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O Fundo Monetário Internacional (FMI) voltou a rever em baixa as perspetivas para a economia portuguesa, prevendo agora um crescimento de apenas 1,7% em 2026, abaixo dos 1,9% estimados em abril e também da previsão de 2% apresentada pelo Governo português.
A nova projeção consta do relatório da missão do Artigo IV, divulgado esta quarta-feira, e reflete um cenário internacional mais adverso, marcado pelo impacto económico da guerra no Médio Oriente e pelo abrandamento esperado do investimento financiado por fundos europeus.
Segundo o FMI, os efeitos negativos do conflito no Médio Oriente deverão anular parte dos benefícios resultantes da execução dos fundos da União Europeia.
A instituição refere ainda que as tempestades do início do ano afetaram temporariamente a atividade económica, embora considere que os trabalhos de reconstrução e reparação deverão compensar esses efeitos ao longo dos próximos meses.
"Espera-se que as reconstruções e reparações impulsionem a atividade posteriormente, de modo que o impacto anual das tempestades deve ser amplamente neutro", assinala o relatório, citado pela agência Lusa.
Para 2027, o FMI prevê um crescimento económico de 1,6%, seguindo-se uma ligeira aceleração para 1,8% em 2028.
A desaceleração prevista para o próximo ano resulta sobretudo do fim dos investimentos financiados pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).
O FMI estima também uma subida da inflação em Portugal durante 2026.
Segundo as previsões da instituição, o Índice Harmonizado de Preços no Consumidor deverá atingir 3,4%, impulsionado pelo aumento dos preços das matérias-primas e por pressões salariais.
A inflação deverá depois regressar a níveis mais moderados, situando-se nos 2,3% em 2027.
FMI prevê saldo orçamental nulo este ano
No que respeita às contas públicas, o FMI prevê que Portugal alcance um saldo orçamental equilibrado em 2026, melhorando a projeção anterior que apontava para um défice de 0,1% do Produto Interno Bruto (PIB).
A instituição destaca, contudo, que esta estimativa incorpora despesas extraordinárias relacionadas com os danos provocados pelas tempestades, avaliadas preliminarmente em cerca de 0,3% do PIB.
O relatório refere ainda o impacto de outras medidas adotadas pelo Governo, como os descontos no Imposto sobre os Produtos Petrolíferos (ISP) para mitigar a subida dos preços da energia e os cortes fiscais previstos no Orçamento do Estado para 2026.
Apesar de considerar que o Orçamento do Estado para 2026 ajudará a responder aos choques recentes, o FMI alerta que a orientação expansionista da política orçamental poderá alimentar pressões inflacionistas.
A organização sublinha ainda que manter saldos equilibrados no médio prazo exigirá medidas adicionais para compensar o aumento da despesa pública.
Entre os principais desafios identificados estão o envelhecimento da população, o crescimento das despesas com pensões e saúde, o aumento gradual do investimento em defesa para cumprir a meta da NATO de 3,5% do PIB até 2035 e o impacto permanente das reduções de impostos já implementadas ou anunciadas.
Perante este cenário, a equipa do FMI prevê que Portugal volte a registar défices orçamentais crescentes a partir de 2028.
"São necessárias medidas compensatórias para atingir as metas orçamentais", alerta o relatório.
Governo discorda da necessidade de novas medidas
O Governo português, ouvido durante a missão do Artigo IV, concorda com várias das recomendações apresentadas pelo FMI, mas mantém uma visão mais otimista sobre a evolução das finanças públicas.
Segundo o relatório, o executivo liderado por Luís Montenegro considera que será possível manter orçamentos equilibrados no médio prazo sem recorrer a novas medidas de austeridade ou cortes adicionais na despesa.
Tal como o FMI, o Governo prevê atualmente um saldo orçamental nulo em 2026, de acordo com o relatório anual de progresso enviado à Comissão Europeia no final de abril.
As novas previsões do FMI reforçam, contudo, os sinais de desaceleração da economia portuguesa e colocam pressão adicional sobre a estratégia orçamental do Governo para os próximos anos.