O diretor-geral da Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG) afirmou esta quarta-feira que o sistema elétrico nacional é estável e não apresenta debilidades estruturais. Paulo Carmona defendeu que o apagão de 28 de abril funcionou como um teste real às capacidades do sistema.
Na audição do Grupo de Trabalho sobre o apagão, o responsável assegurou que o incidente não revelou falhas estruturais, mas antes a necessidade de complementar o sistema com novos instrumentos de gestão, num contexto de elevada penetração de energias renováveis.
“O sistema é estável, não há nenhuma debilidade do sistema. Temos é de o complementar com outras funções”, afirmou, citado pela agência Lusa.
Segundo o Paulo Carmona, o colapso não esteve relacionado com ciberataques, terrorismo ou atos maliciosos, nem provocou vítimas ou danos relevantes nas redes de transporte. “Não foi ciberataque, não foi terrorismo, não foi nocivo”, sublinhou, considerando que o apagão foi “um bom teste” à capacidade de resposta do país.
Paulo Carmona destacou ainda que Portugal conseguiu reiniciar autonomamente o sistema elétrico, recorrendo a mecanismos de black start — que permitem arrancar centrais elétricas sem apoio da rede externa após um colapso total —, embora com apoio de França para acelerar o processo.
“Nós conseguimos reiniciar isto sozinhos”, afirmou, considerando que esta capacidade reforça a confiança no sistema nacional.
Apesar do carácter inédito do colapso, a restauração da rede foi rápida: Portugal recuperou totalmente a ligação de alta tensão pouco depois da meia-noite e Espanha cerca das 04h00 do dia seguinte.
O diretor-geral da DGEG salientou ainda que Portugal operou durante cerca de um mês e meio praticamente em autarcia, vivendo apenas com recursos próprios, o que permitiu comprovar a autossuficiência do sistema em termos de segurança energética.
Entre as medidas em curso para reforçar a estabilidade estão o alargamento dos serviços de black start, com a entrada em funcionamento do sistema em mais duas centrais, investimentos de 137 milhões de euros em recursos de controlo de tensão e o lançamento de um mercado de serviços de sistema de emergência baseado em baterias.
Segundo Paulo Carmona, as baterias são “complementares e essenciais” para a transição energética, por permitirem introduzir inércia no sistema e compensar a variabilidade da produção renovável.
“O problema não foi das renováveis nem da intermitência, foi um problema de extensão do sistema”, afirmou, defendendo uma melhor capacidade de gestão e armazenamento de energia.
O responsável alertou ainda que o nível de risco aceitável do sistema elétrico é uma decisão política. “Se quisermos segurança a 100%, isso custa muito dinheiro”, disse, sublinhando que essa escolha cabe aos decisores políticos.
De acordo com o grupo de peritos da Rede Europeia de Operadores de Transporte de Eletricidade (ENTSO-E), a causa mais provável do apagão foi um aumento de tensão em cascata, observado no sul de Espanha na fase final do incidente, seguido de desligamentos súbitos de produção — sobretudo renovável — que levaram à separação elétrica da Península Ibérica do sistema continental, com perda de sincronismo e colapso da frequência e da tensão.
O relatório final sobre o apagão elétrico deverá ser publicado no primeiro trimestre de 2026.