A economia portuguesa irá desacelerar este ano e a ‘culpa’ é não só do conflito internacional, mas também ao mau tempo que assolou o país. De acordo com o Banco de Portugal (BdP), o PIB deverá crescer 1,8% em 2026, 1,6% em 2027 e 1,8% em 2028, revendo assim em baixa o crescimento deste ano em 0,5 pontos percentuais, «refletindo a deterioração do contexto internacional, na sequência do conflito no Médio Oriente, que implicou o aumento do preço dos bens energéticos e a expectativa de agravamento das condições de financiamento».
Os eventos climáticos extremos do início do ano e a evolução mais fraca da atividade no final de 2025 face ao projetado em dezembro também contribuíram para a revisão em baixa. Ainda esta quinta-feira, o INE revelou que Portugal terminou 2025 com um excedente orçamental de 2.058,6 milhões de euros, o equivalente a 0,7% do Produto Interno Bruto (PIB), superior à previsão de 0,3% do Governo, levando o ministro das Finanças a afirmar que estes números reforçam «a posição e a avaliação externa de Portugal e permite ao Estado ter margem para atuar na resposta às crises das tempestades e agora do Irão».
Ao Nascer do SOL, o economista João César das Neves reconhece que «a situação está a mudar de forma descontrolada, mesmo para aqueles que a determinam. A revisão de meio ponto percentual apresentada no cenário do Banco de Portugal é muito expressiva, embora compreensível, dados todos os imponderáveis».
Ainda assim, a entidade liderada por Álvaro Santos Pereira admite que «este quadro adverso é mitigado, em 2026, pela solidez do mercado de trabalho, a execução do PRR e uma política orçamental expansionista». Já em 2027 e 2028, acredita que a atividade será condicionada pelo abrandamento da oferta de trabalho e pela diminuição dos fundos europeus. E aponta a procura interna como o principal motor do crescimento. «A economia portuguesa continuará a crescer acima da média da área do euro, ainda que o diferencial se estreite ao longo do horizonte», salienta o BdP, referindo que o mercado de trabalho continuará sólido, com uma taxa de desemprego estabilizada em níveis historicamente baixos. A criação de emprego abrandará, fruto da diminuição dos fluxos migratórios e do aumento mais contido da taxa de atividade.
No entanto, César das Neves diz que tudo é de esperar. «É provável que, como de costume, os resultados sejam menos maus que as antevisões, mas os cenários catastróficos são assustadoramente plausíveis. Temos demasiada pólvora espalhada em vários domínios –militar, comercial, financeiro, tecnológico – para se andar a brincar com fósforos», alerta.
Já a inflação deverá aumentar para 2,8% em 2026, refletindo o aumento das pressões de origem externa. O conflito no Médio Oriente explica, em larga medida, as revisões em alta. «A dissipação do efeito do choque energético nos preços e a manutenção das expectativas de inflação de longo prazo ancoradas deverão contribuir para a redução da inflação para 2% em 2028», admite o banco central, referindo, no entanto, que a incerteza é elevada e os riscos intensificaram-se desde dezembro. «As hipóteses do exercício de projeção têm por base as expectativas implícitas nos mercados financeiros até 13 de março, pressupondo uma duração relativamente limitada do conflito no Médio Oriente e efeitos contidos na confiança das famílias e empresas e nas cadeias de abastecimento globais», refere.
Também para César das Neves ainda é cedo para falar em inflação. «Temos por enquanto um choque nos preços que, se for persistente, se traduzirá em inflação. Mas o nervosismo tende a omitir estas distinções. O salto de quase um ponto percentual é impressionante», afirma.
Quanto a riscos internos, o Banco de Portugal chama a atenção para a execução do PRR.