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Os preços dos combustíveis voltam a estar debaixo de fogo. A evolução dos valores continua a alimentar a polémica entre Governo, ENSE e oposição, depois de o Executivo ter pedido uma análise à formação dos preços por considerar que a descida das cotações internacionais do petróleo não está a ser refletida com a mesma rapidez nas bombas.
Apesar das críticas, o economista do Banco Carregosa, Paulo Monteiro Rosa, considera que há fatores económicos que ajudam a explicar o desfasamento entre a evolução do petróleo e o preço pago pelos consumidores.
«A evolução do Brent não explica, por si só, o preço do gasóleo e da gasolina», afirma. Embora o Brent «já tenha regressado a valores muito próximos dos registados antes do início do conflito de 28 de fevereiro, nos 70 dólares», isso «não significa que toda a cadeia de abastecimento tenha voltado à normalidade».
O economista explica que a reabertura do estreito de Ormuz, uma das principais rotas mundiais para o transporte de petróleo, tem sido gradual. Segundo dados da Bloomberg, antes do conflito atravessavam diariamente o estreito entre 120 e 140 navios, mas «desde o início do conflito até meados de junho praticamente não houve tráfego no estreito de Ormuz, com apenas um número residual de navios a atravessá-lo». Só a partir de meados de junho é que o tráfego começou a recuperar, atingindo no final do mês cerca de 57 navios num dia.
«Enquanto o Brent recuperou rapidamente, a normalização da cadeia logística tem sido muito mais lenta e os mercados continuam a desconfiar de qualquer alteração nas negociações entre os EUA e o Irão», refere. Acrescenta que «nos últimos dias, as palavras de Donald Trump e a subida de 6% do petróleo vieram dar razão àqueles que desconfiavam de uma rápida normalização».
Na sua perspetiva, este contexto explica porque «a margem de refinação do gasóleo não regressou aos níveis anteriores ao conflito, ao contrário do Brent, mantendo o preço do gasóleo nas bombas acima dos valores de antes de 28 de fevereiro».
Por isso, Paulo Monteiro Rosa considera que «isto ajuda a explicar porque é que o gasóleo ainda não regressou aos cerca de 1,47 euros por litro antes de 28 de fevereiro, apesar de a margem do retalho se manter em cerca de 19 cêntimos por litro no gasóleo e cerca de 22 cêntimos na gasolina, e de a neutralidade fiscal afastar qualquer impacto da carga fiscal».
O economista conclui que «enquanto persistirem constrangimentos no transporte marítimo, nos seguros e na circulação de produtos energéticos, é natural que o preço do gasóleo demore mais tempo a refletir a descida do petróleo bruto».
Sem sinais de aumento das margens no retalho
Questionado sobre a possibilidade de as petrolíferas ou distribuidoras estarem a aumentar as margens, Paulo Monteiro Rosa diz que os dados disponíveis não sustentam essa ideia.
«Os dados não apontam para um aumento das margens do retalho. A margem das gasolineiras manteve-se relativamente estável, à volta de 19 cêntimos por litro no gasóleo e cerca de 22 cêntimos na gasolina», diz. Também a carga fiscal, acrescenta, não explica a diferença entre a descida do petróleo e os preços nas bombas. «A neutralidade fiscal tem limitado o impacto das oscilações dos preços internacionais, sendo qualquer aumento do IVA compensado por uma descida do ISP».
Segundo o economista, «o que aumentou foram as margens de refinação dos derivados, nomeadamente do gasóleo e da gasolina, nos mercados internacionais». Apesar da descida do Brent, essas margens «continuam acima dos níveis pré-conflito, refletindo ainda a falta de uma normalização plena do estreito de Ormuz». É precisamente «esse diferencial entre o preço do petróleo bruto e o preço dos combustíveis refinados nos mercados internacionais que ajuda a explicar porque é que o gasóleo e a gasolina continuam acima dos preços anteriores ao conflito».
ENSE deve acompanhar toda a cadeia de preços
Sobre a investigação pedida pelo Governo, Paulo Monteiro Rosa considera que a ENSE deve centrar a sua análise em toda a cadeia de formação dos preços. «A ENSE deve continuar a acompanhar a decomposição dos preços dos combustíveis ao longo de toda a cadeia, desde as cotações internacionais e respetivas margens de refinação, à distribuição, ao retalho e à carga fiscal».
Na sua opinião, «essa decomposição permite perceber onde estão os diferenciais de preço e distinguir o que resulta da evolução dos mercados internacionais do que resulta de eventuais distorções no mercado nacional».