quinta-feira, 16 abr. 2026

Treinador de futebol feminino filmava jogadoras nos balneários. Apesar de sancionado, pode continuar a treinar na Europa

O treinador da República Checa gravava as jogadoras enquanto tomavam banho ou trocavam de roupa nos balneários. A mais nova tinha 17 anos.
Treinador de futebol feminino filmava jogadoras nos balneários. Apesar de sancionado, pode continuar a treinar na Europa

Petr Vlachovsky foi considerado o melhor treinador de futebol feminino da Chéquia. Sabe-se agora que gravava as suas atletas nos balneários e banhos com uma câmara oculta e que, apesar de ter sido proíbido de treinar no seu país, nada o impede de continuar o trabalho pela Europa.

Tudo se soube quando a polícia ligou para Kristyna Janku, de 31 anos, atleta do FC Slovacko durante 13 épocas. A mulher conhecia Vlachovsky, antigo treinador da equipa nacional feminina sub-19, há muitos anos, tinha uma boa relação com ele e, inclusive, era amiga da sua mulher e filhos.

Naquele dia, as autoridades contactaram-na para se dirigir à esquadra para se identificar em vídeos e fotografias tiradas entre 2019 e 2023 pelo antigo treinador.

“Nunca se pensa que algo assim possa acontecer”, disse Janku ao The Atletic. O treinador tinha usado uma câmara miniatura oculta na mochila para gravar 15 jogadoras enquanto estas tomavam banho ou trocavam de roupa nos balneários antes e depois dos jogos. A atleta mais nova a aparecer nas gravações tinha 17 anos. “Quando vi as gravações, percebi que ele sabia exatamente o que estava a fazer. Era muito meticuloso. Não foi por acaso. Era profissional no futebol, e também se via que era profissional nisto", explicou ainda.

O tribunal concedeu uma indemnização de 20 mil Coroas Checas, quase 820 euros, a 13 jogadoras pelos "danos sofridos". No entanto, Janku explica que o impacto do crime terá impacto na sua vida "para sempre". Em 2025, o tribunal criminal considerou Vlachovsky culpado de crimes como posse de material de pornografia infantil. Foi condenado a uma pena de prisão suspensa de um ano e a uma proibição de cinco anos de treinar "em casa".

No entanto, até a UEFA decidir revogar a licença do treinador acusado, este pode continuar a treinar em qualquer outro clube da Europa.

Janku e as jogadoras que não puderam recorrer da decisão judicial consideraram-na "ridícula". O The Atletic questionou a FIFA se iria aplicar alguma sanção ao treinador, mas a resposta foi inconclusiva. “A FIFA leva muito a sério qualquer alegação de má conduta e tem um processo claro para qualquer pessoa no futebol que queira reportar um incidente", explicaram e acrescentam: “Como regra geral, compreenda que o comité independente de ética não comenta alegações que possa ou não ter recebido, ou se existem ou não investigações sobre casos alegados. Qualquer informação que o comité queira partilhar será comunicada a seu critério".

São várias as manifestações para que o treinador seja impedido de exercer. A FIFPRO, sindicato global de jogadores, pede à FIFA que lhe imponha uma "proibição vitalícia mundial". Já o sindicato de jogadoras checo, CAFH, emitiu propostas para novas regras no código disciplinar da federação sobre abuso sexual e abuso de poder.

“Apesar de se tratar de abuso sexual não físico, continua a ser abuso sexual. Isso ajuda as jogadoras e todos a perceberem a gravidade", afirmou a conselheira jurídica da FIFPRO, Barbara Mere Carrion, que acrescenta: “É importante chamar às coisas pelos nomes”. Neste sentido, alerta ainda que a falta de punição pode desencorajar outras atletas a denunciar abusos.

Alex Philips, secretário-geral da FIFPRO acredita que este caso é "apenas a ponta do icebergue". "Os abusadores mudam-se para espaços sem regulamentação, onde sabem que o risco de serem apanhados ou punidos é muito baixo e onde têm poder — por exemplo, na seleção da equipa. Se ninguém fiscaliza o teu poder, podes abusar dele. Por isso, as sanções devem enviar uma mensagem", reitera.

Janku explicou ainda que as jogadoras só souberam das filmagens após a prisão do treinador, em 2023, revelando que "algumas delas vomitaram", outras saíram do clube, e a maior parte procurou apoio psicológico. A própria revela que, apesar de agora jogar noutra equipa na Polónia, mantém-se sempre alerta em lugares novos e tenta "esconder-se ligeiramente" quando troca de roupa.

A jogador de 31 anos deixa ainda uma mensagem de incentivo a jovens jogadoras: “Não é confortável falar sobre isto, mas é necessário. Não tenhas medo de resolver o problema, não fiques em silêncio. Quando algo assim acontece, não deixes que ele volte a treinar".