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A corrida à privatização parcial da TAP entrou esta quinta-feira numa fase decisiva, com o fim do prazo para a entrega de propostas não vinculativas e a confirmação dos principais interessados – ainda com incerteza sobre um dos candidatos.
O grupo franco-neerlandês Air France-KLM foi o primeiro a formalizar uma proposta, anunciando, na manhã desta quinta-feira, a entrega de uma oferta para a aquisição de uma participação minoritária na companhia aérea portuguesa.
Em comunicado, o presidente executivo, Benjamin Smith, sublinhou a ambição de reforçar a presença da empresa em Portugal: “A ambição é fortalecer as operações em Lisboa” e desenvolver a conectividade noutras cidades, como o Porto.
A empresa garante ainda que pretende preservar o papel estratégico da TAP, defendendo que Lisboa poderá tornar-se o seu principal hub no sul da Europa, com forte ligação às Américas e África.
O grupo, que é detido em 28% pelo Estado francês e 9,1% pelo holandês, destaca a “vasta experiência a trabalhar com acionistas estatais”. “Acreditamos que esta experiência de parceria é um testemunho da importância estratégica da aviação para uma nação”, acrescenta.
Além da Air France-KLM, o Governo português conta com o interesse de mais dois grandes grupos europeus: a alemã Lufthansa e o International Airlines Group (IAG), dono da Iberia e da British Airways.
A Lufthansa confirmou que iria avançar com uma proposta dentro do prazo, garantiu que não abandonaria o processo e cumpriu. “Confirmamos que submetemos uma proposta não vinculativa pela TAP Air Portugal”, disse fonte oficial do grupo alemão à Lusa.
O grupo alemão sempre defendeu ter condições para desenvolver a TAP mesmo com uma participação minoritária, alinhando-se com o modelo definido pelo Governo.
Já a posição da IAG permanece incerta até ao fecho do prazo. Apesar de ter sido um dos três grupos selecionados, persistem dúvidas sobre se avançará com proposta, uma vez que a aquisição de uma posição minoritária poderá não encaixar na sua estratégia. E surgiram rumores de que a proposta poderá mesmo não acontecer.
O Executivo português tem indicado que espera receber três propostas nesta fase do processo, que prevê a venda de até 44,9% do capital da TAP, mantendo o controlo estatal.
Ainda assim, até às últimas horas do prazo, apenas a Air France-KLM e a Lufthansa tinham confirmado publicamente a sua intenção de avançar, mantendo-se a participação da IAG como a principal incógnita do dia.
A partir daqui as propostas não vinculativas serão avaliadas pela Parpública, seguindo-se uma nova fase com ofertas vinculativas.
Tal como o Nascer do SOL já avançou, o conflito internacional poderá comprometer o processo.
Ao nosso jornal, Ricardo Penarroias, presidente do Sindicato Nacional do Pessoal de Voo da Aviação Civil (SNPVAC), admite que a atual conjuntura internacional poderá condicionar as propostas, nomeadamente a do grupo IAG, já que a Qatar Airways é o seu principal acionista. “A atual situação internacional pode ter dado um certo arrefecimento em termos de interesse, até porque não sabemos quanto tempo vai durar este conflito e que impacto terá no futuro”.
O dirigente sindical adianta que a atual conjuntura internacional, marcada por incerteza, poderá influenciar o processo, explicando que os valores apresentados poderão refletir reservas quanto ao futuro, nomeadamente devido à evolução dos preços dos combustíveis, à situação no Médio Oriente e à inflação. Nesse sentido, admite “algum receio” de que estes fatores possam ter impacto no valor das propostas, lembrando que, em contextos de inflação elevada, a aviação não é considerada um bem de primeira necessidade, apesar de desempenhar um papel essencial no transporte de bens.
Já Pedro Castro, especialista em aviação, adiantou ao Nascer do SOL que os três grupos tiveram estes três meses para aceder aos dados da empresa, colocar perguntas, organizar cenários de investimento realistas, otimistas e pessimistas, e avaliar se esta consolidação arriscada é algo que acrescenta verdadeiramente aos seus grupos e se é algo que os acionistas e os mercados vão aprovar. “Perante o caderno de encargos e o pior modelo de privatização escolhido por este Governo, estou convencido de que os três grupos irão considerar o cenário pessimista como o mais provável e isso vai refletir-se diretamente no tipo de propostas que vão apresentar… incluindo a própria possibilidade de não ser submetida qualquer proposta”, antevia. Mas deixava o alerta: “Obviamente, a situação atual de incerteza mundial exige maior cautela e prudência por parte das companhias. Mas, no meu entender, não é essa a questão central nesta privatização”.