O Fundo Monetário Internacional (FMI) mantém uma avaliação globalmente positiva da economia portuguesa, destacando a resiliência demonstrada nos últimos anos, a robustez do mercado de trabalho e a trajetória de redução da dívida pública. Ainda assim, a instituição antecipa um abrandamento gradual do crescimento económico e alerta para um conjunto de desafios estruturais que poderão condicionar o desenvolvimento do país no longo prazo.
Segundo recorda Paulo Monteiro Rosa, economista do Banco Carregosa, a revisão em baixa das previsões de crescimento para Portugal resulta sobretudo do contexto internacional. O FMI prevê que a economia portuguesa cresça 1,7% em 2026, abaixo do registado nos últimos anos e dos 1,9% anteriormente estimados.
Segundo o economista, «esta revisão em baixa é ditada sobretudo pela desaceleração da procura externa, do abrandamento da economia europeia e do aumento das incertezas no contexto internacional, nomeadamente as relacionadas com as tensões comerciais e geopolíticas».
Apesar da revisão, o FMI continua a considerar que a economia nacional deverá manter uma trajetória de crescimento sustentada. «A economia portuguesa continuará a apresentar um crescimento resiliente, sustentado pelo consumo privado, pelo investimento e pela boa situação do mercado de trabalho», explica Paulo Monteiro Rosa. Ainda assim, a previsão do Fundo permanece mais conservadora do que a do Governo, que aponta para um crescimento de 2%, e ligeiramente abaixo da estimativa de 1,8% do Banco de Portugal para 2026.
Entre os principais alertas deixados pelo FMI está o impacto do envelhecimento demográfico sobre as contas públicas. A instituição considera que a evolução da população irá exercer uma pressão crescente sobre a despesa com pensões e saúde nas próximas décadas, defendendo reformas que reforcem a sustentabilidade do sistema.
Nesse contexto, o Fundo recomenda uma revisão das pensões de sobrevivência, que considera relativamente «generosas» quando comparadas com as praticadas noutros países europeus. No entanto, Paulo Monteiro Rosa sublinha que o FMI «não defende cortes generalizados nas pensões», mas antes «uma revisão das regras do sistema, nomeadamente ao nível das pensões de sobrevivência, da idade de reforma antecipada e dos mecanismos de indexação, de forma a garantir a sustentabilidade».
A habitação é outra das áreas que merecem atenção especial no relatório. Embora o FMI não peça expressamente o fim da garantia pública para a compra de casa por jovens, manifesta reservas em relação a este tipo de medidas. Segundo Paulo Monteiro Rosa, a instituição considera que estes mecanismos «podem estimular a procura num mercado que tem uma oferta insuficiente, contribuindo assim para um aumento adicional dos preços da habitação».
Para o Fundo, acrescenta, a resposta ao problema da habitação deve centrar-se sobretudo no aumento da oferta. Entre as medidas defendidas estão «a simplificação dos processos de licenciamento, a aceleração da construção, a reabilitação urbana e uma utilização mais eficiente do parque habitacional existente», daí defender que o FMI apontar para medidas de apoio à procura, como a garantia pública que devem ser «cuidadosamente avaliadas quanto ao seu impacto e eficácia», acrescenta o economista, lembrando que esta instituição «tem algumas reservas relativamente a medidas que estimulem a procura, alertando que podem contribuir para uma maior pressão sobre os preços das casas».
No relatório, o FMI destaca ainda a necessidade de preservar a prudência orçamental e prosseguir reformas que aumentem a produtividade, reforcem o investimento, promovam a inovação e melhorem a competitividade da economia portuguesa. A instituição considera que Portugal parte atualmente de uma posição económica favorável, mas avisa que a capacidade de assegurar um crescimento sustentável dependerá da implementação dessas reformas estruturais.