Relacionados
O ciclismo de estrada português voltou a sobressair nos grandes palcos internacionais. Afonso Eulálio chegou à liderança do Giro de Itália na quinta etapa, na qual teve uma queda a seis quilómetros do fim, manteve a camisola rosa durante nove dias e foi dos raros a ameaçar os grandes nomes e a lutar pela vitória em etapas. Terminou na sexta posição da geral a 9.39 minutos do vencedor, Jonas Vingegaard, e, mais importante, ganhou o prémio da juventude, aos 24 anos. Apenas João Almeida fez melhor, ao vestir a camisola rosa durante 15 dias e terminar na terceira posição, em 2023.
Um ano depois de ter desistido na antepenúltima etapa, o jovem ciclista ajustou contas com o Giro e conquistou o seu espaço na elite do ciclismo mundial. Quando muitos esperavam que perdesse a camisola rosa nas primeiras etapas de alta montanha ou no contrarrelógio, Afonso Eulálio mostrou enorme determinação e ambição e, com a ajuda do colega de equipa Damiano Caruso, foi aguentando o primeiro lugar. «Sim, foram nove dias. Trabalhámos muito e estivemos sempre 100% focados. Sem nunca ter um dia mau, fomos procurando a perfeição e as coisas acabaram por correr bem», explicou.
O jovem ciclista fez uma leitura do que aconteceu durante as três semanas de competição: «Perdemos o líder da equipa, acabei por ter a minha oportunidade e dei o meu melhor. Não foi uma surpresa. Sabia que estava bem e que podia entrar na disputa, mas não com os melhores, que estão a lutar pelo pódio. Na equipa, todos acreditaram em mim e isso deu-me mais força para lutar até ao fim». A grande revelação do Giro de Itália falou depois do outro lado das corridas: «Raramente tenho as minhas oportunidades. O meu medo era ter um dia muito mau e perder 15 ou 20 minutos. Sabia que, se estivesse sempre bem, estaria perto do top 10». E acertou.
O seu espírito lutador valeu-lhe o sexto lugar e a vitória no prémio da juventude, momentos que não esquece. «Foi uma loucura estar ao lado do Vingegaard na cerimónia do pódio. É um dos melhores ciclistas do mundo. Foi inacreditável», recordou. A forma ambiciosa e destemida de estar em cima da bicicleta, o seu sorriso aberto e a descontração no meio do pelotão cativaram alguns dos grandes nomes do ciclismo mundial, caso de Alberto Contador, que teceu grandes elogios ao ciclista português nas reportagens diárias no Eurosport. Na sua segunda grande clássica, mostrou carisma e ganhou estatuto.
Com o sexto lugar, pode orgulhar-se de ter feito melhor do que Acácio da Silva (7.º) e de ser o terceiro melhor português em grandes clássicas, atrás de João Almeida, com sete presenças no top 10, e José Azevedo, que ficou duas vezes entre os dez primeiros. Além do sucesso desportivo, Afonso Eulálio acumulou um prize money superior a 69 mil euros, foi o quarto que mais ganhou nesta prova, só que este prémio é distribuído pela equipa.
No regresso a Portugal, o jovem ciclista afirmou sentir-se bem e com desejo de desfrutar do momento e... descansar. Agora, vai ter tempo para fazer aquilo de que gosta: ouvir reggaeton e fazer barbecues. «Sei que fiz alguma coisa de bom, mas penso que ainda vai demorar a assentar», disse Afonso Eulálio, que não desarma, como se depreende das suas palavras: «Vou continuar a trabalhar para que as coisas aconteçam naturalmente. Ainda tenho muito para aprender e espero fazer mais coisas boas no futuro».
Depois do excelente desempenho numa das principais provas do ciclismo mundial, Afonso Eulálio admitiu que gosta «bastante mais de clássicas», e deu algumas pistas quanto ao futuro: «Vou continuar a trabalhar com a equipa e talvez faça corridas de uma semana. Mas, acima de tudo, vou continuar a trabalhar como fiz até agora e ver o que podemos fazer no futuro». O ciclista da Bahrain está consciente de que a responsabilidade interna aumentou: «Penso que a equipa vai pedir-me mais. Mas vamos ver. Agora, espero que me deem um pouco de descanso para depois preparamos a segunda parte do ano». O ciclista da Bahrain deve voltar à estrada dentro de duas semanas para disputar a Volta à Suíça, onde vão estar Tadej Pogacar, Primoz Roglic e Tom Pidcock.
Esta é a segunda época de Afonso Eulálio no WorldTour e, com o resultado no Giro de Itália, subiu ao 58.º lugar do ranking da União Ciclista Internacional (UCI). Natural da Figueira da Foz, começou a correr como profissional no Feirense, em 2020, e foi contratado pela Bahrain Victorious no ano passado. No seu percurso, destaca-se o título nacional de fundo na categoria Sub-23, em 2022, e o nono lugar, e melhor português, na duríssima corrida de fundo, com 267 quilómetros, no Campeonato do Mundo, em 2025.