Mário Centeno é um dos favoritos para ocupar o cargo de vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE). O outro é o letão Mārtiņš Kazāks. As reuniões informais arrancaram esta semana, o ex-governador do Banco de Portugal (BdP) foi o primeiro a ser ouvido, juntamente com Kazāks, governador do banco central da Letónia, Madis Müller, da Estónia, Olli Rehn, da Finlândia, Rimantas Šadžius, da Lituânia, e Boris Vujčić, da Croácia. Apesar de haver uma nova reunião do Eurogrupo na próxima segunda-feira, a decisão poderá só ser conhecida no encontro seguinte, que ocorrerá em fevereiro.
Centeno revelou, na semana passada, estar disponível para assumir essa função, afirmando que se sentia «motivado e qualificado» para o cargo, apesar de já ter sido apontado como um dos nomes na corrida à sucessão de Luis de Guindos. Uma vontade que acabou por ter eco junto do Governo, que apresentou a sua candidatura, já que esta tem de ser apoiada e apresentada formalmente pelos governos dos Estados-membros.
É certo que, em novembro, o ministro das Finanças já tinha afirmado que o Governo via «sempre com satisfação» o facto de um português concorrer a um alto cargo europeu. «O Governo, naturalmente, como acontece sempre –e como aconteceu, por exemplo, com António Costa [presidente do Conselho Europeu] recentemente – vê sempre com satisfação quando um português pode chegar a um cargo internacional», chegou a referir Joaquim Miranda Sarmento.
Um apoio que é visto com naturalidade pela politóloga Paula Espírito Santos, em cujo entender a questão ganha maiores contornos tendo em conta que Centeno não foi reconduzido no cargo de governador por decisão do Governo. «Se não conseguiu continuar o seu mandato ao nível nacional, o passo seguinte de promoção deveria ser esse, e é natural e saudável que possa haver acordo para ter um português, mesmo que seja de outro espetro político, enquanto vice-presidente do Banco Central Europeu. Tendo em conta que Mário Centeno mostrou essa vontade e disponibilidade, não havia motivo para que o Governo português não desse o seu aval», diz ao Nascer do SOL.
Quanto ao seu percurso profissional, a responsável recorda que Mário Centeno «nunca teve uma má imagem, nem enquanto ministro das Finanças, onde chegou a ser conhecido como ‘Ronaldo das Finanças’, nem enquanto governador do Banco de Portugal» e há que somar a isso o facto de «nunca ter escondido a ambição de continuar a trabalhar na área em que estava, nomeadamente em termos de regulamentação».
Quanto às polémicas que houve com o Governo, a politóloga não lhes atribui grande importância. «Dado o trabalho que tinha feito, mesmo com as polémicas em torno dos défices e da venda do edifício do Banco de Portugal, não havia motivo para o Governo criar entraves a algum tipo de projeto, ou de aspiração profissional e pessoal, além disso, para o Executivo se calhar mais vale ter Centeno daquele lado do que não ter ninguém que possa, mesmo indiretamente, ter alguma relação com a realidade nacional», salienta Paula Espírito Santo.
E apesar de reconhecer que não falta ao ex-governador «nem currículo, nem mérito», admite que lhe poderá faltar influência política e diplomática para ser escolhido para o cargo. «Há sempre algumas influências políticas e de bastidores que nos podem escapar». Elogia, no entanto, o facto de estar já numa fase de destaque.
Quem são os concorrentes
Também em vantagem, a par de Centeno, está Mārtiņš Kazāks, que, em dezembro de 2019, foi nomeado governador do Banco da Letónia, tornando-se o mais jovem de sempre a ocupar o cargo. Tem 52 anos, foi economista-chefe do Hansabank Group e tem-se destacado pelas suas declarações políticas em torno das taxas de juro do BCE.
Boris Vujčić, da Croácia é outro dos que estão na corrida. Nasceu em 1964, foi professor universitário e lidera o departamento de research do banco central croata desde 1996. Apesar de ser praticamente desconhecido na Europa, representa a voz dos países do alargamento.
Também interessado no cargo está Olli Rehn, da Finlândia. Nasceu em 1962 e conta com um percurso no Parlamento Europeu, tendo sido comissário europeu em várias pastas. Atualmente, é governador do banco central da Finlândia e concorreu à presidência do país em 2024, ficando em quarto lugar.
Rimantas Šadžius, da Lituânia, também está na corrida. Aos 65 anos, teve três mandatos como ministro das Finanças e experiência no Tribunal de Contas Europeu. Defende maior representatividade dos países que entraram na UE recentemente e já concorreu à presidência do Eurogrupo.
O mais jovem candidato é Madis Müller, da Estónia. Tem 48 anos e lidera atualmente o banco central da Estónia, depois de ter sido vice-governador entre 2011 e 2019. Destaca-se pela experiência em estabilidade financeira, área atribuída ao vice-presidente do BCE.
Recorde-se que para se ser escolhido é preciso arrecadar o apoio de 72% dos Estados-membros da área da moeda única (ou seja, pelo menos 16 dos 21 países do euro), representando pelo menos 65% da população. E após a discussão do Eurogrupo caberá ao Conselho da União Europeia avançar com uma recomendação ao Conselho Europeu (ao nível de líderes), deliberando por maioria qualificada reforçada dos países do euro. Em conformidade com o processo de seleção, depois de dados estes passos, o BCE e o Parlamento Europeu serão consultados antes de o Conselho Europeu tomar uma decisão final.
O mandato de Luis de Guindos termina a 31 de maio de 2026. Mais tarde serão abertas candidaturas para substituir o economista-chefe, Philip Lane, em maio de 2027, e a presidente, Christine Lagarde, em outubro do mesmo ano.