As ficções de cada época afloram, produzem os seus delírios exuberantes e, num nível mais secreto, as consequências dolosas, dolorosas, e quando se dissipam fica ao cuidado da História juntar os cacos e produzir um juízo clínico, quase sempre terrivelmente severo para os que julgavam poder premeditá-la. Uma figura como Alan Greenspan assume particular relevo numa época na qual carrascos e vítimas aceitaram a sua tarefa, primeiro com um excesso de confiança e, depois, com um fatalismo de quem se submete aos caprichos do deus-mercado, uns condenando enquanto declaravam a sua impotência, outros vendo-se esmagados e aturdidos por uma tragédia incompreensível que só lhes parecia deixar margem à resignação.
Greenspan liderou a Reserva Federal, o todo-poderoso banco central norte-americano, entre 1987 e 2006, sob quatro presidentes: Reagan, Clinton e os dois Bush. Gozou de uma celebridade sem precedentes para um economista, sendo tomado como um ‘oráculo’ capaz de pôr ordem nos humores dos mercados financeiros, navegando por cima de várias bolhas especulativas com um estilo marcado por declarações públicas elípticas, quase enigmáticas: o público simplesmente acolhia os seus pronunciamentos como ‘profecias’, admitindo que essa forma de comunicação («se acha que percebeu o que eu disse, provavelmente expliquei-me mal») escondia uma enorme sabedoria. Quando tudo parecia correr segundo o previsto, apelidaram-no de ‘Maestro’, com uma reverência que hoje soa a ironia involuntária. Durante anos, a economia mundial pareceu responder a esse gesto mínimo, quase invisível, de quem move taxas de juro como se ajustasse o volume de um sistema nervoso global. Mas a precisão era outra coisa: uma coreografia de risco adiado, uma política de amortecimento permanente que transformava cada crise numa promessa de próxima crise mais funda.
O percurso de Greenspan, que morreu na segunda-feira, aos 100 anos, na sequência de complicações da doença de Parkinson, permite-nos reconhecer nele uma longa sedimentação de equívocos técnicos convertidos em destino histórico, como se a economia mundial tivesse sido durante décadas submetida a uma espécie de hipnose estatística em que os próprios instrumentos de medição passaram a desempenhar o papel de realidade substitutiva. Ele não foi tão-só um banqueiro central, nem um simples ideólogo da desregulação, mas alguém que demonstra a lógica da produção dos mitos contemporâneos, sempre que certas figuras acompanham essa ficção em que a linguagem, a expectativa e o comportamento dos mercados se fundem num circuito auto-referencial que dispensa verificação exterior.
Foi a era do ‘Greenspan put’, essa superstição racionalizada de que o Estado existia sobretudo para garantir a continuidade da euforia privada. Intervinha-se para salvar a música, sem nunca se questionar a partitura. E nas alturas em que a música acelerava até ao delírio, chamava-se-lhe produtividade, ao passo que, se esta desacelerava, falava-se num choque externo.
A sua formação intelectual estava longe de ser neutra e, na juventude, tinha sido um seguidor de Ayn Rand, uma emigrante russa que fundou e liderou um culto do individualismo extremo e da hostilidade ao Estado, o qual passava pela moralização do egoísmo económico como virtude estrutural. Dessa filiação ficou não apenas uma visão do mundo, mas a suspeita de que o Estado apenas participava como um intruso, orientando a sua visão económica por um abate da disciplina regulatória. Nesta arquitetura, o Estado surge como ruído, como interferência, aquilo que introduz fricção num sistema que se imagina auto-equilibrado.
O certo é que até ao colapso financeiro de 2008, numa altura de euforia em que muitas das grandes instituições impingiam ativos tóxicos até contaminarem todo o sistema, Greenspan gozou a reputação de uma espécie de ídolo do establishment. Isto num período em que eram os Nobel da Economia como Bob Lucas a afirmar que o problema central da economia estava resolvido. Assim, na sua última aparição enquanto presidente da FED, em Jackson Hole, o conclave onde os banqueiros centrais se reúnem todos os verões, Mervyn King, governador do Banco de Inglaterra, lamentou que a sua saída «nos prive de uma fonte de sabedoria, inspiração e liderança». Alan Blinder, de Princeton, apontou-o como «o melhor banqueiro central da história». A revista Time colocou Greenspan, Larry Summers e Bob Rubin – dois altos responsáveis da administração Clinton que entretanto perderam fulgor – na capa sob o título «Comité para Salvar o Mundo». Recebeu a Legião de Honra; Isabel II nomeou-o cavaleiro na sua propriedade de Balmoral: «É um dia muito invulgar para um economista», reconheceu.
Enquanto a fantasia de auto-equilíbrio faz da confiança na eficiência dos mercados uma religião global, o próprio Estado abre mão de qualquer supervisão, e durante os anos 90 e início dos anos 2000, as sucessivas crises – México, Ásia, Rússia, LTCM, 11 de Setembro – não quebram o modelo, mas reforçam-no, porque cada intervenção bem-sucedida alimenta a expectativa de que a próxima intervenção será igualmente possível, igualmente rápida e eficaz. É neste contexto que a frase «exuberância irracional» com que Greenspan reage em 1996, a propósito do entusiasmo nas bolsas com as empresas ligadas à internet, surge como um diagnóstico ambíguo que não interrompe o processo que descreve, antes o incorpora, como se a crítica fosse apenas mais uma camada de legitimação do próprio excesso. O crescimento dos ativos, a expansão do crédito e a sofisticação dos instrumentos derivados não constituem desvios, mas o próprio modo de funcionamento de um sistema que já não distingue expansão de distorção. E, quando essa distinção desaparece, desaparece também a possibilidade de contenção.
Assim, o colapso de 2008 não introduz propriamente uma rutura conceptual, apenas torna visível aquilo que já funcionava como pressuposto oculto: a transformação do risco em matéria difusa, distribuída através de cadeias de titularização tão complexas que a responsabilidade deixa de ser localizável. E, no entanto, a realidade acusou a derrocada. No outono de 2008, a falência do Lehman Brothers desencadeia a Grande Recessão. E quando os governantes deitavam as mãos à cabeça, naquele que ficou conhecido como o trimestre diabólico, com centenas de bancos a colapsar, a economia mundial a escorrer pelo ralo e os governos a serem instados a resgatar o sistema financeiro fosse qual fosse o custo, Greenspan compareceu perante o Congresso dos EUA, e subitamente, nessa manhã de 23 de Outubro de 2008, quando Capitol Hill chamou a si o tal ‘oráculo’, deparou-se com um velhote despido de toda a sua imponência. Uma fraca figura, um ser macilento, apagado como qualquer burocrata, incapaz de manter a ficção de que poderia ser o centro de gravidade do sistema que ajudou a construir, e, nesse momento, já sem aquela superioridade de um supremo sacerdote, teve pelo menos a decência de ser claro ao reconhecer que se enganara. «Cometi um erro. Encontrei uma falha no modelo que julgava explicar o mundo», admitiu. Um dos congressistas, o democrata Henry Waxman, pressionou-o, recordando-lhe as suas declarações enfáticas sobre as virtudes das expectativas racionais, da eficiências dos mercados, da sua fé na sua auto-regulação, bem como os seus elogios às inovações financeiras («os derivados de crédito», principais responsáveis pela crise, segundo ele, «contribuem para a estabilidade do sistema bancário e permitem ao sistema financeiro medir e gerir eficazmente os seus riscos de crédito»; «os mercados livres são um sistema para organizar a economia que não conhece rival»). Mas naquele dia, toda a empáfia de décadas nem no seu estertor permitiu ao ‘Maestro’ erguer a batuta. Limitou-se a reconhecer que atuara como um falso ídolo:«Sim, encontrei um defeito na minha ideologia», murmurou. «Cometi um erro», repetiu. A sua ideologia não funcionava? perguntaram-lhe. «Exato», respondeu Greenspan, «por isso estou em choque. Porque vivi durante mais de 40 anos com provas de que funcionava de forma excecional».
Aquele que deveria ter sido o momento de um inequívoco choque ideológico, e que, retrospetivamente, permitia reconhecer uma vaga de imoralidade confessada, apenas sustentou durante alguns anos um reforço dos mecanismos de regulação no sistema financeiro, mas logo a pressão da ganância engendrou as guerras culturais e retomou os bodes expiatórios de sempre para distrair os eleitores, levando ao poder os movimentos de extrema-direita, financiados pelos agentes económicos interessados em repor as lógicas de desregulação. Assim, o legado de Greenspan é menos uma história encerrada do que uma continuidade difusa, uma espécie de infraestrutura mental que sobrevive ao seu próprio desmentido empírico.