sexta-feira, 15 mai. 2026

A saída dos Emirados da OPEP é o ‘Brexit’ do petróleo

Nuno Ribeiro da Silva analisa a rutura estratégica dos EAU com a OPEP e os desafios da autonomia energética europeia e o alerta para o "folclore" radical nas metas da transição energética — lembrando que "há a física, estúpido!"
A saída dos Emirados da OPEP é o ‘Brexit’ do petróleo

“Os Emirados Árabes Unidos representam uma espécie de ‘Brexit’ dentro da OPEP”, disse ao SOL Nuno Ribeiro da Silva, antigo secretário de Estado da Energia, que presidiu à Partex e à Endesa Portugal. Economista e gestor com longa experiência no setor energético e petrolífero, falou-nos sobre a dimensão global da crise energética. Começamos pelas notícias mais recentes — a saída dos Emirados da OPEP — e as possíveis repercussões nos preços do Brent, que, para Ribeiro da Silva, não serão significativas.

“Ao contrário de outros países que abandonaram a organização — como o México ou a Indonésia — e que deixaram de ter relevância como exportadores, os Emirados mantêm uma posição de forte exportador líquido, com uma produção acima dos quatro milhões de barris por dia e um consumo interno significativamente inferior, menos de um milhão”, explicou. E acrescentou: “Já existiam várias divergências entre os Emirados e a OPEP, sobretudo devido às quotas de produção, vistas como limitadoras da capacidade de exportação de Abu Dhabi. Num país fortemente dependente da receita petrolífera, esta ‘monodependência’ tornava essas restrições mais sensíveis.”

“A saída surge, neste contexto, como uma oportunidade estratégica — a cereja no topo do bolo — permitindo libertarem-se das quotas e aumentarem a margem de exportação, com capacidade para colocar no mercado cerca de 1,8 milhões de barris adicionais por dia através de pipelines que contornam o Estreito de Ormuz. Este acesso alternativo reduz a vulnerabilidade ao risco geopolítico e reforça a autonomia comercial”, explicou. E prosseguiu: “Aquilo que poderia ser visto como uma crise interna transforma-se numa oportunidade: os Emirados ganham flexibilidade e competitividade. O petróleo torna-se mais valorizado pela menor exposição ao risco e pela maior segurança logística.” Ainda assim, ressalva: “No plano global, o impacto é limitado, mas contribui para reconfigurar o equilíbrio interno da OPEP e do mercado do Brent, introduzindo alguma incerteza.”

A União Europeia tem vindo a tomar medidas — nem sempre alinhadas entre Estados-membros — para responder à crise energética, agravada pelo conflito no Médio Oriente e pelo fecho do Estreito de Ormuz. Ainda assim, Ribeiro da Silva considera que Bruxelas dispõe já de um quadro legislativo robusto, nomeadamente através do RePowerEU e dos planos climáticos nacionais. O problema, diz, é a incerteza: “O contexto é altamente volátil, marcado por fatores geopolíticos erráticos, o que torna inevitáveis medidas temporárias de emergência.”

O especialista sublinha que a Europa continua longe da soberania energética, apesar dos avanços na diversificação de fontes, interligações e reservas estratégicas. Durante décadas, argumenta, privilegiou-se o custo e o ambiente, negligenciando a segurança do abastecimento — um dos três pilares essenciais, a par da sustentabilidade ambiental e da acessibilidade económica.

Desde a guerra na Ucrânia houve progressos — terminais de gás natural liquefeito, mais renováveis, maior eficiência e armazenamento —, mas a transição energética continua a ser lenta e estrutural. “Há leituras muito clubistas — e não me tomo por iluminado — mas, nesta matéria, ‘há a física, estúpido!’”, afirma. “À esquerda, acha-se que as renováveis resolvem tudo num ápice. Mas quando dizemos que Portugal produz 80% da energia, estamos a falar de 80% de 25% do consumo. Estamos no bom caminho, mas vai demorar muito tempo a eletrificar os usos finais. E não é só mudar a fonte — é mudar os equipamentos.” E conclui: “Dizer que se acaba com o petróleo de um dia para o outro era pôr a economia à bofetada.”

Sobre o nuclear, é claro: admite-o onde já existe, mas rejeita novos projetos. “Nenhuma empresa no mundo ocidental se mete nisso. Os prazos derrapam, os custos triplicam ou quadruplicam. Só avança onde o Estado assume o risco.” E explica: “Projetos anunciados para três ou quatro anos passam facilmente para dez ou doze, e os custos disparam. A EDF, em França, faz porque é pública. No mercado livre, ninguém corre esse risco.”

Quanto ao mercado petrolífero, rejeita comparações com a crise dos anos 70. “O mundo hoje é mais diversificado e menos dependente da OPEP.” E critica previsões catastrofistas: “Fui confrontado com declarações de que o barril podia chegar aos 200 dólares — isso é descabido. Tal como comparar a situação atual com a crise dos anos 70.”

Sobre o impacto nos Estados Unidos, deixa um aviso: “Há um patamar psicológico que mata qualquer presidente — quando a gasolina passa os 3 dólares por galão. Hoje está acima disso, e cada painel numa bomba de gasolina é o Trump a perder votos.”

Já em Portugal, considera que o Governo tem atuado com prudência. “Não está a aproveitar-se da crise via IVA e compensa pelo ISP. Não faz sentido alterar estruturalmente impostos no meio desta trapalhada — sabemos como começa, não sabemos como acaba, e há regras europeias.” Ainda assim, defende maior focalização: “Os apoios deviam ser mais dirigidos a quem precisa e menos generalizados.”

Conclui que o apagão recente na Península Ibérica não revela fragilidades estruturais do sistema energético atribuindo-o a falhas operacionais pontuais, e reforça a ideia de que o sistema ibérico tem funcionado de forma globalmente estável ao longo dos últimos 25 anos.

Um ano após o apagão

Em 28 de abril de 2025 60 milhões de pessoas na Península Ibérica e sul de França ficaram sem eletricidade durante horas. Relatórios da ENTSO-E concluem que falhas em cascata, iniciadas em Espanha por oscilações de tensão e desconexões de produção renovável, propagaram-se em menos de 90 segundos a Portugal, num incidente classificado como o mais grave em 20 anos. Embora o restabelecimento tenha sido eficaz – concluído em Portugal até à 00h22 –, persistem perguntas sobre responsabilidades e custos totais, ainda sem estimativa oficial.

O PS criticou duramente esta semana o Governo pela falta de implementação de medidas um ano após o apagão, e dizem que das 31 medidas anunciadas com “grande estrondo”, nenhuma foi implementada, e que os grandes investimentos na REN já estavam planeados antes, ou seja, por governos socialistas. "Não foram medidas novas, foi a aceleração de um calendário que já existia e nenhuma das medidas está implementada”, disse o porta-voz do novo Secretariado Nacional dos socialistas, André Moz Caldas.

A ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, defendeu que o Governo aplicou 90% das recomendações do relatório técnico sobre o apagão e que Portugal não tem responsabilidades no incidente.

Em reação às críticas dos socialistas, a ministra contrapôs que as medidas não seguem calendários rígidos, mas decisões baseadas em análise, e que o sistema está preparado para cenários complexos. Um debate que deverá consumir energia política nos próximos dias.