terça-feira, 16 jun. 2026

AIE corta previsão da procura mundial de petróleo

A Agência Internacional de Energia reviu em baixa a procura mundial de petróleo para 104 milhões de barris por dia, alertando para o impacto económico da guerra e do encerramento do estreito de Ormuz. Produção, reservas e refinação também registam fortes quebras

A Agência Internacional de Energia (AIE) reviu em baixa a previsão da procura mundial de petróleo para este ano, estimando agora um consumo global de 104 milhões de barris por dia, menos 1,3 milhões face às previsões anteriores, devido ao impacto económico da guerra no Médio Oriente e ao encerramento do estreito de Ormuz.

No relatório mensal divulgado esta quarta-feira, a agência alerta para um agravamento das perturbações no mercado petrolífero mundial, prevendo que a maior quebra da procura aconteça no segundo trimestre deste ano.

Segundo a AIE, o consumo deverá cair cerca de 2,45 milhões de barris diários nesse período, refletindo a desaceleração económica global, os elevados custos energéticos e as limitações no transporte marítimo.

Os países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) deverão representar cerca de 930 mil barris diários dessa redução, enquanto as economias fora do bloco contribuirão com uma quebra estimada de 1,5 milhões de barris por dia.

A agência destaca que os setores petroquímico e da aviação estão entre os mais afetados pela crise, embora o impacto se esteja a alargar ao conjunto do consumo de combustíveis devido às medidas de poupança energética e ao abrandamento da atividade económica.

Do lado da oferta, a produção mundial de petróleo voltou a cair em abril, recuando 1,8 milhões de barris por dia para 95,1 milhões. Desde fevereiro, a redução acumulada já atinge 12,8 milhões de barris diários.

Os países do Golfo afetados pelo encerramento do estreito de Ormuz registaram uma quebra de 14,4 milhões de barris por dia face aos níveis anteriores ao conflito, embora parte dessa perda esteja a ser compensada pelo aumento da produção na bacia atlântica.

A AIE antecipa que, caso o tráfego marítimo através do estreito de Ormuz comece a normalizar gradualmente a partir de junho, a oferta mundial média em 2026 poderá atingir cerca de 102,2 milhões de barris por dia. Ainda assim, este valor ficará 3,9 milhões abaixo dos níveis registados antes da guerra.

A indústria de refinação enfrenta igualmente fortes pressões. A agência prevê que o processamento mundial de petróleo recue 4,5 milhões de barris diários no segundo trimestre de 2026, para 78,7 milhões, devido a danos em infraestruturas, restrições às exportações e escassez de matérias-primas.

No conjunto do ano, a redução estimada da atividade das refinarias deverá atingir 1,6 milhões de barris por dia.

Apesar da quebra da atividade, as margens das refinarias continuam em níveis historicamente elevados, impulsionadas sobretudo pelos elevados lucros obtidos com produtos destilados médios.

Perante a crise, o setor tem procurado adaptar-se através da criação de novas rotas comerciais para substituir as exportações de produtos refinados oriundos do Golfo.

O relatório revela ainda uma forte redução das reservas mundiais de petróleo. Os dados preliminares indicam que os ‘stocks’ globais diminuíram em 129 milhões de barris em março e em mais 117 milhões em abril.

As perturbações no estreito de Ormuz provocaram uma queda de 170 milhões de barris nas reservas terrestres, enquanto o armazenamento de petróleo em navios aumentou em 53 milhões de barris.

A agência admite que a procura mundial poderá recuperar parcialmente no final do ano caso seja alcançado um acordo para terminar a guerra e permitir a retoma gradual da circulação marítima no estreito de Ormuz a partir do terceiro trimestre de 2026.

Ainda assim, a recuperação da oferta deverá ser mais lenta, mantendo o mercado petrolífero em défice até ao último trimestre do ano.

Nos mercados internacionais, a volatilidade intensificou-se significativamente. Segundo a AIE, o petróleo North Sea Dated registou em abril oscilações próximas dos 50 dólares por barril, enquanto o preço médio mensal subiu cerca de 16,5 dólares, para 120,36 dólares por barril.

Já os diferenciais temporais dos contratos futuros de Brent e West Texas Intermediate (WTI) encerraram abril em torno dos cinco dólares por barril, enquanto o prémio do North Sea Dated face ao ICE Brent caiu de 35 dólares em meados de abril para apenas três dólares no início de maio.