segunda-feira, 18 mai. 2026

Governo não foi avisado do apagão e culpa Espanha por falhas técnicas

A ministra do Ambiente garante que Portugal não recebeu qualquer alerta antes do apagão de abril de 2025 e aponta origem do incidente a falhas técnicas em Espanha
Governo não foi avisado do apagão e culpa Espanha por falhas técnicas

A ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, assegurou que Portugal não recebeu qualquer aviso prévio sobre o apagão elétrico de 28 de abril de 2025.

Na audição parlamentar na Comissão de Ambiente e Energia, esta quarta-feira, a governante afirmou que está convencida de que “nem o governo espanhol estaria alertado para o perigo”, sublinhando que o colapso foi súbito e impossível de antecipar.Falha teve origem em Espanha e propagou-se em segundos

Segundo o relatório da ENTSO-E (Rede Europeia de Gestores de Redes de Transporte de Eletricidade), validado pela ACER (Agência de Cooperação dos Reguladores da Energia da União Europeia), o apagão teve origem em território espanhol, propagando-se a Portugal e a uma pequena região de França.

De acordo com a ministra, o incidente resultou de uma sucessão de falhas técnicas iniciadas em Granada, passando por Badajoz e Sevilha, associadas sobretudo a insuficiências no controlo de tensão.

O colapso ocorreu em poucos segundos: o primeiro incidente foi registado às 11h32m57s em Espanha, o apagão total no país vizinho aconteceu às 11h33m17s e, apenas seis segundos depois, atingiu Portugal.

“Em seis segundos não era possível evitar os efeitos”, afirmou, citada pela agência Lusa, classificando os impactos no território nacional como inevitáveis.

Portugal tinha melhores mecanismos de proteção

A ministra defendeu que Portugal dispunha de sistemas de proteção mais robustos do que Espanha, o que ajudou a mitigar os efeitos do apagão.

Segundo explicou, desde 2020 que todas as novas centrais eólicas e solares em Portugal são obrigadas a ter mecanismos de controlo de tensão — uma exigência que, segundo disse, não existia em Espanha, sobretudo no setor solar.

A governante destacou ainda diferenças nos limites de tensão, referindo que Portugal segue o padrão europeu de 420 kV, enquanto Espanha opera com uma derrogação que permite atingir os 435 kV.

Apesar da dimensão do incidente, a resposta nacional foi “imediata” e articulada entre Governo e entidades do setor, permitindo restabelecer o fornecimento elétrico em menos de 15 horas.

A ministra adiantou que 90% das recomendações do relatório europeu já estão implementadas ou em curso em Portugal.

Entre as medidas a reforçar estão a partilha de dados, testes aos sistemas de arranque autónomo (blackstart) e maior cooperação com Espanha na gestão de cenários de crise.

Renováveis não estão na origem do problema

Maria da Graça Carvalho rejeitou que o apagão esteja relacionado com a produção de energias renováveis.

“A questão não foi das renováveis”, afirmou, lembrando que Espanha tem também centrais nucleares em funcionamento.

Ainda assim, reconheceu que a crescente complexidade do sistema elétrico europeu — com mais produção distribuída, autoconsumo e comunidades de energia — exige maior capacidade de gestão e planeamento.

A ministra revelou ainda que o relatório do Grupo de Aconselhamento Técnico está concluído e será divulgado a 28 de abril, com o objetivo de reforçar a resiliência do sistema elétrico nacional.

Entre as prioridades está garantir maior autonomia dos serviços críticos, como hospitais, lares e meios de socorro, com capacidade de funcionamento independente por pelo menos 24 horas em caso de falha.