Rui Santos: “Dava um bom selecionador nacional”

Aos 65 anos, festeja 50 de jornalista. Sente orgulho na sua carreira, mas mostra uma grande desilusão com o sistema do futebol, onde diz que os empresários têm um peso excessivo, e em que os dirigentes sonham com ‘tachos’ nacionais e internacionais.
Rui Santos: “Dava um bom selecionador nacional”

Em 50 anos de carreira muita coisa mudou.                   

Em primeiro lugar, o mundo mudou muito, em termos tecnológicos, e isso está muito associado também à carreira e à forma como foi o início da atividade que teve a ver com coisas muito prosaicas, de começar a escrever com uma esferográfica, depois passar para as máquinas de escrever, e depois os computadores, e depois a internet. Dos 50 anos de carreira retenho duas coisas fundamentais, que é o orgulho e a gratidão. O orgulho, porque, na verdade, chego a estes 50 anos com a sensação de que fiz o essencial para merecer a confiança. Quando saí da imprensa escrita – estive 26 anos n’A Bola – achava que não tinha vocação para televisão, e as coisas aconteceram muito naturalmente, não foi a pedido. Quando saí d’A Bola pensei que ia fazer uma pausa, tinha um acordo no sentido de não poder escrever nos três anos a seguir para a imprensa, por causa das questões concorrenciais, etc. Como tinha trabalhado tanto nesses 26 anos, com saídas, com reportagens, com muita viagem ao estrangeiro, a conhecer e a estabelecer os contrastes entre aquilo que via noutros países e aquilo que via em Portugal, achava que não me fazia mal nenhum uma pausa para escrever algum livro ou refletir um bocadinho sobre a carreira que tinha feito até àquele momento. A televisão aconteceu de uma forma tão espontânea em que meros convites para comentar fizeram que iniciasse uma carreira, mas foi na SIC Notícias que as coisas explodiram em termos de captação de interesse, as audiências a projetarem a ideia de que o meu discurso era diferente, impactante, e isso para as pessoas, na altura, tornou-me distintivo, e foi aí que começou a carreira na televisão. Vou fazer 24 anos de televisão no final deste ano e isto significa que as mudanças brutais que existiram em termos da tal massificação acabam por consolidar a ideia de que é possível alguém com um determinado tipo de características ter um programa, que é um programa que vale muito também pela moderação, mas que está concentrado, de facto, na opinião. Hoje, nos tempos que correm, e em termos dos modelos que estão instituídos, naturalmente as pessoas pensam que é mais fácil captar atenção e fazer audiências em termos dos formatos de debate. Eu gosto do debate e tive formatos de debate ao longo da minha carreira televisiva, mas o que me orgulha mais é contrariar a ideia daqueles que acham que é insustentável um programa de autor, baseado na opinião de alguém que começou cedo e que tem uma noção daquilo que é a realidade do futebol em Portugal, e não só.

Guardou o primeiro artigo que fez?

Sim, foi a crónica do jogo Barreirense-União de Montemor, 12 de janeiro de 76. A preparação para ir para o Barreiro foi uma dor de cabeça, eu preocupadíssimo, como se hoje fosse fazer a final da Liga dos Campeões ou me estreasse a fazer uma final da Liga dos Campeões, que acabei por fazer em 1980 num Nottingham Forest-Hamburgo. Não fazia nenhuma ideia de que a partir daquela altura não parava mais. Adorava, e adoro futebol, embora adorasse mais o desse tempo do que o de hoje. Eu jogava e envolvia as pessoas e mobilizava e organizava campeonatos na escola, na primária, na secundária, até depois na universidade ou no Colégio Militar, por exemplo, onde estive. Tive, de facto, alguma formação desportiva, não federada, nunca profissional, como é óbvio, e se calhar não tive porque também comecei muito cedo no jornalismo desportivo. Talvez tenha sido o jornalismo desportivo que me roubou a hipótese de enveredar por uma carreira de futebolista, e tenho alguns amigos meus desse tempo que me dizem o mesmo, que tinha mesmo jeito para o futebol e que se calhar podia ter feito uma carreira interessante. Olhando para trás, e mesmo eventualmente perdendo alguns milhões [risos], estou satisfeito com a opção que fiz, e sobretudo com uma ideia que a certa altura se apoderou de mim, foi que, quando passei a ser profissional, atingi um grau de satisfação, mesmo…

Tornou-se profissional quando?

Em 81, porque fiz cinco anos como colaborador – de 76 a 81– pois estava na Católica a fazer Gestão de Empresas, e aceitei o convite para ser redator d’A Bola. Nunca fui muito focado no meu curso porque estava focado na absorção da informação sobre o desporto, e sobre o Sporting, o Benfica, o Porto, enfim, todos os clubes. E como tive a possibilidade de sair muito cedo e visitar outros países e infraestruturas desportivas no estrangeiro, comecei a perceber que Portugal era um país atrasado em dois sentidos: enquanto país, genericamente, e enquanto país desportivo, por causa das infraestruturas, de não haver academias, de jogarmos nos pelados, por causa dessas coisas todas. E eu lá fora via o contrário, via academias, via centros de treino. Em Portugal estava tudo errado, até por uma coisa fundamental, a questão da mentalidade competitiva, o dar tudo, e vejo que o futebol caminhou no sentido errado, apenas por causa e só do dinheiro, porque hoje as grandes instituições, que naturalmente fazem a regulação deste negócio, percebem que jogando bem ou mal as receitas estão sempre preenchidas, tirando alguns casos de competições ‘menos lutadas’, digamos assim, por exemplo campeonatos como o CAN ou o último Mundial de Clubes. Mesmo com a sobrecarga de jogos e mesmo com os jogadores de língua de fora, a verdade é que os estádios enchem, e portanto as receitas da UEFA e da FIFA continuam a subir, mas estão a destruir aquilo que é a essência do jogo. Aquele futebol simples taticamente, retilíneo, de exploração dos corredores, das laterais, do passa e corre, de ir buscar a bola, de movimentos simples, portanto a simplificação do futebol deu lugar à complexização, até do ponto de vista tático, o que não é bom para o futebol, tornando-o complicado, às vezes enfadonho, porque naquelas articulações e naquelas confabulações táticas perde-se coisas fundamentais no futebol, que é a criatividade, a liberdade dos jogadores e a simplicidade dos processos.

Com essas histórias todas não se perde a magia do futebol de rua?

Sou adepto da simplicidade dos processos e há uma coisa que hoje vejo pouco e que via muito noutros tempos, que era a utilização e a importância dos extremos. Hoje não há extremos puros. Hoje os extremos estão convertidos em médios interiores, quer dizer, estão sempre a abandonar o corredor, estão sempre a abandonar a faixa para serem mais um médio. O futebol é uma coisa super simples que os treinadores complicaram, ou que alguns treinadores complicaram.

Não é fã do Guardiola?

Sou muito fã do Guardiola.

Foi Guardiola que ‘inventou’ o carrossel, acabando com os extremos.

Acho que não foi ele que acabou, ele introduziu no Barcelona um estilo de jogo que foi muito impactante, o chamado carrossel, que era um aproveitamento muito forte daquilo que era a posse de bola, que quando era dinâmica produzia movimentos extraordinários. Agora, há uma coisa que as pessoas não falam do Barcelona do Guardiola: é que o Barcelona do Guardiola era das equipas que melhor recuperava a posse da bola, porque era tic-tac, tic-tac, tic-tac, perde a bola e zeeee… E isso para mim no futebol é fundamental.

Sim, mas não é fã de Guardiola.

Não, não, não, eu até disse que o Ruben Amorim seria uma espécie de Guardiola do futebol português. O Sporting de Ruben Amorim, e há uma parte que me irrita e uma que me deslumbra, tinha essas duas vertentes, que era a vertente do passa a bola para o lado, levar imenso tempo dentro do seu próprio meio campo a trocar a bola, e às tantas aquilo irritava-me, mas depois tinha o contraste, que é a exploração da profundidade, exploração também dos jogadores que jogavam nos corredores, e portanto é uma mescla entre aquilo que era um futebol mais clássico e um futebol mais moderno. Vejo isso no FC Porto atual, tem um futebol mais próximo daquilo que eu gosto, o futebol do Jorge Jesus no Benfica era um futebol que eu adorava, o futebol do Artur Jorge no FC Porto eu adorava, gosto de agressividade nos limites, com lealdade. Por exemplo, na Seleção Nacional entendo que nos falta isso. Temos excelentes jogadores a jogar nas principais ligas europeias, já ganhámos um campeonato de Europa e foi o Euromilhões, foi uma sorte, quer dizer, foi mérito, ninguém retira o mérito, mas foi também muita sorte. Ainda não fizemos um Campeonato da Europa ou um Campeonato do Mundo em que puséssemos exatamente a nossa melhor versão, com os jogadores que temos, jogarmos um futebol agressivo, pressionante. Sei que isto é consequência também do facto dos calendários serem cada vez maiores, e estas competições se realizarem no final de cada época. Com os jogadores com 80 jogos, etc., como é que se pode jogar em alto ritmo e de gás aberto nestas circunstâncias? É difícil.

Posso concluir que sente que podia ser um excelente selecionador nacional?

[Risos] Dava um bom selecionador nacional.

Porquê?

Porque não ia ligar a poderes, ia ligar à exigência, ia ligar apenas àqueles que jogam bem e empenham-se para jogar bem e ia escolher aqueles que honram Portugal e que suam a camisola.

Há uma influência dos empresários na seleção nacional?

Totalmente e sempre houve.

Jorge Mendes tem influência na seleção nacional?

Acho que sim.

Roberto Martínez também...

Também está metido nisso. Isso está tudo ligado e sou contra isso. E por ser contra isso é que me custa muito ver uma equipa como a nossa, a Seleção Nacional, que tem dos melhores jogadores da Europa e do Mundo, a não extrair aquilo que eles têm de melhor. Por falta de exigência, por acomodação, por ser tudo muito fácil, por ser tudo muito luxuoso, se quiser, e não haver a tal cultura de exigência que tem que ser, naturalm ente, transversal e imposta pela própria Federação. Quando os empresários mandam nas federações ou nas ligas, ou quando, naturalmente, em função daquilo que é a sua carteira de clientes, vamos chamar assim, as pressões que fazem sobre os selecionadores são enormes. Nunca deixaria isso acontecer. É claro que só estaria um dia como selecionador nacional, mas também não ficaria mais do que um dia se me impusessem alguma coisa, demitir-me-ia imediatamente. E isso é uma coisa que faz falta ao futebol em Portugal, que é as pessoas demitirem-se. Por comodidade, a Liga pode estar a funcionar mal, pode não estar a encontrar soluções e os presidentes não se demitem. Sabe porquê? Porque sabem que mais tarde vão para a Federação. E depois na Federação fazem o mesmo. Sabe porquê? Porque mais tarde vão para a UEFA ou para a FIFA. No meio disto tudo ganham milhões e milhões e milhões. Porque os lugares lá fora são muito bem pagos. O sistema de organização do futebol em Portugal é uma pescadinha de rabo na boca. Começa na intenção de chegar a um dos lugares e, normalmente, a entrada é pela porta da Liga. Depois passam pela Federação e daí dão o salto. Um bocadinho como na política.

Pedro Proença não conseguiu dar o salto para a UEFA.

Não conseguiu na altura em que queria, mas é o grande sonho dele. Aliás, ele foi para a Federação com o sonho de ir para a UEFA para o cargo de presidente. Ele agora está a ser contestado muito por força daquilo que os clubes queriam. É que ele foi um ex-árbitro internacional categorizado e eles achavam que a relação que estabeleceram com ele os ia favorecer, através do poder de influência dele sobre os árbitros, através da máquina de arbitragem. E eles estão a perceber que, no fundo, o discurso dele, como presidente da Liga ex-árbitro e agora como presidente da Federação é o mesmo para todos. Sempre fui contra que o presidente da Liga e da Federação sejam ex-árbitros. O que aconteceu nestes anos todos para os clubes apostarem num ex-árbitro para ser presidente da Liga e presidente da Federação? Não é estranho, não é esquisito? Não dá a sensação que é um pagamento de favores?

Parece que está a dizer que Pedro Proença é uma espécie de prostituta que vai para a cama com todos, no sentido figurado, como é óbvio, e promete o mesmo a todos.

Não vou dizer que o presidente da Federação é uma prostituta, mas vou dizer que há muita prostituição intelectual no futebol. E não é só no futebol, na política também.

Aceitaria algum dia um cargo de dirigente?

Não quero nada disso, nasci jornalista e a partir de uma certa altura eu queria morrer jornalista e é assim que continuo a pensar.

A menos que tivesse um convite para a seleção nacional.

[Risos] Se tivesse um convite para selecionador nacional ia ponderar, mas tenho a certeza, primeiro, que não vou ter esse convite; segundo, provavelmente a minha resposta seria não, porque não me iam preencher as condições necessárias para ser selecionador nacional. Isso é fundamental. Como, por exemplo, podia dar um bom ministro do Desporto, mas para isso tinham que me dar uma autonomia total que o movimento associativo não ia consentir. Por que não temos ministros do Desporto e temos secretários de Estado fracos? Porque são manipulados como marionetas.

Falta de ego não tem.

Não, não, digo o que penso. Voltando à história de um ex-árbitro: o árbitro é um juiz. Não é um juiz convencional, mas é um juiz. E é quem regula o jogo. E, portanto, pode regular, pode viciar as regras do jogo. E por isso não pode ter contacto com os clubes. Um dos problemas do futebol em Portugal é a proximidade entre os clubes e os árbitros e a máquina de arbitragem. E por isso é que um ex-árbitro nunca poderia ser presidente da Liga e da Federação.

Pedro Proença foi presidente da Liga e é das Federação por resquícios de favores que fez no passado?

Aquilo que digo é que muita coisa aconteceu no futebol para que os clubes achassem que era conveniente para eles próprios ter um ex-árbitro na presidência da Liga e da Federação. E isso provoca-me inquietação. Porque entendo que quem deve estar como presidente da Liga ou como presidente da Federação tem de ser alguém, em primeiro lugar, que tenha poder e que tenha independência suficiente para liderar. Ninguém lidera o futebol em Portugal. O presidente da Liga não lidera, o presidente da Federação não lidera.

Mas aquilo é automático? Já chegou a robotização à Liga e à Federação?

Digamos que são as circunstâncias que ditam que haja decisões absolutamente inacreditáveis. Sabe o que aconteceu no intervalo do Porto-Braga, na cabina do FC Porto? Puseram lá, ao intervalo do jogo, que estava a correr mal ao FC Porto, uma televisão a passar, supostamente, imagens de erros de arbitragem. Lances, na interpretação de quem lá pôs a televisão, lesivos do interesse do FC Porto. Eu disse que isto tem que dar, no mínimo, perda de pontos. Sabe o que deu? Uma multa pesada, para aquilo que é habitual, de 12.750 euros. Isto é matar o futebol, isto é brincar ao futebol. Uma presidente de um conselho de disciplina da Federação que tem uma decisão desta natureza tem que ser demitida imediatamente. Por isso é que dizia que no futebol não há demissões. Não é por estar o Porto envolvido, ou o Braga, ou o Benfica, ou o Sporting. Isto a acontecer em qualquer balneário de qualquer país, na Liga Portuguesa, uma coisa semelhante, tem que dar ou despromoção ou perda de pontos. No meu entender, devia ser perda de pontos, perda daquele jogo. Porque isto é condicionar, isto é coagir, isto é pressionar. E os regulamentos dizem que se for provada coação pode dar descida de divisão.

André Villas-Boas não mudou nada a filosofia de Pinto da Costa?

Acreditei, e acredito, e dou um grande mérito ao André Villas-Boas, por, num determinado momento muito difícil, ter ousado enfrentar Pinto da Costa, que era a face do regime. Isso não vou esquecer e vou valorizar sempre. Porque acreditei que esse era o grande momento da viragem do futebol em Portugal, através do exemplo de André Villas-Boas, através de uma mentalidade diferente. E isto não significaria que o FC Porto ficasse dependente ou enfraquecido, ou num processo de enfraquecimento em relação aos clubes de Lisboa. Não, defendo um Porto forte, competitivo, mas defendo um Porto limpo. E um Porto limpo como André Villas-Boas prometeu aos sócios que ia fazer. E que não ia perdoar àqueles que prejudicaram o FC Porto. O que estou a ver hoje, até porque prezo muito a segurança das pessoas, e imagino o que é viver na cidade do Porto perante situações em que, mesmo com o chefe da claque dos Super Dragões neste momento detido, seja muito difícil, face aos resquícios desse tempo, em que havia pressões, coações, perseguições e tudo mais, que condicionaram a verdade desportiva em Portugal. Continuo a pensar que mesmo num tempo novo, e com o líder do Super Dragões detido, é muito difícil viver no Porto e lidar com os resquícios, as reminiscências desse tempo, que no fundo marcaram o regime.

Já foi líder de audiências com o Tempo Extra, na SIC Notícias. O que mudou nos últimos anos no comentário desportivo?

Houve uma mudança de paradigma relativamente ao comentário desportivo. Dantes os programadores sabiam que um programa de futebol resolvia o problema das audiências do dia, haver um programa de futebol fazia com que aquilo que acontecia à volta fosse absolutamente secundário, o importante eram os programas do futebol. As pessoas perdem a memória rapidamente. Há uma coisa que não gosto e que tem a ver com a forma como as pessoas veem as audiências, que é comparar aquilo que não é comparável. Primeiro, comparar resultados de horários diferentes; segundo, comparar resultados entre formatos diferentes e perceber que as audiências dependem de vários fatores. Se há breaks maiores ou breaks mais pequenos e break significa tempo de passagem de publicidade, etc., que, naturalmente, tem uma influência relativamente aos números que cada programa pode fazer. Se tiver breaks antes dos programas, naturalmente que não alavanca o próprio programa e se dentro do programa houver breaks grandes, naturalmente é impossível, ou quase impossível, fazer grandes resultados. E, nesse aspeto, os números que quer o Tempo Extra, quer o Rui Santos em Campo têm feito, são algo que me orgulha e que prova, como disse também antes, que é possível manter em antena um programa durante anos que vive, basicamente, da relação entre um moderador e um comentador. As audiências são muito importantes do ponto de vista comercial, mas há outras coisas que têm a ver com a própria imagem do canal. O que é que os canais querem para si próprios em termos de imagem? Fiz sempre os possíveis para que o meu trabalho resultasse em termos de projeção de uma imagem positiva para o canal, em termos da sua credibilização. É isso que tento fazer. Não me vou despir, até seria ridículo, para ter mais audiências. Não vou fazê-lo. Há coisas que não faço para ter mais audiências.

E acha que os outros se despem?

Acho que às vezes se despem, sim.

Vi os seus últimos programas e para si parece que é Deus no céu e Mourinho na terra. Diz que Mourinho está a pôr o Benfica em ordem. Como é possível, enquanto comentador, dizer que o Mourinho é a última Coca-Cola no deserto, quando ele no Benfica empatou em casa com o Santa Clara, com o Rio Ave, com o Casa Pia, perdeu a Taça da liga, jogos da Liga dos Campeões...

Nunca almocei com o Mourinho, nunca jantei com Mourinho, nunca passei férias com Mourinho, falei muito pouco com Mourinho, mas admiro o Mourinho. E admiro todas as pessoas que num determinado momento alavancaram a imagem de Portugal, seja através do futebol, seja através de qualquer atividade. E não aceito que alguns neo-sabichões do futebol em Portugal tratem as pessoas que fizeram alguma coisa pela imagem de Portugal e do futebol português como se fossem pessoas absolutamente caducas, absolutamente ultrapassadas, absolutamente vítimas de doença de Alzheimer.

É um incompreendido?

Não será muito compreendido. Houve momentos em que os treinadores, pela sua personalidade, conseguiam impor-se às estruturas. Hoje, diga-me lá algum treinador que se imponha às estruturas de qualquer clube do mundo?