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A situação não é novidade: Em Espanha os combustíveis são mais acessíveis que em Portugal e, em tempos de guerra, a tendência mantém-se. Os dados disponíveis mostram que, este mês, os valores em Portugal continuam acima dos praticados em Espanha, com diferenças que variam entre cerca de 10 e 30 cêntimos por litro, consoante os postos.
Algumas comparações: um posto da Repsol perto do Aeroporto de Lisboa tem, à hora a que se escreve este texto, a gasolina simples 95 a 1,999 euros o litro e o gasóleo simples a 2,189 euros o litro. Na BP mais próxima, o preço é ainda maior: a gasolina 95 simples já passa dos dois euros e o gasóleo simples chega aos 2.229 euros o litro.
Num site de comparação de preços, pesquisando por Madrid, todos os postos têm o mesmo gasóleo abaixo dos dois euros. E a gasolina simples 95 toda abaixo dos 1,70 euros o litro. Nem perto do aeroporto os preços espanhóis se assemelham aos portugueses.
Em casos mais próximos, num posto em Elvas, os valores estão todos próximos ou a ultrapassar os dois euros em vários cêntimos, com o gasóleo mais caro. Em Badajoz, os valores do litro do gasóleo não ultrapassam os 1,80 euros e os da gasolina 95 não excedem os 1,40 euros.
Certo que um português que resida longe de Espanha, não irá ao país vizinho abastecer o carro mas quem está perto já não perde oportunidade. «O que o setor começou a sentir, sobretudo a partir da entrada em vigor dos apoios espanhóis ao combustível em abril, foi uma pressão muito concreta nos postos junto à fronteira, com desvio de abastecimentos para Espanha», diz ao SOL João Freitas, vice-presidente da Associação Nacional de Revendedores de Energia, Combustíveis, Estações de Serviço, Estacionamentos e Lavagens Automóveis (Anarec). No entanto, garante: «Em termos nacionais, os dados agregados de março ainda não traduzem uma quebra generalizada do consumo», ainda que se tenha notado «uma preocupação acrescida com uma gestão mais eficiente dos combustíveis, sempre que possível».
A carga fiscal em Portugal é um dos fatores que mais influencia o preço. A guerra só veio agravá-lo. Espanha avançou recentemente com reduções do IVA sobre os combustíveis, contribuindo para aliviar o preço final ao consumidor. Já em Portugal, embora existam mecanismos de mitigação – como reduções temporárias do ISP – a carga fiscal continua a representar uma fatia significativa do preço final, o que mantém os combustíveis estruturalmente mais caros.
Combustível não vai faltar
Questionado sobre se poderá haver falta de combustível, João Freitas é perentório: «Não é correto falar em racionamento nem em falta iminente de combustível». E acrescenta: «O que estamos a viver é uma crise de preços provocada por um forte desequilíbrio entre oferta e procura nos mercados energéticos, e não uma situação de escassez física de produto», o que considera «realidades diferentes».
João Freitas acrescenta: «Uma coisa é haver tensão no mercado e preços elevados; outra é faltar combustível, e não é isso que está em causa».
O responsável explica que há uma rede por trás que impossibilita que cheguemos a esse ponto: «O sistema português assenta numa arquitetura de segurança precisamente pensada para cenários de perturbação: os operadores têm obrigação de manter 90 dias de reservas mínimas de segurança, sendo 30 dias constituídos obrigatoriamente pela entidade central de armazenagem, a ENSE, e os restantes 60 dias pelos operadores obrigados».
Além disso, diz ainda, o nosso país conta com uma Rede de Emergência de Postos de Abastecimento (REPA) «e de planos específicos para utilização das reservas de segurança e coordenação da distribuição em caso de crise».