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Os preços do gás e do petróleo na Europa registaram uma forte descida após o anúncio de um cessar-fogo temporário no conflito envolvendo o Irão, aliviando a pressão nos mercados energéticos e financeiros. A queda foi significativa, com o petróleo a desvalorizar mais de 10% e o gás europeu também a recuar de forma acentuada.
Esta descida surge depois de semanas de forte subida provocada pela instabilidade no Médio Oriente e pelo impacto no fornecimento energético global, especialmente devido às perturbações no estratégico Estreito de Ormuz.
Apesar do alívio imediato, especialistas constatam que os preços continuam acima dos níveis anteriores ao conflito e preveem que a volatilidade deverá manter-se. O mercado energético permanece sensível a desenvolvimentos geopolíticos, e uma normalização total poderá demorar vários anos.
Em Portugal, a descida do petróleo poderá traduzir-se numa ligeira redução no preço dos combustíveis, mas esse efeito não será imediato. Fatores como impostos, custos de refinação e contratos de fornecimento fazem com que o impacto no consumidor seja mais lento e limitado.
Assim, embora o cenário atual traga algum alívio, a evolução dos preços continuará dependente da estabilidade internacional e das negociações em curso.
Mas o que esperar daqui para a frente? Henrique Tomé, analista de mercados da XTB, começa por dar números: «O petróleo desvalorizou mais de 10% após o anúncio do período de duas semanas de cessar-fogo entre EUA-Irão e, o gás natural cotado na Europa já recuou mais de 50% desde os máximos registados durante o início da guerra».
No entanto, o analista avisa que a evolução do preço das matérias-primas energéticas «continua muito dependente, também da evolução do conflito no Médio Oriente» e salienta que «embora os EUA e o Irão tenham acordado um cessar-fogo por duas semanas, a verdade é que ainda não foi alcançado um acordo definitivo ao ponto de levar também a uma abertura total do estreito de Ormuz». Até lá, «é esperado que a volatilidade no mercado energético se mantenha elevada, mesmo que os preços se afastem dos máximos registados durante o período da guerra».
Paulo Monteiro Rosa, economista sénior do Banco Carregosa, também refere que após o anúncio do cessar-fogo entre os EUA e o Irão, os preços do petróleo e do gás «reagiram em baixa, refletindo um alívio imediato do risco geopolítico». No entanto, «essa descida não se tem revelado sustentada, e os preços do petróleo já recuperaram parcialmente, sinalizando que os mercados continuam cautelosos quanto à solidez e duração do acordo».
O economista é perentório: «Neste momento, não é expectável uma descida prolongada dos preços da energia, uma vez que a trégua é limitada no tempo e persistem focos de instabilidade na região». Enquanto houver risco de disrupções no fornecimento, nomeadamente o bloqueio do Estreito de Ormuz, «continuará a existir um prémio de risco elevado incorporado nos preços».
Assim, o cenário mais provável no curto prazo «é o de volatilidade, totalmente dependente da evolução política e militar», diz o economista, acrescentando que «uma estabilização só deverá ocorrer se houver um prolongamento credível do cessar-fogo, enquanto uma nova subida significativa dependerá de uma eventual escalada do conflito».
Alívio direto para o consumidor?
Quando poderá o consumidor sentir um alívio direto na carteira? Henrique Tomé lembra que o aumento do preço da energia «tem-se sentido sobretudo no preço dos combustíveis, que são atualizados semanalmente». Nesse sentido, prevê, «é esperado um alívio (até considerável) para os consumidores tendo em conta os movimentos que assistimos esta semana». Mas nem tudo são boas notícias: «A situação ainda não está totalmente resolvida; pelo que podemos demorar algum tempo, até vermos os preços do combustível a voltarem para os valores anteriores ao início da guerra no Médio Oriente».
Por sua vez, Paulo Monteiro Rosa avisa: «O alívio direto para o consumidor ainda pode demorar», apesar de esta quarta-feira os preços do gasóleo refinado na Europa terem registado «quedas muito significativas». Em números: «O gasóleo chegou a cair cerca de 400 dólares por tonelada, para 1100 dólares/tonelada, e, no final, perdeu 270 dólares, uma queda de quase 20%. No entanto, esta sexta-feira recupera cerca de 100 dólares, o que evidencia a elevada volatilidade do mercado».
Para Paulo Monteiro Rosa, este comportamento mostra que, «apesar do impacto imediato nos mercados grossistas, os preços ainda estão longe de estabilizar». Além disso, acrescenta, «a transmissão destas variações para o consumidor final não é imediata, sendo influenciada por referências como a Platts, que assentam em médias de vários dias, bem como por contratos de fornecimento, custos de refinação, logística e carga fiscal». Isto no caso da descida, naturalmente, pois a subida em flecha fez-se sentir de forma quase instantânea.
Isso deve-se ao facto de o mercado apresentar «características de elevada concentração, com poucos operadores relevantes, o que reduz a pressão concorrencial», defende. Ou seja, «um mercado oligopolista com elevada concentração e sinais de que poderá existir coordenação tácita. Assim, frequentemente existe uma assimetria na transmissão de preços». Quando os preços internacionais sobem, «os ajustamentos tendem a ser rápidos, refletindo a necessidade de proteger margens face ao aumento dos custos de reposição. Por outro lado, quando os preços descem, a transmissão é mais lenta, quer pela existência de stocks adquiridos a preços mais elevados, quer pela ausência de urgência em ajustar preços em baixa». O consumidor acaba por ser sempre o principal prejudicado.
Na prática, mesmo que haja alguma descida nos preços internacionais, «o alívio dos combustíveis para o consumidor tende a ser mais gradual e pode ser limitado caso a instabilidade se mantenha», antevê Paulo Monteiro Rosa.
Ajudas do Governo
Com a escalada de preços nos combustíveis, o Governo tem avançado com reduções no imposto sobre produtos petrolíferos (ISP) e esta semana foi aprovada no Parlamento para proposta para baixar o valor mínimo deste imposto. Além disso, foram aprovadas, na semana passada, algumas medidas para setores específicos.
Mas poderá não ser suficiente. O analista de mercados da XTB atira que «esta é uma situação sensível, tanto para as famílias como para as empresas, tendo em conta também que não é a primeira vez que se assiste a choques nos preços da energia». E alerta que se os preços continuarem altos, «é possível começarmos a assistir a uma mudança nos padrões de consumo das famílias, levando-as a usarem menos o carro e optarem mais por serviços públicos, por exemplo».
No caso das empresas, acrescenta Henrique Tomé, «se os valores elevados do combustível se mantiverem durante mais tempo do que é previsto, então estas podem ser obrigadas a passar este custo extra para os consumidores».
Sobre este assunto, o economista do Banco Carregosa avisa que se se verificar uma nova escalada geopolítica ou contínua interrupção no fornecimento, sobretudo se o Estreito de Ormuz permanecer parcialmente encerrado, é possível que os preços voltem a subir. «O atual contexto ainda é de elevada incerteza, pelo que movimentos em alta não podem ser excluídos».
Quanto à capacidade de absorção por parte dos consumidores, «ela depende essencialmente do nível e da duração dessas subidas», diz Paulo Monteiro Rosa, acrescentando que «a curto prazo, variações moderadas podem ser acomodadas, ainda que com impacto no rendimento disponível. No entanto, aumentos significativos e prolongados tendem a ter efeitos mais amplos, pressionando o custo de vida e, em particular, os custos de transporte e energia».
Tendo em conta que esta incerteza pode fragilizar famílias e empresas, Paulo Monteiro Rosa considera que «a necessidade de eventuais medidas de apoio dependerá, assim, da magnitude do choque e da sua persistência, bem como da capacidade da economia para o absorver sem efeitos mais visíveis sobre a inflação, os juros do BCE, e a atividade económica».