Até há pouco falava-se em excesso de turistas, agora alguns responsáveis do setor têm falado que a atividade começa a dar sinais de retração. Em que ponto estamos?
No destino de Lisboa não há turistificação, o que há é uma ‘souvenirização’ e que para mim é mais relevante porque diz respeito à questão da qualidade. É quando vemos determinadas zonas da cidade completamente dominadas por um comércio que não é representativo da identidade e da autenticidade da cidade. A Associação de Turismo de Lisboa terá aí uma palavra forte a dizer, tanto à Câmara Municipal como ao Governo, e diz respeito a uma proposta em relação ao licenciamento zero, porque a qualificação do turismo também passa por uma gestão do destino, ou seja, o que devemos ou não oferecer a quem nos visita, mas, acima de tudo, oferecer qualidade de vida à cidade. Não vejo, para já, um risco de uma queda abrupta. Há muitas variáveis com as quais temos de estar preocupados, e o aeroporto é uma delas, por exemplo.
Surgem várias queixas em relação aos constrangimentos à chegada ao aeroporto. Não é um bom cartão de visita para quem nos visita.
Não tem sido, mas julgo que tem sido melhorado. Se a primeira experiência é estar oito horas à porta da cidade para entrar, dificilmente voltarão. Julgo que tem havido um esforço do Governo juntamente com a União Europeia para melhorar, porque se trata de uma norma europeia para melhorar o sistema de fiscalização e todas as entidades estão empenhadas em que isso aconteça. Sem dúvida que tem de ser melhorado, mas, pela experiência que tenho tido, nos últimos tempos, porque vamos muitas vezes para fora do país para participar em feiras de turismo e em outros eventos, a minha entrada e a minha saída têm sido tranquilas.
Quando assumiu o mandato à frente da Associação do Turismo de Lisboa disse que estava empenhado em avançar com o novo modelo estratégico, em termos de transformação. Essa transformação passa pela qualificação?
Passa pela qualificação do turismo mas também por uma área que tem estado cada vez mais colada ao turismo que é a cultura. De há algum tempo para cá, está na moda esta ideia de autenticidade, mas depois como se concretiza essa autenticidade? Lisboa tem verdadeiramente características únicas. É uma cidade com mais de dois mil anos, com a história que tem, com o Santo Padroeiro que é o Santo António, com uma marca inacreditável internacionalmente e com produtos culturais. Lisboa é cada vez mais procurada por festivais de cultura, por festivais literários e essa é uma força da marca que tem de ser muito bem promovida. Estamos muito empenhados em trabalhar de forma muito próxima com os parceiros públicos e privados para que possamos alavancar Lisboa como destino de cultura.
Essa autenticidade vai contra a ideia de ‘souvenirização’. Há ruas quase inteiras com esse tipo de lojas. Em relação a essas provavelmente não há nada a fazer, então a solução passa pelo tal licenciamento zero?
Não sei se não há nada a fazer, isso é algo que em termos jurídicos poderemos aprofundar e acho que pode haver soluções. Ponto número 1, o excesso que existe tem de ser de alguma forma atenuado. Ponto número dois, para a frente parece-me que é inevitável que há zonas em que esse tipo de lojas não podem abrir, assim como também é preciso ver a questão dos vendedores ambulantes. Há um excesso de vendedores ambulantes que andam pelas ruas, nomeadamente pelas zonas turísticas, e a maneira como abordam os visitantes e os próprios lisboetas que vivem na cidade não é a melhor forma. Mas aí temos dois problemas, um deles diz respeito à questão da fiscalização que tem de ser mais acentuada, o outro está relacionado com a questão de regulação do próprio setor. Essa regulação passa pelo licenciamento zero, a nossa ideia é apresentar ao poder político público, que tem responsabilidades nessa matéria, uma proposta de um licenciamento responsável, onde poderá haver um mapa em zonas onde tem que haver limitação para esse tipo de negócios e esse terá de ser o caminho, inevitavelmente. A gestão do espaço público é um cartão de visita, se vamos a qualquer cidade e temos dez lojas seguidas a vender ‘pins’ sobre essa cidade está-se a afastar a própria procura.
Vai ao encontro das restrições de circulação impostas aos tuk tuks.
Sim, mas no casos dos tuk tuks é mais fácil, porque envolve mobilidade e não há espaço na cidade para tantos circularem e aí a Câmara Municipal, através do presidente Carlos Moedas, tem dado um sinal muito interessante para a qualificação do turismo, nomeadamente com essa questão e até com os horários de venda de álcool na rua, que foi limitada até às 11 da noite durante a semana e até à meia-noite ao fim de semana. Se Lisboa pretende ter um turismo qualificado, não queremos festas até às 8 da manhã em zonas onde também vivem pessoas. Tem de haver harmonia.
Muitos lisboetas não têm essa visão.
As pessoas, muitas vezes, têm memória curta. A pandemia aconteceu há cinco, seis anos e a cidade estava vazia e, nessa altura, toda a gente queixava-se e questionavam quando é que iríamos abrir outra vez. Tem de haver um equilíbrio, é uma questão de bom senso mesmo. O turismo reabilitou zonas da cidade que estavam completamente degradadas. As pessoas também não se lembram que há 10 anos, ou se calhar um bocadinho mais, ninguém andava na Baixa a partir das 6h ou das 7h da tarde. Hoje, a Baixa é uma Baixa viva. O turismo traz vida às cidades. Por outro, tem de se fazer uma reflexão sobre o impacto que o turismo tem na vida social das pessoas, da cidade e do destino. E quando falo na vida social é o emprego que o turismo dá. Não concordo nada com a ideia de que o turismo é problema. Não, o turismo é a solução para o destino de Lisboa.
Sente que há agora uma tentativa de equilibrar a situação de quem nos visita com quem vive em Lisboa?
Admito que possa ter de haver determinadas adaptações ao volume que existiu e isso tem existido. Por exemplo, investe-se cerca de 10 milhões de euros através da taxa turística para limpar a cidade. Até aqui, estava a cargo unicamente da Câmara, depois houve uma descentralização que é feita através da taxa turística para que as juntas de freguesia possam hoje fazer uma limpeza da cidade mais eficaz. Olho para Lisboa e acho que é unânime perceber que é outra cidade, qualitativamente melhor. Sinto-me, sinceramente, muito orgulhoso daquilo que vejo na cidade de Lisboa, porque é incomparável e temos que nos equiparar, cada vez mais, com as grandes capitais.
Já consegue competir com as grandes cidades europeias?
Claramente conseguimos competir em termos de oferta cultural e oferta de produtos. Há um estudo que foi feito ao longo de 2025, os últimos dados são de novembro, e diz que um dos principais incentivos das pessoas virem a Lisboa é o seu património cultural, depois tem a gastronomia e os vinhos. O facto de estarmos numa cidade milenar, com uma história incrível, é incomparável. Quando vamos a outro local fora do país somos muito mais elogiosos em relação ao que estamos a ver em três dias do que em relação ao que é a nossa vivência na cidade. Obviamente que é a minha cidade e, como tal, tenho de ser exigente quanto ao local onde estou a viver. Tenho tentado promover Lisboa nos vários mercados de uma forma um bocadinho arrogante e presunçosa, no sentido de que as expectativas que damos às pessoas quando dizemos ‘venham a Lisboa por causa disto, disto e disto’ há uma garantia. E as expectativas são, muitas vezes, ultrapassadas. Agora, temos objetivamente desafios pela frente. Queremos uma cidade com melhor qualidade de vida e o turismo pode e deve ser uma alavanca para isso. Temos de ter, em especial na Associação de Turismo de Lisboa, uma capacidade de promoção de inovação e digital mais à frente. E o destino Lisboa é a área metropolitana e, para poder promover bem o destino, tem de ter qualidade. Por exemplo, vou promover Lisboa a São Paulo, que é uma cidade sofisticada com visitante exigente, e não posso vender o destino de Lisboa sem saber que posso corresponder à sofisticação que se pretende.
Caso contrário, a expectativa é defraudada...
Sem dúvida. Temos o início de um trabalho de quarteirões quase qualificados. Repare, temos uma nova centralidade na zona da Junqueira, que começa no MACAM [Museu de Arte Contemporânea Armando Martins] - que fez agora um ano e é muito interessante o eixo público-privado no setor do turismo, funcionando na perfeição - e que atrai dos melhores visitantes dos mercados emissores mais promissores e bem solidificados e, se continuarmos, temos o Pavilhão Julião Sarmento, que é um equipamento municipal, e, se subirmos, temos o Museu Tesouro Real, construído em parte com a taxa turística. Para o outro lado, temos o Parque das Nações e a zona de Marvila, que tem cada vez mais conteúdos. É o caso do Ah Amália, que é um produto incrível de autenticidade e de identidade da cidade, conjugando a tradição e inovação. É um museu imersivo, que conta a história da Amália, uma das maiores marcas do país, internacionalmente. Lisboa está cada vez mais sofisticada e está a criar cada vez mais polos de atração dentro e fora do concelho de Lisboa. Se for a Oeiras, tem o Palácio do Marquês de Pombal, que é incrível, qualquer americano que entra ali fica apaixonado. Temos Sintra, que é o que é, Cascais fica a 15 minutos. Vamos a Almada e temos a vista de Lisboa do Cristo Rei. Temos também de oferecer exclusividade e Lisboa está preparada para isso. Exclusividade a quem nos visita e a quem cá vive. A audácia de Lisboa é posicionar-se como um destino sofisticado e de qualidade e aquilo que também é um desafio para a ATL, até admito que possa ser uma utopia, é envolver as pessoas que vivem na cidade neste desígnio de sofisticação da capital do país. Porque Lisboa é um destino âncora. A maior porta de entrada de Portugal é Lisboa e esta porta de entrada permite que, através de Lisboa, se conheça um país inteiro. Quem chega a Lisboa vindo dos Estados Unidos, ou da Coreia do Sul, ou do Brasil, ou do México pode ficar em Lisboa e em duas horas está no Algarve. Conhece outra região do país, completamente diferente. O distância de duas horas para eles não é nada.
Com essa aposta consegue-se evitar ter os turistas todos no mesmo sítio?
Exatamente. Temos necessidade de criar conteúdos, incentivos para que as pessoas venham e que estejam em diferentes zonas da cidade e da área metropolitana. No fundo, o que precisamos é de gerir melhor os fluxos turísticos, não precisamos de ter menos turistas. Precisamos é de ter melhor turismo e melhores fluxos turísticos e para isso temos de criar conteúdos. Lisboa e a área metropolitana de Lisboa têm esses conteúdos.
Quanto ao alojamento local, tem sido usado como bode expiatório para os problemas de habitação...
Sim
Por exemplo, em Alfama, a maioria dos imóveis está destinado ao alojamento local.
Aí também houve um boom gigantesco em relação ao alojamento local. É mais um exemplo em que a fiscalização deixou um bocadinho a desejar, mas também está a ser revisto e havia cerca de nove mil licenças fantasma que foram retiradas. Em todas estas situações que temos estado a falar não podemos ir de oito a oitenta. Também houve pessoas, famílias que graças ao alojamento local conseguiram recuperar, de alguma forma, do impacto da pandemia, por exemplo. Agora, apontar o turismo como o grande responsável desse boom não é justo.
E acidentes como o que aconteceu com o elevador da Glória mancham a imagem da cidade?
Não manchou. Foi um acidente que ninguém esperava e criou algum medo nas pessoas. Na altura, a reação foi boa e imediata, no sentido em que se fecharam todos os elevadores que se podiam fechar.
Quando está a promover o destino, alguém fala ou pergunta sobre o acidente?
Nunca ninguém me perguntou.
Em relação à falta de mão-de-obra, é outro problema que continua a afetar o turismo?
Sim, em alguns setores. O setor da restauração tem dito que os recursos são escassos, mas o que vejo nos nossos associados é que há um caminho mais reforçado da qualificação dos recursos humanos e financeiramente até são mais remunerados.
Quanto ao novo aeroporto de Lisboa? O seu antecessor dizia que discutir localizações era uma espécie de entretenimento.
Andámos a discutir o tema aos anos que todos sabemos para não haver uma decisão final, agora essa decisão está tomada. Então avancem rapidamente, por favor. Qualifiquem rapidamente as obras que têm de ser feitas para que possamos continuar a oferecer Lisboa como um destino sofisticado e de qualidade.
Mas é da opinião que há risco de perder turistas por falta de capacidade?
Há esse risco, claramente, mas os números que lhe transmiti ainda não revelam isso. É algo que nos preocupa.