sexta-feira, 08 mai. 2026

Vicente Lucas. Uma lenda não morre

O último sopro de vida aconteceu ao início da noite de terça-feira, 14. Vicente, a última lenda do Belenenses, tinha deixado de querer alimentar-se e só um fio ténue de soro o mantinha ligado à vida. Tinha 90 anos e para sempre será recordado como o único defesa que “secava” Pelé.
Vicente Lucas. Uma lenda não morre

Vicente Lucas: o homem que eclipsou Pelé». Era esta a frase escrita numa enorme tarja, exibida pela claque Fúria Azul, em dia de homenagem a Vicente Lucas. Uma cerimónia feita em vida, no dia 20 de abril de 2025. Nesse domingo de Páscoa, o Belenenses enfrentou o Sporting B, para a Liga 3, em casa. Vicente emocionou-se com a homenagem e torceu pelo seu Belém até ao fim do jogo, no camarote dos veteranos. Saiu aborrecido pela derrota.

Com Vicente estava outro veterano, Afonso, e Maria José Morais Cascalho, filha de um antigo dirigente do clube, ambos seus cuidadores nos últimos anos de vida. Um cachorro acabadinho de fazer estava em cima do colo de Vicente mas ele, renitente, recusava-se a comer.

Foi também o dia em que deu aquela que, sabemos hoje, seria a sua última entrevista. Por isso, não posso deixar de me comover ao escrever este obituário. A jornalista que lá estava era eu.

Com paciência, a pedido da Maria José, parti o cachorro ao meio e consegui convencer o Vicente a comer. Uma pequena vitória pessoal que jamais esquecerei, eu que sou adepta do Belenenses e com uma estima especial pelo Vicente. Afinal de contas, estava ali à minha frente o mito vivo do clube. O irmão do eterno ponta-de-lança Matateu que, diz quem o viu jogar, seria «melhor do que o Eusébio». Claro que também lhe perguntei pela relação com o irmão, há muito falecido. Vieram-lhe as lágrimas aos olhos e pediu-me para não falarmos sobre Matateu.

Nessa entrevista, Vicente desarmou-me pela sua humildade e carinho. Tratou-me como uma neta desconhecida que lhe tinha aparecido à frente. Deu-me a mão enquanto conversávamos e, no fim, fez-me uma festa no rosto. Pelo meio, fiz-lhe a pergunta óbvia: o que significava para ele ter sido o único defesa a conseguir travar Pelé, no Mundial de 66. «Dizem… As pessoas dizem isso, mas eu não digo nada. A minha missão era marcar os melhores goleadores. Aí tem», respondeu, como se não fosse um imenso feito, recordado no museu do clube, onde jazem umas caneleiras de Pelé, oferecidas pelo próprio ao seu rival em campo.

Perante aquela homenagem questionei-o como se sentia por haver tantos adeptos a admirá-lo quando, afinal de contas, muitos nunca o tinham sequer visto a jogar. «Gostar de mim… Não sei dizer», afirmou com uma autenticidade rara. E, no final da entrevista, fez um convite a todos. «As pessoas que continuem a aparecer no futebol, porque o futebol é bonito. E quando o campo está cheio a gente [jogadores] sente-se mais emocionados».

Foi a teimosia em não querer alimentar-se, a par com a idade muito avançada, que o levou a partir, no lar onde vivia, em Alapraia, no Estoril. A VERSA falou com Afonso, o seu grande amigo e companheiro neste fim de vida. «Não estou em condições de dizer nada. Só sei que perdi o Vicente», chora.

A sobrinha, Argentina Fonseca, filha de Matateu, recorda a última vez que viu o tio, no domingo antes da sua morte, 12 de abril. «O meu tio estava muito fraquinho e tinham-no posto a soro porque ele há muito tempo que não se queria alimentar», partilha. «Uma das funcionárias que cuidava dele disse-me que se continuasse assim teria de ser entubado mas isso não chegou a acontecer. O meu tio piorou e, infelizmente, acabou por falecer. E nunca estamos preparados para ver partir os nossos», prossegue a sobrinha de Vicente.

Vicente Lucas nasceu em Moçambique no dia 24 de setembro de 1935 e chegou ao clube em 1954, com 19 anos. Nessa altura já Matateu, o irmão mais velho e inseparável, era um dos mais aclamados jogadores do Belenenses.

Começou como médio atacante e, logo na sua estreia, marcou o golo da vitória contra o Futebol Clube do Porto. Com o tempo foi descendo no terreno para a posição defensiva, pela qual se notabilizou. Para sempre ficará imortalizada a frase tantas vezes repetida pelos adeptos: «Corta, Vicente!». Aliás, a expressão atravessou gerações e, atualmente, é usada quando alguém quer acabar com uma conversa que não lhe está a agradar. Pelo menos entre belenenses…

Vicente fez 284 jogos pelo clube do Restelo. Chegou a ser capitão da equipa que sempre representou com apenas 25 anos de idade. E foi ele que ergueu a Taça de Portugal em 1960, após o encontro com o Sporting, que o Belenenses derrotou por 2-1.

Tinha apenas 31 anos quando, num grave acidente de viação junto ao estádio, um vidro lhe perpassou um olho, deixando-o cego. Aconteceu em outubro de 1966 pouco tempo depois de ter chegado do Mundial de Futebol de Inglaterra. Acabou assim a sua carreira ao serviço do Belenenses, após 12 épocas.

Vicente foi velado na capela mortuária do Mosteiro dos Jerónimos na quarta-feira, 15. A carreta, com os seus restos mortais, passou pelo estádio do Restelo na sexta, pelo meio-dia, a caminho do crematório de Barcarena. O fumo saiu acinzentado mas a sua alma perdurará para sempre azul.