 46% afirmam não ter alterado a sua política comercial. Apenas 18% indicam ter aumentado tarifas.
Os resultados refletem-se igualmente no índice de confiança do setor. Entre janeiro e maio, a confiança média dos hoteleiros no turismo nacional caiu de 7,4 para 6,8 pontos, numa escala de 1 a 10. A descida é transversal à maioria das regiões do país, evidenciando um sentimento de maior prudência perante a evolução da procura turística.
Páscoa positiva
Embora o foco esteja já colocado no verão, o inquérito da AHP traça também um balanço positivo da Páscoa. Entre 3 e 5 de abril, a hotelaria nacional registou uma taxa média de ocupação de 77%, acima dos 75% observados em 2025. O RevPAR subiu para 110 euros, enquanto o preço médio recuou ligeiramente para 143 euros.
A Grande Lisboa destacou-se pela manutenção de uma ocupação elevada, nos 81%, mas registou uma descida do preço médio de 171 para 161 euros. Para a AHP, este comportamento confirma sinais de abrandamento num mercado onde, mesmo em períodos de forte procura, a valorização tarifária enfrenta crescentes desafios.
Este inquérito foi realizado entre 27 de abril e 17 de maio, junto de 328 empreendimentos de hotelaria.