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Nas próximas seis semanas as atenções dos amantes do râguebi vão estar viradas para a 132.ª edição do Torneio das Seis Nações, a mais antiga e emblemática competição de seleções do mundo, organizada pelo Comité das Seis Nações e pela empresa Six Nations Rugby Limited. Neste desporto de brutos jogado por cavalheiros celebra-se o orgulho nacional, rivalidades ferozes e momentos inesquecíveis, sempre com grande fair play. A importância desta competição ficou bem demonstrada pelos mais 180 milhões de telespetadores que acompanharam o torneio em 2025, e pela presença de mais de um milhão de espectadores em estádios lendários como Twickenham, Murrayfield, Aviva e Stade de France.
Para as seis melhores seleções do hemisfério norte, que são a França, Inglaterra, Irlanda, País de Gales, Escócia e Itália, não é o momento para grandes experiências, mas sim de afinar estratégias com o objetivo de conquistar o troféu, uma verdadeira obra de arte feita à mão em prata esterlina e banhada a ouro de 22 quilates no interior, que está avaliada em 65 mil euros. Esperam-se, por isso,15 jogos de grande espetacularidade, intensidade e suspense, já que o objetivo é entrar pela linha de 22 metros adversária e marcar pontos. O kickoff foi dado com uma partida de grande nível entre a França e a Irlanda, duas seleções que ganharam as últimas quatro edições, que se realizou à hora de fecho desta edição.
Cada nação defronta as outras cinco, alternando a vantagem de jogar em casa de uma época para a outra. A vitória vale quatro pontos e o empate dois. Há um ponto de bónus ofensivo para a equipa que marque quatro ou mais ensaiados e um ponto de bónus defensivo para quem perder por sete pontos de diferença. A seleção que ganhar os cinco jogos faz o Grand Slam e recebe três pontos de bónus.
Dentro deste torneio há uma outra competição, chamada Triple Crown. A seleção que vença os outros três países do Reino Unido recebe o troféu, considerado um símbolo de supremacia regional entre rivais históricos. Outro momento marcante é o jogo França-Inglaterra, conhecido por ‘crunch’, que simboliza as antigas rivalidades militares dos dois países. Hoje em dia, é nos relvados que se desenrola essa luta com a Inglaterra a dominar com 60% de vitórias.
Três favoritos
Desde que passou a ser disputado por seis países em 2000, a Irlanda (68%), França (65%) e Inglaterra (63%) têm as maiores percentagens de vitórias e são, naturalmente, favoritas a vencer a edição deste ano. Os jogos destas seleções são os mais procurados e há muito que a lotação está esgotada. De salientar que os preços começam nos 30 euros, atingindo os 200 euros nas partidas entre equipas mais categorizadas, são valores bastante aceitáveis quando comparados, por exemplo, com o futebol.
A França ocupa a quinta posição no ranking da World Rugby e está preparada para defender o título conquistado o ano passado e, se possível, fazer o Grand Slam. O selecionador Fabien Galthié defende um estilo de jogo ambicioso, baseado na posse e na iniciativa. Exige que os seus jogadores sejam fortes a defender, conservem a bola através de uma boa circulação e evitem jogar ao pé. A seleção gaulesa tem potencial para ganhar a competição e a vantagem adicional de ‘jogar’ com o calendário. Os Blues fazem três jogos em casa e dois são contra a Irlanda e Inglaterra, os dois mais sérios rivais na luta pela vitória, o que pode ser muito importante na dinâmica da equipa. «O Torneio das Seis Nações é muito especial e difícil. Cada jogo tem a sua própria história. Há as escolhas, as lesões, as estratégias, tanto do adversário como da nossa equipa. Temos de construir uma organização e uma estratégia com os jogadores», sublinhou o selecionador.
Após um ano muito positivo, que terminou com a subida ao terceiro lugar do ranking mundial, a Inglaterra volta a estar entre as melhores seleções do mundo. No XV da equipa ‘Rosa’ há muita experiência, mas também jovens talentosos, o que veio aumentar a intensidade de jogo e a capacidade de ganhar metros com bola. É uma equipa que comete poucos erros a defender e é rigorosa e disciplinada em progressão. Com uma dinâmica forte, muita confiança e performances sólidas, a Inglaterra é séria candidata a ganhar o torneio.
A Irlanda ocupa atualmente a quarta posição no ranking da World Rugby. Depois de ter ganho a competição em 2023 e 2024, foi terceira classificada o ano passado após o desaire em casa frente à França. A equipa deste ano é muito forte, disciplinada e tem um estilo de jogo que oferece múltiplas soluções ao portador da bola, a grande uma variedade de movimentos é um quebra-cabeças para os defesas adversários. Além disso, possui uma mistura de jogadores muito experientes com alguns novatos e está determinada a lutar pela vitória, o que seria o terceiro título em quatro anos.
A Escócia é um outsider que pode complicar a vida aos favoritos. Tem vários jogadores rápidos e ágeis, capazes de criar jogadas ofensivas, destruir uma defesa e virar um jogo a qualquer momento. A formação escocesa tem talento e, se jogar ao melhor nível, é bastante perigosa e pode chegar ao pódio depois de dois quartos lugares nas edições anteriores.
Desde mudou de selecionador, a Itália deixou de ser uma equipa do fim da tabela e tem outras aspirações, como demonstram os últimos jogos internacionais. A squadra azzurra apresenta uma nova geração de jogadores, tem mais organização e confiança, aspetos que podem fazer tremer os favoritos e colocar a equipa no quarto lugar, que é o grande objetivo. Uma missão difícil, mas não impossível de alcançar.
O País de Gales venceu a edição de 2021, mas depois entrou numa crise desportiva. De favorito, passou a ocupar o último lugar… e recebeu duas ‘colheres de pau’ consecutivas, castigo atribuído à equipa que perde todos os jogos. Os galeses atravessam o pior período da sua história, mudaram três vezes de selecionador em oito meses e, neste contexto, é difícil imaginar que possam rivalizar com as seleções mais fortes.
Encontro com a história
A primeira edição teve lugar em 1883 com a designação Home Nations Championship, uma competição 100% britânica que reunia a Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda. A Inglaterra foi excluída dos torneios de 1888 e 1889 por se recusar a aderir à International Rugby Football Board. A França juntou-se em 1910 e deu origem ao Torneio das Cinco Nações. Contudo, a equipa gaulesa seria excluída da competição entre 1931 e 1939 por ter recorrido a jogadores pagos, o que era proibido na época. Em 2000, o torneio entrou numa nova era com a integração da Itália e nasceu o Seis Nações, tal como o conhecemos hoje. País de Gales, Escócia e Irlanda são os países com mais participações: 132, ao passo que a Inglaterra e o País de Gales têm mais títulos: 39. A Inglaterra destaca-se também por ter mais Grand Slam: 13 e Triple Crown: 26. Ao invés, a Irlanda tem mais ‘colheres de pau’: 25. Uma particularidade, na história desta competição nunca uma seleção ganhou a prova três anos seguidos e também não vai ser em 2026.