Banco Montepio prepara-se para virar a página

Pedro Leitão sai da liderança do Montepio cinco anos depois, deixando uma estrutura mais pequena e após a venda do Finibanco Angola. José Azevedo Pereira deverá ser oficializado em abril
Banco Montepio prepara-se para virar a página

O descontentamento em torno do trabalho que estava a ser desenvolvido pelo CEO do banco Montepio, Pedro Leitão, não é novo, mas só agora a Associação Mutualista Montepio Geral (AMMG) oficializou a sua saída. Ainda em campanha para a liderança da Mutualista, Virgílio Lima chegou a admitir que o «banco [Montepio] tem potencial de remuneração maior», reconhecendo que tem a expectativa de que os dividendos subam nos próximos anos. Agora, ao Nascer do SOL, disse apenas que tem uma proposta para o novo mandato e que esta «contemplará renovação, mas também continuidade entre os atuais membros», que irá seguir «trâmites próprios, não podendo, como tal, nesta fase ser tornada pública». José Azevedo é o nome que tem sido apontado.

Contactado pelo nosso jornal, Tiago Mota Saraiva, que liderou a lista de oposição para a Assembleia de Representantes da Mutualista (conseguindo eleger 11), afirmou que o órgão não consultado em relação a estas mudanças, mas também reconheceu que não teria de ser informado. Ainda assim, admitiu que a Assembleia de Representantes pode ajudar o conselho de administração a decidir o perfil de pessoas que devem estar à frente da empresa mais importante do grupo que é o banco e lamenta que a escolha volte a recair num perfil de uma pessoa ligada à banca tradicional. «Nas eleições fala-se mutualismo para cá, mutualismo para lá, que o banco pode e deve ser diferente então porque é continuamente escolhemos pessoas da banca comercial?», questiona, defendendo um líder que «tenha um projeto que faça do banco uma coisa diferente».

Cinco anos depois, o trabalho do ainda CEO ficou marcado pela apresentação de lucros, uns mais altos do que outros, com exceção do seu primeiro ano de mandato – marcado pela pandemia – e por uma estrutura no mercado nacional bastante mais reduzida: menos 681 trabalhadores e menos 109 balcões. Pedro Leitão vendeu o Finibanco Angola, o que obrigou a reconhecer perdas avultadas e continua num impasse em torno da alienação do Banco Empresas Montepio (BEM). Ainda assim, conseguiu, em 2023, voltar a pagar dividendos à casa-mãe de seis milhões de euros. O mesmo cenário repete-se em 2024, com o pagamento de 30,6 milhões de euros. 

Pedro Leitão assumiu as rédeas do banco em janeiro de 2020, depois da instituição financeira ter apresentado um lucro de 22 milhões de euros, um aumento de 60% face ao ano anterior, impulsionado pela subida das comissões líquidas (num total de 1024 milhões de euros) e da redução dos custos operacionais (191,7 milhões de euros). Um período marcado por um aumento do número de trabalhadores ao atingir os 3.563 e também dos balcões, totalizando os 332.

No final do seu primeiro ano de mandato apresentou perdas de 80,7 milhões de euros, contrastando com os lucros de 2019, devido não só ao impacto da pandemia de covid-19 mas também resultado da constituição de imparidades para riscos de crédito (77,5 milhões de euros) e dos custos não recorrentes relacionados com o programa de ajustamento em curso (35,1 milhões de euros). A instituição financeira fechou 2020 com menos 237 trabalhadores (3.326) e uma redução de balcões (298). 

O seu segundo ano de mandato marcou o regresso aos lucros, ao apresentar um resultado líquido de 6,6 milhões de euros, apesar dos custos não recorrentes (14,7 milhões de euros) relacionados com o programa de ajustamento em curso. Os resultados ainda estavam marcados pela pandemia, o que se refletiu na atribuição de 32,9 mil moratórias, totalizando 2,7 mil milhões de euros. E, mais uma vez, o peso da sua estrutura continuou a cair: 3.121 balcões (menos 205) e 261 balcões (menos 37).

Pedro Leitão voltou a ser reconduzido no cargo para o triénio 2022-2025 e no final de 2022 apresentou lucros de 33,8 milhões de euros, um aumento de 27,2 milhões de euros face ao ano anterior com o banco Montepio a justificar esta subida com o crescimento do negócio, melhoria da eficiência operacional e redução do custo do risco. Um período que voltou a ser marcado pela redução dos custos operacionais em 3,2%, resultado do plano de ajustamento operacional que continuava em marcha. E os números falam por si: menos 78 trabalhadores (3.043) e menos 15 balcões (246).

Os resultados positivos mantém-se em 2023 com o banco a apresentar um lucro consolidado de 28,4 milhões, puxado pelo aumento de 62,3% na margem financeira (408,1 milhões de euros) e de 5,4% nas comissões (127 milhões). A estrutura da instituição financeira continuou em queda: 2.860 trabalhadores (menos 183) e 232 balcões (menos 14). 

Foi preciso esperar por 2024 para a administração liderada por Pedro Leitão apresentar um lucro líquido recorde de 109,9 milhões de euros, impulsionado pelo crescimento dos depósitos de clientes para um máximo histórico de 14.959 milhões de euros e pelo aumento do crédito a clientes de 12,3 mil milhões de euros. A margem financeira  (384,4 milhões de euros) e as comissões (127,8 milhões de euros) também contribuíram para este resultado. A instituição financeira fechou esse ano com 2.864 trabalhadores (mais quatro) e com 225 balcões (menos sete).

Apesar de manter resultados positivos, nos últimos nove meses de 2025, o banco Montepio registou uma queda dos lucros para 86,4 milhões de euros, menos 10% em relação ao período homólogo. A normalização das taxas de juro ditou este resultado, mas em contrapartida, reforçou os depósitos (atingindo um recorde de 15,252 mil milhões no 1.º trimestre). Por outro lado, as comissões bancárias subiram para 98,3 milhões de euros. Até ao final de setembro, a instituição financeira contava com 223 balcões (menos dois) e 2.882 trabalhadores. 

O seu mandato ficou ainda marcado com o impasse em torno do Banco Empresas Montepio (BEM). A venda foi anunciada em setembro de 2023 à startup Rauva por 35 milhões de euros, mas até à data o Banco de Portugal ainda não deu luz verde à operação. O BEM foi esvaziado dos ativos e dos passivos, que foram integrados no Banco Montepio, o mesmo aconteceu com os trabalhadores, no entanto, as autorizações tardam em sair. 

Ao Nascer do SOL, o economista Eugénio Rosa, que chegou a ser candidato às eleições da Mutualista, dá cartão vermelho ao trabalho levado a cabo por Pedro Leitão e dá como exemplo o facto de o Montepio entre 2020 e setembro de 2025 ter acumulado lucros no montante 187,4 milhões, enquanto o Crédito Agrícola, um banco da mesma dimensão ter acumulado 1.310,8 milhões de resultados líquidos positivos, ou seja, cerca de sete vezes mais. «E não foi porque cobrasse taxas de juro mais baixas aos seus clientes pelo crédito concedido, nem taxas mais altas aos seus depositantes – na sua maioria associados da Mutualista – a administração de Pedro Leitão aproveitou a boleia das decisões  do BCE e fez subir exponencialmente as taxas Euribor que estão indexadas taxas de crédito, nomeadamente o crédito habitação, para subir as taxas cobradas e assim aumentar exponencialmente a margem financeira sem qualquer esforço para aumentar o negócio bancário e apesar dos ventos extremamente favoráveis para banca e ao contrário do setor não conseguiu recuperar as enormes poupanças dos associados que foram delapidadas pelas administrações do banco Montepio», defende.

O economista lamenta ainda que, em 2023, tenha sido aprovada a redução do capital social em cerca de 1.210 milhões de euros. «Foi a confirmação da destruição de 1.210 milhões das poupanças dos associados, já que o capital social do banco tinha sido financiado com as poupanças do banco. Isto é extremamente grave para os associados», alerta. 

Opinião contrária tem Paulo Marcos, presidente do Sindicato Nacional dos Quadros Técnicos e Bancários (SNQTB). «Foi um bom gestor, reestruturou o banco em paz social não acho que seja um valor menor», diz ao nosso jornal.

Quem é o líder que se segue 

José Azevedo Pereira, ex-diretor-geral da Autoridade Tributária entre 2007 e 2012 e antigo CEO do Eurobic, em 2020, tendo substituído Teixeira dos Santos, é o nome que se segue para assumir a liderança do banco Montepio. O responsável abandonou o cargo, no verão de 2024, com a venda da instituição financeira ao Abanca. 

O nome ainda tem de ser aprovado pelo Banco de Portugal que envia o seu parecer para o Banco Central Europeu (BCE) para dar autorização e o acionista já admitiu que deverá ter novidades em abril, após a apresentação das contas anuais do banco Montepio e com a realização de uma assembleia geral para eleger os novos órgãos sociais da instituição financeira.

Um nome que não convence Eugénio Rosa, que considera que Azevedo Pereira tem um percurso mais longo na Direção Geral dos Impostos e Autoridade Tributaria e como professor da universidade do que de dirigente da banca. «Não há certezas de que consiga tirar o banco Montepio da situação de estagnação e de incapacidade de recuperar as poupanças que foram delapidados por uma gestão ruinosa passada, mas fica o benefício da dúvida. Apenas lamentamos que a substituição tenha sido tão tardia e que a Assembleia de Representantes da Associação Mutualista se tenha mantido passiva, em silêncio e nada tenha feito». 

Já como desafios para o próximo CEO aponta prioridades como melhorar a qualidade do serviço prestado pelo banco para manter os atuais depositantes e atrair mais e aumentar o negócio bancário.