quinta-feira, 12 fev. 2026

Pedro Matos. Sonho em alta velocidade

Tinha apenas 4 anos quando se meteu, pela primeira vez, em cima de uma mota. Desde então tem conquistado campeonatos e dedicado toda a sua juventude às pistas. O seu sonho é estar entre os melhores do mundo.
Pedro Matos. Sonho em alta velocidade

A paixão pelas motos foi-lhe passada pelo pai que, antigamente, praticava motocross. Tinha quatro anos quando o «bichinho» o pegou e, desde então, que dedica a sua vida às pistas. «Tudo começou por causa do meu pai. Ele andava de mota e passou-me esse gosto. Pilotou vários anos só que em motocross. Eu também comecei aos quatro anos no Off-Road Camp. Um ou dois anos depois experimentei as pistas e fiquei completamente apaixonado. Dediquei-me muito a isso e comecei a treinar afincadamente», conta Pedro Matos, mais conhecido como Pedrinho, à VERSA. Ao contrário das outras crianças que, maioritariamente, crescem com o gosto pelo futebol, sempre teve interesse por este desporto. «Sempre gostei de motociclismo, de velocidade», frisa.

Como era muito pequeno, é complicado lembrar-se da sensação que teve na primeira vez que se meteu em cima de uma mota. No entanto, acredita que tenha sido sobretudo «diversão». «Nessa altura, não sabia o perigo que era. Quando comecei a andar com mais frequência, os meus maiores receios eram as quedas», admite.  Neste momento, já com 15 anos, «é uma mistura de muita coisa». «Nas corridas sinto sempre nervosismo e ansiedade… Acho que todos os desportistas o sentem. E claro… Pura felicidade e liberdade. Sinto-me muito livre quando estou em cima de uma mota mesmo que isso traga alguma responsabilidade, e que seja sempre uma coisa perigosa. Tenho sempre muita consciência das coisas que estou a fazer», garante o jovem.

Depressa entrou nas competições e as coisas tornaram-se mais sérias quando começou a ter cada vez mais bons resultados e conheceu o seu manager espanhol Jesus Agenjo Martinez que lhe proporcionou a oportunidade de se internacionalizar. Tinha apenas 8 anos.

 

 

O orgulho dos pais

«Sempre teve todo o meu apoio», diz Nuno Matos ao telemóvel desde Espanha. «Tanto o meu como o da mãe, claro. Apesar de nós vivermos isto de forma muito diferente um do outro... Para ela é mais complicado, eu estou sempre a par de tudo! Quero que ele seja bom, porque já mostrou que consegue fazer as coisas, consegue superar-se a si próprio, é dedicado. Foi isso que nos levou a apostar nisto. E, na verdade, também foi muito por ‘avisos’ por parte de outras pessoas entendidas no assunto. Quando ele começou, muitos ficaram surpreendidos com o talento e dedicação. Diziam-nos que ele era diferente e estavam certos, porque ele tem provado isso todos os dias», continua, lembrando que ganhava quase sempre as provas em que participava quando era mais pequeno. «E isto começou em Portugal. Depois começámos a ir para o estrangeiro e ele também começou a deixar a sua marca», acrescenta. «Basicamente nós estamos a dar-lhe a cana para pescar. Agora, ele próprio tem que aprender a pescar, não é?», diz o pai.

Para a mãe é muito mais difícil. «Nunca vi corrida nenhuma desde que ele começou. Fico no meu cantinho, nas minhas orações… Estou lá, mas não vejo!», garante Natacha. Porém, sabe que é um sonho dele e «nunca lhe iria cortar as pernas». «Muito pelo contrário. De tudo tenho feito para que ele continue a lutar por aquilo que ama. Nós estamos cá também para os sonhos dos nossos filhos e eu tive que superar os meus medos. Cada vez que ele entra para dentro da pista é muito difícil para mim, é muito complicado, mas pronto», frisa.

E Pedrinho compreende isso: «Quando vamos crescendo vamos compreendendo melhor as coisas, tendo mais noção e mais maturidade. E a maturidade também traz algum tipo de responsabilidade e consciência daquilo que se está a fazer. Eu tenho sentido essas mudanças em mim e o crescimento só me tem trazido mais vontade de continuar e ser mais e melhor», explica, acrescentando que tem de ser bastante disciplinado para chegar onde quer. «Para ser profissional tem que se assumir muita coisa, tem que se treinar todos os dias, tem que se ter uma rotina, temos de abdicar de muitas coisas… É uma vida muito exigente em que quase não sobra espaço para lazer», reconhece. O piloto tem de se deitar cedo e acordar cedo. Faz bicicleta, ginásio e ainda vai para o kartódromo de Vila Nova de Santo André treinar quase todos os dias. «Felizmente tenho conseguido conciliar com as aulas online e tive boas notas, mas quando andava no ensino tradicional/presencial não era nada fácil. Tinha de faltar muito, não conseguia acompanhar as matérias e sentia que ficava um bocado para trás», lembra. Ou seja, é um trabalho contínuo durante todo o ano: muita preparação física (com o seu PT João Ferrinho), muito treino de resistência e de força e, recentemente, começou a trabalhar com um mental coach para «poder fortalecer a todos os níveis». «Além de tudo isto tenho o meu treinador Tiago Dias que me acompanha a 100% desde sempre e que tem sido o meu pilar, a minha força dentro e fora de pista», frisa o jovem.

Nos treinos, segundo Pedro, o foco é mais na parte técnica (muito importante para quando chega aos circuitos grandes). «É uma coisa que nos ajuda muito a ganhar velocidade… Para ser mais concreto, fazemos pistas assim pequeninas com os pins para treinar acelerações, travagens, agilidade em cima da mota», detalha. «Quando estamos a andar de moto a concentração é muito importante. Acho que a parte mental é fundamental e eu, nos últimos meses, tal como disse, tenho treinado muito isso. Temos mesmo de estar concentrados no que estamos a fazer, porque é um desporto muito perigoso.  Estamos em altas velocidades em cima de uma moto de 80 kg», reforça.

 

 

Força e resiliência

As lesões neste desporto são muito frequentes e o piloto já passou por situações complicadas. «Mas temos que superar isso. Eu já tive algumas. A mais grave foi no joelho. Fez-me ficar parado durante algum tempo. A parte da recuperação é complicada, porque enquanto profissionais, claro que queremos recuperar o mais rápido possível. Já tive lesões no joelho, já tive no ombro e no pulso. E muitos ligamentos que posso nem saber que já estraguei», desabafa. «O mais recente foi esse do joelho. Foi enquanto estava a treinar aqui no kartódromo. Caí e tive que levar uns pontos. Depois acabei por ter de ser operado. Foi um erro!», admite.

Para a mãe, esses episódios «são mesmo o pior disto tudo». «São o pior de gerir, e o Pedro tem um poder de superação que nunca vi. Até agora só foi operado ao joelho. Ao ombro não foi porque não quer parar, mas isso preocupa-me. Não sabemos o estado daquilo. Foi superando a dor, vai treinando no ginásio, vai fazendo fisioterapia. E vai conseguindo continuar… Eu sei que às vezes ele sente dor, mas não nos quer dizer para não o obrigarmos a parar», lamenta Natacha. «Para perceberem a resiliência dele, mesmo depois de ser operado ao joelho, foi fazer uma corrida onde o tinha completamente em carne viva. O pessoal nem percebeu como é que ele conseguiu terminá-la. Teve de ser retirado da mota no final. Estava branco, tiveram de ajudá-lo a tirar o capacete», recorda.

Interrogado de onde vem essa força, Pedrinho acredita que é da «paixão». «Vem também do treino e da preparação. Eu dedico-me mesmo muito e sei que são ossos do ofício. Temos de passar por estas dores para sermos melhores e eu quero ser melhor! Cada vez melhor!», afirma.

Mas há realmente coisas que fogem do seu controlo e, em 12 de maio de 2023, a família viu o investimento de anos destruído por um fogo. Estavam a caminho de uma corrida em Valência, quando Nuno olhou pelo retrovisor e começou a ver fumo sair do reboque. «Parei o carro e percebemos que o fumo era cada vez maior. Tentei abrir a porta, ainda entrou mais oxigénio lá para dentro, e ardeu tudo. Ardeu todo o equipamento - o que tínhamos adquirido desde os seus seis anos e outro que tínhamos acabado de comprar. Tínhamos imensos cabos para a telemetria da moto, três motos, um motor de visado pronto para a prova e várias ferramentas… Tudo à volta de 80 a 90 mil euros», lembra com tristeza na voz, dizendo que «foi um momento muito doloroso». Todos a chorar, a olhar uns para os outros sem poderem fazer nada. «Foi um sentimento grande de impotência. Era um investimento de anos. Isso não são coisas que se adquirem de um dia para o outro. Num mês compra-se uma coisa, no outro compra-se outra. É aos poucos… E ali, numa questão de segundos, perdemos o que durante anos andámos a juntar. Uma das motas só tinha sido utilizada uma vez… Depois, íamos para uma prova… Com que material é que ele ia competir? Até hoje não sabemos a causa do fogo», conta.

Ao contrário daquilo que se poderia esperar e apesar de estar de rastos pelo acontecimento, Pedrinho não desistiu. A família continuou a viagem, emprestaram-lhe uma mota para correr e conseguiu fazer um pódio.

 

Um desporto caro e complexo

Segundo Natacha, as pessoas muitas vezes desconhecem o que é que é preciso investir para se conseguir manter um filho nesta modalidade. E, à medida que o tempo passa e Pedro cresce, as coisas ficam mais difíceis. «O Pedro está a crescer e vai subindo de patamar. Conforme vai subindo, os encargos são maiores e, para nós, sozinhos, é difícil. Vamos tentando conseguir patrocínios, mas em Portugal é muito complicado. Os patrocínios que tem são do estrangeiro. É um desporto diferente, complexo, não é bem visto por toda a gente… É tudo muito caro», garante. Se as coisas têm «ido para a frente» é muito por conta do pai.  «Eu trabalho no estrangeiro e consigo ter algum fundo de maneio mensalmente para ir comprando algumas coisas. Se trabalhasse em Portugal isso seria impossível. Era para já estar reformado, mas não estou porque queremos apoiá-lo em tudo. Ele ainda precisa de nós para conseguir continuar», explica. «Nós mudámos as nossas vidas completamente por causa do sonho dele e, o nosso objetivo agora, é pô-lo no caminho que ele quer. Para isso, fazemos e faremos todos os sacrifícios», reforça o pai.

Dos prémios que conquistou, Pedro destaca o seu primeiro pódio no campeonato de Espanha (ESBK) na categoria Moto4 e o seu primeiro pódio na categoria Pre-Moto3. «Nesse ano, ainda estava a competir na categoria Moto4, mas fiz as duas últimas corridas da temporada na categoria Pre-moto3, conseguindo um pódio na minha primeira corrida, no mesmo fim de semana em que perdi todo equipamento», detalha o piloto. Além disso, um outro momento marcante na sua carreira foram as duas participações na Final do campeonato do Mundo Fim MiniGp World Series, onde lutou pelos primeiros lugares terminando no 6º entre 30 pilotos internacionais.

Sobre o futuro, o jovem ainda não sabe ao certo o que vai fazer, ou em quais campeonatos vai participar. Tem a ambição de, este ano, fazer parte do Campeonato Europeu JuniorGp na categoria Moto4 European Cup (antiga Talent Cup) e, possivelmente, de algumas corridas do Campeonato na Ásia. «Espero que o futuro seja sempre melhor e que consiga realizar os meus sonhos: o principal é chegar ao MotoGp. Para lá chegar, preciso de muito treino, foco, persistência, mas principalmente de muito suporte financeiro, patrocinadores, grandes empresas que me queiram apoiar», remata.