Após o sucesso do campeonato do mundo das Américas - que apesar de algumas polémicas decorreu sem incidentes de maior - parecia ter a FIFA sob absoluto controlo. Mas bastou um passo em falso para comprometer a sua liderança. O anúncio de que pretendia privatizar a maior competição de futebol do planeta colocou-o debaixo de uma chuva de críticas e ameaças de boicote. Para alguns foi uma surpresa. Para outros, confirmou apenas a suspeita de que a maior preocupação de Infantino não é o futebol, mas os negócios de milhões que gravitam à volta do desporto-rei.
Giovanni Vincenzo Infantino nasceu a 23 de março de 1970 em Brig, na Suíça, no seio de uma modesta família italiana. Na juventude, jogou futebol num clube amador, mas cedo percebeu que o seu futuro estava fora dos relvados. Formado em direito, começou a trabalhar como consultor desportivo e prestou assessoria jurídica a diferentes ligas e federações de futebol. Este tecnocrata é atualmente o ‘dono’ do futebol e relaciona-se com algumas das pessoas mais poderosas do mundo.
Chegou à União das Associações Europeias de Futebol (UEFA) em 2000 para trabalhar no departamento jurídico e, em 2009, assumiu o cargo de secretário-geral. Este afável poliglota, que fala sete idiomas, tornou-se conhecido por apresentar as cerimónias dos sorteios da UEFA durante vários anos. Por várias vezes, as câmaras de TV mostraram-no a tirar as bolas que ditavam os sorteios. Mas as suas ambições não ficaram por aí. A demissão de Sepp Blatter e a desistência de Michel Platini devido a casos de corrupção - os dois foram absolvidos em 2022 - abriram a porta da FIFA ao advogado ítalo-suíço.
Com um temperamento mais latino do que helvético, soube tecer uma rede de contactos impressionante e chegou à presidência da Federação Internacional de Futebol (FIFA), em fevereiro de 2016. Tornou-se num orador nato e num dirigente ambicioso e polémico, que transformou a instituição num império político-financeiro muito centrado na sua imagem. Muitas das suas deslocações seguem o protocolo de ‘Comitiva Nível 4’, normalmente atribuída a chefes de Estado e a altos dignitários internacionais.
Em poucos anos, ganhou notoriedade e importância, primeiro a nível europeu com o apoio da UEFA, e, mais recentemente, junto de Donald Trump. A atribuição do ‘Prémio da Paz FIFA’ ao Presidente norte-americano quatro semanas depois deste ter sido afastado pelo comité Nobel mostra como se tornou uma marioneta nas mãos de Trump. Apesar das críticas a nível mundial, a comissão de ética da FIFA assobiou para o lado e nada disse. Importa salientar que, em 2017, Gianni Infantino destituiu os responsáveis por essa comissão e colocou homens de sua confiança. Desde os tempos de João Havelange e Sepp Blatter que se sabia que a FIFA não era exemplo de boas práticas, mas Gianni Infantino conseguiu fazer pior e deixou que a política tomasse conta do futebol.
Tinha a ambição de tornar o futebol verdadeiramente mundial e conseguiu-o com o alargamento do Campeonato do Mundo a 48 países, mas a garantia de integridade foi-se perdendo na espuma dos dias e nos gabinetes do Kremlin (Mundial 2018) - recebeu de Vladimir Putin a Ordem da Amizade de Federação Russa - nos palácios do Qatar (Mundial 2022) e na Sala Oval, da Casa Branca, (Mundial 2026).
Linha vermelha
Ao longo do seu mandato, Gianni Infantino apresentou vários projetos controversos. A linha vermelha foi ultrapassada quando anunciou a intenção de criar a FIFA Forward Enterprise e vender 21% dos negócios comerciais e de bilhética dos mundiais masculinos e femininos, uma operação avaliada em 20 mil milhões de euros, a uma empresa de capital de risco ligada a Jared Kushner, irmão do genro de Donald Trump. Nesse negócio, Gianni Infatino seria o CEO e iria receber qualquer coisa com 26 milhões de euros por ano, ou seja, quase seis vezes mais do que ganha atualmente como presidente da FIFA.
As reações do mundo do futebol foram extremamente negativas e o projeto que acabou por ser abandonado, mas a pressão não abrandou. A UEFA falou num «acordo obscuro, feito nos bastidores» e a CONCACAF, confederação norte-americana e Caribe, vê nele «o sintoma de uma governação que deixou de colocar o futebol em primeiro plano».
Gianni Infantino não ficou incomodado com as várias polémicas que surgiram antes e durante o Mundial 2026 e parecia ser intocável depois de terminado «o melhor Mundial da história», segundo as suas próprias palavras. Um Mundial onde assistiu a dois jogos por dia utilizando nas suas deslocações um jato executivo colocado à sua disposição, qual chefe de Estado. Mas, passadas três semanas, está no fio da navalha, e o que parecia ser uma reeleição certa em 2027, pode, afinal, não acontecer. Apesar de um pedido de desculpas da FIFA, as reações negativas não pararam e o apoio à recandidatura de Gianni Infantino começa a desmoronar-se qual castelo de cartas. As federações da Alemanha, Inglaterra, Finlândia, País de Gales, Noruega, Suécia e Sérvia retiraram a confiança ao atual presidente. A UEFA e a CONCACAF são igualmente bastante críticas, com a confederação europeia a exigir a demissão de Gianni Infantino e a ameaçar boicotar o Campeonato do Mundo de Sub 20, que se realiza em setembro, e o Campeonato do Mundo de Clubes de 2029.
Por outro lado, a ligação entre Gianni Infantino e Donald Trump já teve melhores dias. A imprensa norte-americana avançou que o presidente dos EUA iria «fazer tudo» para ajudar o líder da FIFA a vencer as eleições, mas o fracasso do projeto da venda dos direitos comerciais dos Mundiais a investidores privados pode ter arrefecido esse apoio.
Recorde-se que a FIFA é uma das maiores organizações mundiais com 211 federações, suplantando a ONU, que congrega 193 Estados soberanos. Isso só acontece devido a critérios de representação territorial, uma vez que aceita territórios dependentes e regiões autónomas.