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O impacto do conflito do Médio Oriente ainda é incerto. Tudo depende da sua intensidade e duração, mas irá afetar todos os setores de atividade, apesar de a dependência do petróleo ser mais reduzida quando comparada com outras crises anteriores, admite ao Nascer do SOL, o ex-ministro da Economia, António Costa Silva.
Também Luís Mira Amaral reconhece que ainda é cedo para se «conseguir dizer exatamente o que se vai passar» e considera que mais grave é a subida do preço do gás natural. «O mundo está mais dependente do gás natural naquele estreito do que do petróleo. Tudo vai afetar a atividade económica. Se o gás natural subir também sobem os preços da eletricidade. Se a energia aumentar irá afetar os preços dos alimentos, tal como aconteceu com a guerra na Ucrânia», diz ao nosso jornal, reconhecendo, no entanto, que «hoje o mundo está menos dependente do petróleo do que estava das outras vezes».
Mas a pesar de a Europa estar hoje mais preparada e diversificada, Paulo Monteiro Rosa, economista sénior do Banco Carregosa, afirma que os países europeus «continuam vulneráveis a choques energéticos globais, sobretudo se forem prolongados». E diz que um bloqueio «efetivo e prolongado» do Estreito de Ormuz teria um impacto muito mais grave a nível global, pressionando ainda mais o preço do Brent, a inflação e, por arrasto, as taxas de juro.
«Para gerar um choque semelhante à crise energética de 2022 seria necessário um corte prolongado e estrutural na oferta, e não apenas instabilidade pontual, até porque o mercado europeu está hoje mais diversificado e resiliente, dependendo em cerca de 55% do gás natural dos EUA, e porque também as principais potências económicas globais, incluindo a China, têm forte interesse em manter o estreito totalmente transitável», salienta Monteiro Rosa.
Quanto à eletricidade, lembra que a exposição depende do mix energético de cada país, referindo que países com maior peso de renováveis e nuclear tendem a ser menos sensíveis ao preço do gás. «Em Portugal, por exemplo, a produção de eletricidade é cerca de 80% proveniente de fontes renováveis – cerca de 30% hídrica, 30% eólica, 18% solar, enquanto os combustíveis fósseis, sobretudo o gás natural, respondem por menos de 20% na geração de energia elétrica– atenuando o impacto direto do gás na formação do preço grossista. Ainda assim, como integra o mercado ibérico e europeu, não está imune à volatilidade externa», acrescenta.
O mesmo se passa com o gás. Uma questão que ganha maiores contornos, depois de a União Europeia ter reduzido significativamente a sua dependência da Rússia após 2022, tendo reforçado as importações de gás natural liquefeito, sobretudo dos EUA, mas também do Qatar. «Isso aumentou a diversificação, mas não afastou a Europa da volatilidade do mercado global de GNL, onde os preços reagem rapidamente a choques geopolíticos. Quanto ao petróleo, a exposição é ainda mais direta, dado que se trata de um mercado global integrado. Subidas significativas e duradouras no preço do Brent refletem-se nos combustíveis e, por essa via, na inflação e, por arrasto, nas taxas de juro europeias», acrescenta o economista.
É certo que o Fórum da Competitividade já fala do mais grave conflito internacional desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, o que que poderá ter ramificações ainda mais significativas a nível global. Mas aponta para um conjunto de incógnitas para estimar o seu impacto económico: «Subida dos preços do petróleo e gás natural, eventual bloqueio das quantidades, duração do conflito, impacto sobre os nossos parceiros, impacto sobre as viagens aéreas e turismo, implicação sobre a política monetária e efeitos sobre os mercados financeiros».
Preços vão subir inevitavelmente
Para já, segundo João Cruz, analista da XTB, os impactos estão a ser contornados. Os stocks de petróleo aumentaram quase 3,4 milhões de barris na semana passada e o mercado esperava um novo aumento de três milhões de barris. «Esta quantidade elevada de petróleo poderá ser uma salvaguarda para evitar aumentos repentinos a curto prazo», diz ao Nascer do SOL.
No entanto, as consequências destas valorizações do preço do barril irão sentir-se de duas formas, diretamente através da subida dos preços dos combustíveis, que «reduzem o poder de compra das famílias e aumentam despesas correntes (transportes e mobilidade), o que pode levar a algum adiamento de consumo não essencial» e de forma indireta através das empresas. «Energia e transporte mais caros pressionam margens e podem ser parcialmente repercutidos nos preços finais (logística, indústria, agricultura, serviços)».
Também a Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED) reconhece que é «muito difícil que as perturbações e flutuações nos mercados globais de energia e disrupções no transporte de mercadorias não se repercutam num aumento dos custos transversais na cadeia de valor, com efeitos não apenas nos bens energéticos, mas também seguramente nos bens alimentares».
Ainda assim, afirma ao nosso jornal que é «demasiado cedo para estimar quando e como esta situação se vai repercutir», já que entende que tudo dependerá da direção que o conflito seguir, garantindo que «até ao momento, não foi detetada a escassez de qualquer produto» e não antevê a possibilidade de essa situação se colocar num futuro próximo.
E dá como exemplo, a dependência do mercado europeu, ao qual Portugal não é alheio, por exemplo, das importações de frutos secos, café, cacau e especiarias provenientes do Irão. «Estamos naturalmente atentos e reagiremos da melhor maneira possível, como já o fizemos antes noutros contextos, como a guerra na Ucrânia, por exemplo, o demonstrou»,salienta.
A APED reconhece ainda que é sempre possível contornar esta situação, mas essa decisão implica custos, em particular no que diz respeito ao transporte de mercadorias, à redefinição de rotas comerciais ou à diversificação dos mercados relativamente aos quais estamos mais expostos. «O que está a ocorrer no Médio Oriente constituiu um choque extra inesperado que poderá levar, no curto prazo, como reconhecia um economista-chefe do Banco Central Europeu, a um aumento substancial da inflação e a uma queda acentuada na produção, cujos efeitos comprometem as projeções de crescimento, que já eram ténues, para os próximos anos, nomeadamente na Zona Euro. A situação recomenda-nos frieza para enfrentar a situação e mitigar, o melhor e tanto quanto possível, os seus efeitos junto do consumidor», garante.
Margem para atenuar subidas
O primeiro-ministro já veio admitir que o Governo poderá avançar com um desconto extraordinário e temporário do ISP para compensar uma subida dos combustíveis, caso se verifique um aumento de 10 cêntimos face ao valor desta semana. Aliás, Paulo Monteiro Rosa antecipa que num cenário de subida acentuada e prolongada do preço do petróleo, as medidas tendem a centrar-se sobretudo na mitigação do impacto nos combustíveis e nos custos energéticos. «Entre as opções mais prováveis estão reduções ou ajustes temporários na carga fiscal sobre os combustíveis, como o ISP, mecanismos de compensação fiscal já usados no passado, ou apoios direcionados a setores mais expostos, como transportes, agricultura ou indústria».
No entanto, o economista chama a atenção para a folga orçamental, já que Portugal fechou 2025 com mais de 800 milhões de euros cativos. «Uma maior folga orçamental pode dar ao atual executivo alguma margem para responder a choques externos, como uma subida acentuada dos preços da energia. O facto de existir verba cativa ou não executada no orçamento pode facilitar a mobilização de recursos para medidas de mitigação, como apoios temporários a setores mais expostos ou ajustamentos fiscais sobre os combustíveis», salientando que a «resposta dependerá sempre da dimensão e da duração do choque energético, bem como das prioridades orçamentais e das regras europeias de disciplina orçamental».
Uma opinião partilhada por Mira Amaral. Mas o antigo ministro admite que isso revela o nível de pressão sobre as contas públicas. «Por um lado, tem o aumento de despesa por causa da tempestade e, por outro lado, tem diminuição de receitas, como se prevê a redução do ISP, em que o ministro das Finanças tenta compensar o aumento da despesa e a diminuição da receitas que vamos ter». E ironiza: «Aprenderam com o Governo Socialista esse instrumento e aplicam».
É certo que estas incertezas vão baralhar ainda mais as contas do Governo e o analista da XTB, João Cruz, recorda que no Orçamento do Estado para 2026, o Governo apontou para uma inflação de 2,1% e um crescimento de 2,3%. «Um cenário de energia mais cara durante vários meses tende a pressionar a inflação acima do previsto e retirar algum fôlego ao crescimento: custos mais altos para empresas e menor poder de compra das famílias».
Mas reconhece que, se, pelo contrário, o choque for temporário e houver normalização rápida, o impacto macro pode ser contido e mais concentrado no curto prazo. «O fator decisivo aqui é a duração do choque e se surgem ‘efeitos de segunda ordem’, como por exemplo, via salários e serviços», acrescentando que, nesta altura, «já vemos os preços do petróleo e do gás a corrigir, o que poderá simbolizar que o preço não ficará alto por demasiado tempo».
Investimentos também são atingidos
Henrique Valente, analista da ActivTrades Europe, admite que para os mercados acionistas, o fator central é o impacto que a energia tem na inflação e, por consequência, na política monetária e no crescimento económico. «Um petróleo mais baixo reduz as pressões inflacionistas e melhora as perspetivas para a atividade económica, criando condições mais favoráveis para os ativos de risco», diz ao Nascer do SOL.
E não se mostra surpreendo com a reação dos mercados, «sobretudo porque os investidores inicialmente antecipavam um conflito mais limitado e de curta duração». Ainda assim, reconhece que situação alterou-se com o risco de perturbações no tráfego no Estreito de Ormuz, pois qualquer interrupção nessa passagem tenderá a pressionar os preços da energia, com impacto direto na inflação. «Quanto mais tempo durar o conflito, maior será o impacto negativo nos mercados», afirma.
Já em relação aos investimentos em ativos de refúgio, apesar de terem começado a semana em alta com a escalada no Médio Oriente, tanto o ouro como a prata têm vindo a recuar. «A razão prende-se com o facto de um aumento do preço da energia poder pressionar a inflação. Isso tende a levar os investidores a antecipar uma política monetária mais restritiva, com taxas de juro mais elevadas. Esse cenário pesa sobre ativos como o ouro e a prata, que não geram rendimento», conclui o analista.
Só jogadores ficam em zonas de conflito
Há, pelo menos, 94 portugueses, entre jogadores, treinadores e dirigentes, que trabalham no Médio Oriente e do outro lado da guerra também há atletas que foram apanhados pelo conflito. Em Israel, 11 futebolistas portugueses estão numa situação de risco, devido aos ataques do Hezbollah contra cidades israelitas. Há muito que a região se tornou um lugar perigoso e a bola já não salta como antes.
Ricardo Alves é o único jogador português no Irão, mas logo que começaram os ataques, pegou no carro e saiu pela fronteira com a Turquia. Nos países vizinhos a comunidade portuguesa aguarda com ansiedade os desenvolvimentos do conflito, antes de decidir ficar ou regressar a Portugal.
Nos principais campeonatos da Arábia Saudita alinham 28 jogadores, com destaque para Cristiano Ronaldo e João Félix, sendo que 14 têm dupla nacionalidade, e 11 treinadores, incluindo Jorge Jesus. De salientar ainda a presença de quatro dirigentes desportivos lusos. O segundo país com mais portugueses são os Emirados Árabes Unidos, com 21 jogadores e 10 treinadores oriundos de Portugal. No Qatar estão oito jogadores, dois treinadores principais e um dirigente desportivo. Nas principais equipas do Bahrain há cinco e, no Kuwait, apenas um jogador português. Porém, neste país há mais quatro atletas de futsal, andebol e voleibol.
O ataque militar dos EUA e Israel e a retaliação do Irão deixaram o desporto em suspenso. Por questões de segurança, as competições desportivas no Bahrain, Qatar, Kuwait e Emirados Árabes Unidos foram suspensas e não há data para o recomeço. A exceção vem da Arábia Saudita, que mantém tudo na mesma, apesar de a embaixada dos EUA em Riade ter sido atingida por drones iranianos. «O campeonato saudita continua normalmente e a nossa equipa está focada em vencer», afirmou Jorge Jesus, treinador do Al Nassr.
Apesar de os jogadores terem ficado nos países em conflito, a maioria das famílias já saiu por questões de segurança. O jato de Cristiano Ronaldo já está em Madrid.
Mas não são apenas os jogadores de futebol afetados. A totalidade da população portuguesa residente nos principais países conflituosos ou geograficamente próximos no Médio Oriente ronda as 8.000 pessoas, a grande maioria nos Emirados Árabes Unidos. Isto sem contar com o número de turistas nestas zonas geográficas, o que levou Portugal a ativar o Mecanismo Europeu de Proteção Civil para repatriar cidadãos a partir do Médio Oriente. Já houve, pelo menos, 400 pedidos de repatriamento.
João Sena com Daniela Soares Ferreira