António Costa Silva. "O impacto do conflito na economia depende da sua intensidade e duração"

Antigo ministro diz que a economia portuguesa enfrenta um cenário crítico entre a escalada do conflito no Médio Oriente e os efeitos internos das tempestades que afetaram o país. António Costa Silva defende que é altura de investir e acena com as prioridades que definiu no PRR.
António Costa Silva. "O impacto do conflito na economia depende da sua intensidade e duração"

O que esperar da economia portuguesa? Os riscos e incertezas são cada vez maiores.

Depois de todas as incertezas que já existiam, introduzidas pelas tarifas e pelo crescente protecionismo no comércio internacional, que inevitavelmente criam maiores dificuldades, temos agora a crise que se desencadeou no Médio Oriente com o ataque dos Estados Unidos e de Israel ao Irão. Temos o grande pulmão da economia mundial, onde estão localizadas cerca de 65% das reservas mundiais de petróleo e de gás, a ser posto em causa. Todo o sistema petrolífero está a ser afetado com os ataques de lado a lado e, nesta altura, há instalações críticas na Arábia Saudita, como o terminal de Ras Tanura que foi atingido e está semi-paralisado. Foram também atingidas instalações ligadas à produção do campo de Nord Field no Qatar, que é o maior campo de gás do mundo e já paralisou a sua produção. O Nord Field abastece 20% do comércio mundial de gás natural liquefeito e sem esse componente vai ser extremamente difícil, particularmente para a Europa e para a Ásia, que são as regiões mais dependentes quer do petróleo, quer do gás que vem do Médio Oriente. Em termos da economia portuguesa, depende da intensidade e também da duração do conflito, mas se durar algum tempo é inevitável termos um novo ciclo de inflação, um aumento do custo dos preços da energia, que será a alavanca que vai proporcionar o aumento de todos os outros custos, porque a energia é completamente transversal no desenvolvimento da economia. Já vimos isso na guerra da Ucrânia, em 2022, com a crise energética que se gerou e com a explosão da inflação em Portugal que chegou a passar os 10% e com tudo o que arrastou em termos dos custos de energia, de matérias-primas e depois dos custos de produção. E, em cima disto tudo, com o encerramento do Estreito de Ormuz e a incapacidade de fluxo daquela área do mundo, temos a disrupção de cadeias logísticas e de abastecimento que são cruciais, em que elas próprias são também propulsoras da inflação. É um novo desafio. Portugal sofreu um profundíssimo choque interno com as tempestades que atingiram, sobretudo a zona centro do país e o grande setor industrial, agrícola e todas as atividades económicas naquela área e, agora, temos um profundo choque externo que pode configurar um aumento significativo, quer dos custos da energia, quer de tudo aquilo que tem a ver com as incertezas. Obviamente, a economia é profundamente atingida.

O preço do petróleo e do gás disparou. Era previsível...

Estamos a brincar com o fogo, porque esta área é realmente o pulmão da economia mundial e não podemos esquecer que o primeiro choque petrolífero de 1973 adveio do embargo que foi feito aos países ocidentais pelos países produtores do Médio Oriente e, nessa altura, os preços quadruplicaram e lançaram o mundo numa recessão que ainda durou bastante tempo e lançaram a inflação a uma escala bastante significativa que depois se propagou por toda a economia. Tivemos a mesma coisa no segundo choque petrolífero, de 1979, quando houve o triunfo da revolução islâmica no Irão. O Irão era o segundo maior produtor do mundo de petróleo, produzia mais de seis milhões de barris por dia e quando Ruhollah Khomeini chegou ao Irão em fevereiro de 1979, a produção tinha colapsado para cerca de 900, 800 mil barris. Isso lançou novamente o mundo para uma grande recessão. Evidentemente, a economia mundial e a portuguesa, hoje, são diferentes, são mais resilientes, também já foram desencadeados os processos para a eletrificação de alguns setores da economia, mas é inegável que grande parte da economia é profundamente dependente dos combustíveis fósseis que ainda são absolutamente dominantes na matriz energética mundial e vão continuar a ser. O que se pode gerar se o conflito durar mais algum tempo com o encerramento do Estreito de Ormuz é termos um choque petrolífero muito significativo. Logo a seguir ao desencadeamento das operações militares, o petróleo na segunda-feira subiu cerca de 13%, passou os 80 dólares e as perspetivas é que se o conflito continuar vamos chegar aos 100 dólares ou eventualmente ultrapassar. Não podemos esquecer que o preço do gás ainda é mais crítico, no primeiro dia em que abriram os mercados, na segunda-feira, aumentou quase 50%, na terça-feira já aumentou mais de 32%. Temos aqui uma situação extremamente difícil. Há uma espécie de remake daquilo que aconteceu com a invasão da Ucrânia, com o disparo absoluto do preço do petróleo e do gás e com as grandes dificuldades que as economias europeias tiveram em 2022. É evidente que revelaram grande resiliência para conseguirem o abastecimento, mas não há dúvida de que esta nova crise e o choque que virá associado se o conflito se prolongar não são nada benéficos para o futuro da economia portuguesa.

E já estávamos a assistir a uma desaceleração.

Nos últimos anos tínhamos vindo a recuperar. No primeiro ano em que estive no Ministério da Economia, em 2022, a economia cresceu 7%, o maior crescimento desde 1987. Nesse ano, atingimos um recorde de exportações de 50% do PIB, o que nunca tinha acontecido antes, e tínhamos o objetivo de chegar a 60% até 2030. Em 2023, houve um ligeiro recuo, em que as exportações representaram 49% e nestes últimos anos tem havido um declínio, o que me preocupa bastante. O crescimento também é menor, é cerca de 1,9% em 2024. Esta desaceleração ocorre porque exportamos sobretudo 70% dos nossos produtos, bens e serviços para a UE, que está em retração. Deve haver um cuidado muito grande sobre a diversificação das exportações, no apoio às empresas, nas linhas existentes à internacionalização e sobretudo um foco na procura de novos mercados. Isso, agora, ainda é mais significativo com as ameaças introduzidas pela administração americana, Trump entrou numa era de protecionismo: tarifa toda a gente, cria grande incerteza no comércio internacional e ao nível do investimento. Depois, temos as questões climáticas, como estamos a ver, que vieram para ficar. Temos de apostar na prevenção. O país reage, mas é sobretudo numa lógica reativa, em vez de uma lógica de prevenção. Temo que a economia vá ser significativamente afetada este ano.

Os sinais já são visíveis.

Não nos podemos esquecer que todo aquele eixo que vai de Leiria a Aveiro conta com um dos três grandes pilares da economia portuguesa que é a indústria de fabricação de componentes para o setor automóvel. Depois temos a cerâmica e a indústria de vidros. O PRR, nas agendas mobilizadoras, prevê um investimento significativo para mudarmos o perfil produtivo da economia portuguesa em setores de baixo valor e onde os salários são bastante baixos. É por isso que esta indústria dos componentes já está a produzir novos produtos, peças estruturais, materiais compósitos, sistemas de computorização.

As intempéries estão a pôr em causa essa produção.

Absolutamente. O automóvel é um setor extraordinário da economia portuguesa, é o terceiro ou quarto em termos de contribuição para as exportações. No ano passado, chegou aos 14,7 mil milhões e tem subido consecutivamente 3 a 4% ao ano e as componentes têm um peso importante. Ainda por cima, não tem hoje um carro a circular no espaço europeu que não tenha equipamentos produzidos em Portugal e não nos podemos esquecer que as economias dos países mais desenvolvidos funcionam em rede, as empresas estão integradas nas cadeias de valor internacionais e, se param, quer a jusante, quer a montante todo um conjunto de empresas vai parar também. Temos um ecossistema que está bastante organizado, mas, se interrompem estas cadeias, criam-se disrupções e isso depois repercute-se na economia nacional. Se passar seis meses sem estas empresas reporem a sua capacidade produtiva, vão ter muitos problemas para reentrar no mercado. O Estado deve investir para suprir estas falhas, porque, se perdermos estes setores, vamos ficar muito mais frágeis, não tenho dúvidas nenhumas.

O Governo tem acenado com linhas de apoio.

Já estive em debates com o ministro da Economia e pedi para não termos só linhas de crédito, porque se traduz num maior endividamento das empresas. É necessário subvenções para repor a capacidade produtiva e o país tem de fazer investimento público nesta área, não estamos habituados. O nosso investimento público tem sido muito desastroso e muito restritivo, porque limita-se a contrapartidas para receber fundos europeus e, quando surgem estes problemas ou quando há pandemias, fica aos olhos de todos as grandes fragilidades que temos, porque deixámos de fazer investimento público com fundos nacionais. Aí somos nós quem definimos as prioridades, evidentemente que os fundos europeus são importantes, modernizaram o país, obrigaram a instituição pública portuguesa a mudar, mas não podemos seguir apenas as prioridades definidas pela União Europeia.

O PTRR vai ser suficiente?

Acho que não vai ser suficiente. Basta viajar pelo país e ver as zonas devastadas, é absolutamente impressionante. Penso que a estimativa do Governo anda na ordem dos cinco, seis mil milhões de euros, acredito que seja preciso muito mais, porque temos de repor a capacidade produtiva o mais depressa possível. Temos de reconstruir tudo aquilo que foi destruído, mas não podemos entrar numa espécie de reconstrução cega porque também falhámos muito em termos do planeamento e da organização do território. Se for ver o PRR e a própria visão estratégica que tinha preparado tem um eixo muito significativo que é o da coesão territorial, onde estavam previstos investimentos significativos, por exemplo, na gestão das bacias hidrográficas para se minimizar inundações. É por isso que a APA tem feito um trabalho muito importante e significativo. Havia também investimentos para o IPMA para modernizar e para responder ao que vai acontecer, em termos meteorológicos, mas falha um terceiro componente que programa destes tem de ter. Não pode ser só a recuperação imediata, não é só fazer o que é urgente porque, às vezes, fazemos tudo o que é urgente e esquecemos o que é importante que é a prevenção. Esta prevenção estava prevista na própria visão estratégica do PRR e, por isso, propôs um Centro Nacional de Prevenção de Catástrofes e de Luta contra as Catástrofes porque quando há estas intempéries o que se passa? Chega ao território a Proteção Civil, depois as Forças Armadas que não estão coordenadas com a Proteção Civil. Evidentemente que os protocolos existem, mas depois não funcionam.

Por que não funcionam?

Não funcionam, porque não há liderança. Este Centro Nacional que propôs é para ter liderança. Toda a gente sabe quem manda. E nem estamos a fazer coisas novas. Temos coisas excelentes, quer da APA, quer das Bacias Hidrográficas, quer do IPMA, mas não temos um modelo computacional do território, que são os chamados gémeos digitais do território. Por exemplo, em França, o rio Garona já tem um gémeo digital que minimiza as inundações. O mesmo acontece em Brisbane, na Austrália. Temos um super computador em Braga, uma iniciativa do Governo anterior, que tem dados do território, dos sensores, da fotografia aérea, dos satélites, dos drones, mas estes dados depois não são incorporados para modelarmos o funcionamento do território. Já sabemos que vão existir catástrofes, mas depois como é que o território vai reagir? Quais são as zonas críticas? Onde é que vamos intervir? Se tivermos estes gémeos digitais permite não só prevenir catástrofes, mas também minimizar os efeitos. Depois, é também necessário trabalhar com a floresta e com a agricultura. No PRR havia um programa que na altura foi muito criticado, porque as pessoas não viam a sua utilidade, que é o da transformação da paisagem. A floresta é um regulador dos ciclos hidrológicos e tem a capacidade extraordinária de absorver água quando está em excesso e de enviar para o sistema quando temos escassez. Se não trabalharmos nesta área, vamos artificializar o território, construir mais barragens, mais diques, mais estruturas deste tipo que é importantíssimo fazer, mas em articulação com o sistema natural. Temos de trabalhar com a natureza e não contra a natureza. E continuamos refugiados nessa nossa convicção da espécie humana, que é muito arrogante e pensa que pode fazer tudo contra a natureza. E a natureza está a falar. Temos de ouvir a natureza.

A par das construções desorganizadas que surgiram há uns anos...

A Direção-Geral do Território diz que temos no país cerca de 27/28 mil edifícios construídos em zonas de risco, em zonas de cheias, em zonas críticas. Temos uma quantidade impressionante de edificado que confina com material combustível, só estamos à espera que existam os próximos incêndios. É esta mudança completa no paradigma que tentei acentuar nessa visão estratégica, refletida em alguns componentes do PRR, mas o país ainda não absorveu isso. É mais fácil reagir do que prevenir as catástrofes.

Corremos o risco de vir a ter um Orçamento retificativo?

A luta dos governos, não só deste, foi também dos anteriores, tem sido o controle das contas públicas, mas também não podemos exagerar e querer só excedentes. Não adianta de nada ter excedentes e depois o país andar a cair aos bocados.

Foi no Governo de António Costa com Mário Centeno que começou a dependência das contas certas.

O Governo do antigo primeiro-ministro António Costa deixou as contas certas, tinha um excedente extraordinário. Na altura, o maior da democracia e depois tinha todos os problemas que existiam no setor da saúde e da educação. Temos de ter um equilíbrio. Sempre fui favorável ao que chamo de contas controladas. A mim não me faz mossa termos um pequeno déficit, se for necessário, para o país funcionar. Porquê? Porque o país é dos cidadãos, é das pessoas e o Governo é que tem de servir o interesse público. Temos de ter um país minimamente funcional, que faça investimento público, que olhe para os setores da saúde, da educação, para o funcionamento dos serviços sociais, mas simultaneamente tenha uma economia muito mais avançada. E era esse um dos objetivos do PRR, que assentava sobretudo na mudança do perfil produtivo da economia, que está a funcionar em alguns setores. Em 2022, no primeiro ano que estive no Governo, a indústria metalo-mecânica e a fabricação de máquinas e equipamentos foi o setor mais exportador do país à frente do turismo: 23 mil milhões de euros.

E prova que a economia não deve estar assente apenas no turismo?

O turismo é um setor essencial e prestei a devida atenção. Planeámos com o Turismo de Portugal uma ação em Nova Iorque em Times Square, em que numa sexta-feira à tarde todos os ecrãs só davam imagens de Portugal. Isso teve um efeito extraordinário no mercado norte-americano, porque a ideia era atrair turistas com mais poder de compra. Os turistas norte-americanos cresceram muito, mas sempre disse, esperemos que não aconteça, é que o turismo pode ser sazonal. Isto é, se houver estabilização no Norte de África, na Turquia e em outros lados podemos ter uma diminuição dos fluxos. O que é que o país faz nessa altura? Temos de ter uma economia diversificada ao máximo e o que tentei fazer, na altura em que estava no Governo, foi abrir o país para outros setores. Escrevi na visão estratégica que Portugal tem uma posição central na Bacia Atlântica, então temos de capitalizar esta posição em termos económicos. É por isso que fizemos uma agenda para a digitalização dos portos. Se tiver portos digitalizados, mais eficientes, as exportações aumentam e depois ligar os portos através daquilo que se propôs em termos de infraestruturas, não só o aeroporto de Lisboa, mas também tudo o que era o sistema ferroviário, elétrico e a ligação a Espanha para fazer funcionar todo o interior do país. Também escrevi que Portugal podia ser uma fábrica de medicamentos da Europa, porque olhei para a capacidade da investigação clínica das nossas empresas. No último ano, as exportações dos produtos farmacêuticos passaram os cinco mil milhões de euros. A mesma coisa em relação à economia do mar.

Temos de ser mais ambiciosos?

Muito mais ambiciosos, mas isso era um dos meus trabalhos, enquanto ministro da Economia, fazer incutir confiança às pessoas, aos empresários e aos investigadores porque podemos ser tão bons como os melhores.

‘A administração pública é um elefante que foi crescendo’

É considerado o ‘pai da bazuca’, como vê os riscos de incumprimento em torno da execução do PRR?                        

Acompanho os relatórios da Comissão Independente e estão crescentemente a chamar a atenção para a deterioração das condições de execução de alguns projetos. É necessário intervir aí. Temos de completar todas as obras até ao fim de agosto e, se as obras não forem completadas, temos de devolver a totalidade do dinheiro. Um dos pilares do PRR era a habitação – era para fazermos 27 mil novas habitações – e o Governo fez alterações para conseguir cumprir. Mas estou muito preocupado com o setor da saúde,  com o da educação, com as respostas sociais com dois programas que, na altura, insisti que são fundamentais, que é a digitalização da administração pública e a Empresas 4.0 que é a digitalização das empresas. Gostava que nenhuma destas áreas falhasse, mas hoje não temos uma visão de quais são os projetos atrasados e qual é a situação crítica.

Como olha para as críticas que falam em oportunidade perdida?

Dizemos sempre que há oportunidades perdidas, mas, quando vejo exemplos do que foi feito, está longe de ser uma oportunidade perdida. Por exemplo, temos uma grande agenda para a indústria metálica-mecânica, um setor que, no ano passado, bateu um novo recorde. Na agricultura temos uma agenda para desenvolver uma nova geração de produtos para nutrir os solos e protegê-los com produtos fitofarmacêuticos. Também a nossa indústria têxtil foi confrontada com muitas dificuldades e renasceu sempre. Já está a apostar na economia circular e na inteligência artificial para saber quais serão as tendências da próxima estação. O nosso problema é a produtividade que ainda é cerca de 71% da média europeia, o que compara com 84% em Espanha e 98% em Itália. Temos de ter um choque de produtividade na economia portuguesa.

Como?

Através da disseminação das tecnologias digitais. Há um estudo da Porto Business School que diz que a disseminação da inteligência artificial e das tecnologias digitais pode ter um efeito significativo no crescimento do PIB da economia portuguesa ao gerar cerca de 90 mil milhões de euros de valor acrescentado.

O desenho do PRR foi criticado por estar nas mãos de um só responsável, quando em outros países pediram ajuda a prémios Nobel.

Isso não pode ser dirigido a mim, só executei aquilo que me pediram e falei com o maior número de pessoas possível, numa altura, de pandemia, em que o país estava fechado e tinha um prazo para apresentar o programa na Comissão Europeia. Fui escolhido, nada fiz para ser escolhido, nem sequer conhecia o primeiro-ministro. Convidou-me no dia 20 de abril de 2020 para ir almoçar e aceitei.

Perante estes riscos, Bruxelas estará disponível para prolongar o prazo?

Isso é uma luta que o Governo português tem de fazer para convencer a Comissão Europeia, que é muito irredutível. O mundo muda e muda vertiginosamente, mas a Comissão Europeia está muito fossilizada e agarrada às suas ideias. Temos de pensar de forma diferente e com a intempérie que existiu penso que pode haver haver alguma flexibilidade. Mas há uma coisa que me preocupa muito que é termos em Bruxelas uma máquina burocrática instalada. A resposta é sempre mais burocracia, quando precisamos de mais inovação.

Como avalia a sua passagem pelo Governo. Chegou a admitir que se considerava um outsider...

Quando disse que era um outsider era porque não vinha de nenhum aparelho partidário. Sempre tive apoio do primeiro-ministro, mas é evidente que, às vezes, é mais difícil para um outsider fazer as suas coisas porque não tem aquela teia de relações e foi por isso que, eventualmente, as coisas não foram tão eficazes como gostaria. Mas o mais importante de tudo foi deixar as ideias para ver se o país dá esse salto em frente. Foi um privilégio participar no Governo português, dar acesso e conhecimento do país a uma escala que não se tem de outra maneira. Continuo a dizer que é um país que tem muitas coisas boas e tem de apostar nessas coisas boas. No entanto, temos muitas coisas negativas. Somos um país e um povo que é muito impregnado por aquilo que chamo minifúndio. O minifúndio está inscrito na alma portuguesa, somos muito negativistas e como dizia a filósofa alemã Hannah Arendt, os países que mais organizações conseguem são os que têm uma mente coletiva forte. E mente coletiva forte significa a capacidade de agir em comum. É isso falta muito em Portugal, não temos essa capacidade de agir em comum.                                 

Por não estar ligado ao movimento partidário poderá ter sido uma lufada de ar fresco?

Isso tem as suas vantagens e, às vezes, os seus inconvenientes. Tentei fazer o melhor possível e sou pessoa que não fica a olhar para trás. O que está feito, está feito e espero que o país encontre o seu caminho.

Daí ter escrito o livro ‘Governar no Século XXI’ para dizer o que está mal e o que precisa de ser corrigido...

Sim, para contar aos cidadãos o que é governar no século XXI, para dar conta das minhas experiências. Temos de ter, sobretudo, a reorganização da administração pública portuguesa e a reorganização estratégica do Estado português. Sou daquelas pessoas que defendem que temos de ter Estado e a pandemia mostrou que se tivéssemos um Estado mínimo, se tivéssemos privatizado a Caixa Geral de Depósitos, se tivéssemos privatizado os serviços de saúde teria sido um desastre. O país conseguiu responder porque tinha os seus serviços e o Estado minimamente funcional. Agora, o que existe tem tem de ser muito melhorado, tem de ser muito mais ágil, tem de responder de uma forma muito mais eficaz e tem de ter, sobretudo, liderança, coordenação, organização e uma parte que falha muito que é o planeamento. Temos de saber planear e nós não planeamos como de vê pelas catástrofes. Estamos a falar agora das inundações e das tempestades. No verão falamos dos incêndios, mas amanhã podemos ter outros fenómenos, por exemplo, sísmicos. Temos de estar preparados, se ficamos só à espera que as catástrofes não aconteçam vamos bater com a cabeça na parede.

 

Este Governo tem um ministro da Reforma do Estado. Essas alterações ainda são pouco visíveis?

Estava à espera de mais intensidade nessa área, que é uma das mais cruciais. Sempre trabalhei no setor privado, temos excelentes organismos e excelentes quadros na administração pública, mas a administração pública portuguesa é um elefante que foi crescendo e, ao fim do dia, ninguém toma conta de elefante. Tem organismos públicos, em que as funções estão mal definidas, coincidem uns com os outros e tem na orgânica dos governos uma figura que me deixava doente que é o das tutelas partilhadas. Por exemplo, era ministro da Economia do Mar e no mar há 18 organismos da administração pública portuguesa que intervêm e dependem de seis ministérios diferentes. Tudo o que se quer fazer tem de se negociar e, às vezes, as pessoas também não executam porque o enquadramento institucional é muito pesado. Mesmo assim, a economia do mar hoje já representa 5% do PIB, mas podia avançar muito mais. E por a administração pública portuguesa estar sob grande escrutínio há, muitas vezes, receio de decidir, medo de agir e depois as coisas ficam paralisadas e os relatórios nas gavetas.

 

Criticar a administração pública não é muito popular para os políticos...

A mim não me interessa ser popular ou ser impopular. Participei num Governo do PS, mas sou completamente independente, penso pela minha cabeça e o que quero é que o país funcione. O país tem áreas de excelência e há empresários absolutamente extraordinários mas muitas vezes temos esta visão que no país é tudo mau, somos os piores do mundo, somos uns coitadinhos. Eduardo Lourenço dizia que os portugueses têm um problema de auto imagem, ou somos os piores ou somos os melhores. Não somos nem os melhores, nem os piores, mas temos muitas coisas boas que o país faz e que têm de ser articuladas para darmos um salto para o futuro.

‘Trump quer destruir o projeto europeu’ 

Disse recentemente que se nada for feito para travar Donald Trump iremos ter a lei da selva instalada...

Quando disse isso estava a falar sobretudo sobre o desmantelamento que está a fazer das instituições internacionais. Está a desprezar completamente as Nações Unidas. Aliás, agora já criou um Conselho da Paz que tem os ditadores e mais alguns do mundo e diz que o Conselho é que vai supervisionar as Nações Unidas. Está a desarticular tudo o que existia. Está a minar as alianças internacionais. E está a aderir, como está muito patente na Estratégia de Segurança dos Estados Unidos, documento que saiu em dezembro, a um mundo a que chama de grandes potências que são os EUA, a Rússia e a China e são estas potências que governam o mundo com base em esferas de influência. Passámos anos e anos depois da 2.ª Guerra Mundial para ter um sistema mais ou menos estável de instituições internacionais e se isto desaba significa regressarmos ao estado que Thomas Hobbes relata no seu livro Leviathan que é a guerra de todos contra todos. É a lei do mais forte e o desprezo completo pela União Europeia e sobretudo pelo projeto europeu. Aliás, toda a administração faz ataques contínuos à União Europeia, apoia todos os partidos de extrema-direita na União Europeia. Trump quer realmente destruir o projeto europeu e o que me deixa mais preocupado é os efeitos que tem no funcionamento da economia mundial. As tarifas e o protecionismo vão afetar significativamente o comércio internacional e nós somos um país que tem um setor exportador que é muito significativo e depois a incerteza que introduz. As políticas erráticas de Trump estão a levar os investidores vezes a serem muito mais cautelosos, daí o ouro e a prata, que são metais do refúgio a terem valorizações absolutamente astronómicas. E qual é o futuro para a economia mundial? Mais incerteza significa mais preocupação. E depois é tudo aquilo que se passa dentro dos Estados Unidos. O ataque que faz às universidades que as vê como inimigas e ao Supremo Tribunal com um presidente a chamar de canalhas e de trafulhas aos juízes. Isto é impensável. Além do ataque à Reserva Federal. A independência da Reserva Federal é crucial para os mercados financeiros.

 

Estamos perante uma nova reorganização mundial?

Isto é uma reorganização mundial, mas Trump é apenas o emblema maior deste movimento de extrema-direita nos Estados Unidos que tomou conta da Casa Branca. Não podemos esquecer o projeto 2025 feito pela Heritage Foundation, cujo um dos princípios é desmantelar completamente a administração americana. É substituir milhares e milhares de funcionários, a que chamam de elite administrativa, por pessoas do movimento. A ideia é o presidente ter os maiores poderes possíveis e para isso tem de usurpar os poderes do Congresso. Temos aqui uma subversão com consequências podem ser dramáticas para a América e para o mundo porque só favorece os ditadores em toda a parte. Nesta altura, quer Putin, quer Xi Jinping devem abrir garrafas de champanhe face tudo o que se está a passar nos Estados Unidos e no mundo.

 

‘Angola é uma dor de alma’

 

Escreveu um livro sobre Angola, país onde viveu até à idade adulta. Olhando para trás o que acha que falhou?

A Angola, para mim, é uma dor de alma, porque é o país onde nasci e onde estou umbilicalmente ligado. Pertenci ao movimento associativo da Universidade de Luanda, antes do 25 de abril, que tomou posição contra o regime colonial português e lutou pela independência de Angola. O nosso grupo apoiou o MPLA e hoje, 50 anos depois, o povo angolano que foi duramente oprimido pelo regime colonial português não viu a sua vida melhorar nestes 50 anos de independência. Angola tem níveis de pobreza, honestamente, impressionantes. Investe pouco na educação, investe pouco em saúde, tem doenças que estão a regressar, como a cólera e outras. É um país que é flagelado por múltiplas coisas, mas isto tem a ver com a questão da governação. Muitas vezes, os movimentos de libertação conseguem os seus objetivos, alcançando a independência com a ideia de serem construtores do futuro, deixando os campos de batalha, mas depois a governação do país é todo um caminho. Angola é um dos países mais corruptos do mundo, os níveis de corrupção são elevadíssimos, e o presidente João Lourenço, em 2017, quando tomou posse disse que a luta contra a corrupção ia ser um dos seus desígnios, avançou alguma coisa, mas muito pouco. A corrupção é o pior que pode existir num país, porque desarticula completamente o mercado e mima a confiança dos cidadãos. Em setembro, fui a Angola, percorri o país, cerca de 4.500 quilómetros, visitei  muitas províncias, inclusive o sítio onde nasci e tinha uma grande dor de alma quando via, por exemplo, crianças na estrada com os seus banquinhos na cabeça a andarem 18, 20 quilómetros por dia para irem e voltarem da escola. E levam o banco à cabeça porque a escola nem sequer tem bancos. Pergunta-se: ‘Que país é que estamos a construir? Não é possível fazer melhor?’ É, com certeza, possível fazer melhor.

                           

sonia.pinto@nascerdosol.pt