O pequeno ‘diabo’ que assustava os grandes rivais

O lendário Kevin Keegan partiu aos 75 anos, vítima de doença prolongada. Há um ano que estava gravemente doente, mas ‘nunca caminhou sozinho’ e as homenagens são mais do que merecidas.
O pequeno ‘diabo’ que assustava os grandes rivais

Kevin Keegan foi um dos melhores jogadores ingleses de sempre e sentava-se à mesma mesa de George Best, Bobby Charlton, Wayne Rooney e David Beckham, entre outros. Foi um dos quatro britânicos a vencer a Bola de Ouro, em 1978 e 1979. Esta semana, o seu lugar ficou por preencher… para a eternidade. Há cerca de um ano, Keegan foi apanhado pela maldita doença que o levou na passada segunda-feira, aos 75 anos. O antigo jogador esteve rodeado pela família, mulher e filhas, nos seus últimos momentos.

Começou a jogar futebol aos 17 anos no Scunthorpe United como avançado, três anos depois transferiu-se para o Liverpool por 33 mil libras (39 mil euros). Filho de um mineiro de South Yorkshire, ficou fascinado com o ambiente da bancada Kop e marcou um golo no jogo de estreia contra o Nottingham Forest. As suas exibições foram determinantes para a equipa de Bill Shankly conquistar títulos e, em pouco tempo, tornou-se o ‘King Kev’.

O camisola 7 dos reds disputou 323 partidas e marcou 100 golos em seis temporadas. Venceu uma Taça dos Campeões Europeus, duas Taças UEFA, conquistou o título inglês três vezes, ganhou a Taça de Inglaterra e a Supertaça. Recebeu o prémio de Jogador do Ano da Football Writers Association em 1975/76, após o triunfo na Premier League e na Taça UEFA, e, em 1982, foi nomeado Oficial da Ordem do Império Britânico pelos serviços prestados ao futebol. «O Liverpool formou-me, não apenas como jogador, mas também como pessoa», disse Keegan, que recordou: «Tirei sempre alguma coisa das pessoas que conheci; Shanks, Tommy Smith, Ian Callaghan e Ron Yeats». O antigo capitão dos reds nunca esqueceu o ambiente do mítico Anfield Road: «Os fãs adotaram-se quando começaram a cantar meu nome». O Liverpool afirmou: «O espírito indomável e a contribuição notável de Keegan ficarão gravados na nossa história e o legado do ‘Mighty Mouse’ perdurará para sempre».

Kevin Keegan jogou ainda no Hamburgo, onde foi campeão alemão, Southampton e Newcastle. Representou a Inglaterra em 63 jogos e marcou 21 golos. Foi capitão da sua seleção antes de regressar como treinador, entre 1999 e 2000.

Considerado um dos maiores futebolistas de Inglaterra foi também um treinador carismático. Terminou a carreira como jogador em 1985 com 803 jogos realizados e 275 golos, mas continuou ligado ao futebol como treinador até 2008, com passagem pelo Newcastle, Manchester City, Fulham e seleção inglesa. «Estamos devastados com a notícia do falecimento de Kevin Keegan, uma das figuras mais icónicas, influentes e profundamente queridas da história do nosso clube», podia ler-se no comunicado do Newcastle, que recordou a época em que Kevin Keegan levou o clube da segunda divisão à Premier League.

Alan Shearer homenageou o seu antigo treinador no Newcastle e na seleção de Inglaterra com palavras sentidas. «O meu herói, o meu treinador e o meu amigo. Descansa em paz, Boss», escreveu o antigo avançado.

Kevin Keegan tinha uma personalidade marcante e dava-se mal com as intrigas do futebol. «Não gosto que as pessoas me enganem e me contem mentiras», disse.

Revelou grande admiração pelo seu amigo George Best: «Queria tanto ter a habilidade dele». «A sua habilidade era incrível. Joguei contra Cruyff, Beckenbauer e Maradona, mas continuo a dizer que o Best era o melhor», afirmou.

Era uma pessoa reservada, que lidava naturalmente com a fama. Foi dos primeiros jogadores do futebol inglês a usar chuteiras personalizadas com a sua marca e, mais tarde, tornou-se um ídolo do programa Superstars da BBC.

Portugal no roteiro

Além do futebol, Kevin Keegan tinha outra paixão: o golfe. E tornou-se frequentador dos melhores greens do Algarve. Foi aí que fez grandes e boas amizades, como aconteceu com Bernardo Reino, mundialmente conhecido por Gigi e por ser proprietário do célebre restaurante da Quinta do Lago. Pedimos-lhe para falar de Kevin Keegan: «Era um amigo e um irmão. Era uma pessoa muito tranquila, de uma simpatia extrema, que queria ser tratado como uma pessoa normal e não com mordomias. Sentia-se desconfortável quando era o centro das atenções». Gigi recordou a última vez que esteve com o amigo: «Foi em maio do ano passado, pouco antes de ser conhecida a sua doença, mas ele nunca se queixou, teve sempre uma atitude positiva»; e acrescentou com mágoa: «Foi um grande amigo, que deixa muitas saudades».

A proximidade criada com Kevin Keegan permite-lhe dizer: «Era um excelente jogador de golfe, gostava muito da Quinta do Lago e passava grandes temporadas aqui, juntamente com outros grandes jogadores ingleses. Ele sentia-se em casa, pois ninguém o chateava, nem andavam a pedir para tirar fotografias». Juntamente com outros craques, criaram animadas tertúlias, com uma particularidade que Gigi sublinha: «Nunca falei de futebol como ele. Os grandes jogadores ingleses dessa altura tinham duas caraterísticas: não apresentavam tatuagens e não falavam de futebol. Falavam de golfe, falavam do país, mas de futebol nada».