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Ao sétimo dia de Mundial, Portugal entrou em ação da pior maneira ao empatar (1-1) com a República Democrática do Congo (RD Congo), 46.ª do ranking FIFA. As surpresas que aconteceram nos jogos anteriores não serviram de alerta para Portugal, que voltou a estar em apuros num jogo de estreia. A atitude passiva, a condição física de alguns jogadores e as opções erráticas do selecionador criaram a ‘tempestade perfeita’ em Houston. Este jogo serviu de aviso para o que vem a seguir, até porque a Colômbia, principal adversário de Portugal, foi competente e derrotou o Uzbequistão (3-1). A seleção nacional começou bem e marcou por João Neves, logo aos seis minutos. O miúdo saltou mais alto do que os centrais africanos e fez o golo de cabeça no seu primeiro jogo num Mundial.
O que parecia ser uma demonstração de força da seleção portuguesa durou pouco tempo. Em vez de procurar o segundo golo, a equipa adormeceu, perdeu velocidade e objetividade e jogava mais para o lado do que na direção da baliza contrária. Portugal foi uma caricatura de si mesmo! O final do primeiro tempo já deixava antever as dificuldades sentidas na segunda parte, onde as jogadas mais elaboradas pertenceram aos congoleses, que podiam mesmo ter ganho o jogo. A estatística da partida mostra isso mesmo; Portugal teve mais posse de bola (75% contra 25%), mas a RD Congo rematou mais vezes à baliza (oito contra sete).
Portugal encontrou um adversário forte fisicamente, com grande disciplina tática, que jogou num bloco compacto e não quis ter a posse de bola, mas foi perigoso no contra-ataque. Na sequência de uma transição rápida, ganhou um pontapé de canto que deu o golo do empate, na última jogada da primeira parte, um lance onde os defesas centrais e o guarda-redes de Portugal ficaram a ver jogar.
A seleção nacional tem um conjunto de jogadores formidável, talvez o melhor de sempre, nenhuma outra seleção teve quatro campeões europeus, o melhor marcador da história do futebol e o melhor jogador da Premier League, mas nada disso se viu em Houston. As substituições efetuadas por Roberto Martínez não trouxeram melhorias; a entrada da Rafael Leão foi um desastre e colocar Gonçalo Ramos em campo a sete minutos do fim é incompreensível. Ao fazer o favor a Cristiano Ronaldo de o manter em campo até final do jogo, quando o capitão já perdeu muito do seu fulgor, o selecionador mostra falta de coragem e, pior, corre o risco de hipotecar o sonho de uma geração de grandes jogadores e de uma nação. Roberto Martínez está a terminar o seu ciclo na seleção nacional e parece que perdeu a noção da realidade ao dizer que «a atitude foi muito boa». Das duas uma: ou mentiu descaradamente ou não viu o mesmo jogo que a esmagadora maioria das pessoas. Empatar com a RD Congo não é grave, grave é não perceber o que aconteceu.
Ao invés do treinador, o capitão foi sério na leitura do jogo. «Portugal poderia ter ganho, mas também perdido. Dava para os dois. O futebol é isto», afirmou. CR7 voltou ao tema no Instagram, onde escreveu: «Não era o arranque que queríamos, mas isto está longe de ter acabado. Cabeça levantada e foco no próximo jogo».
Foi um começo de Mundial difícil para Cristiano Ronaldo, que viu Lionel Messi marcar um hat-trick à Argélia e igualar Miroslav Klose no topo da tabela dos melhores marcadores em fases finais (16 golos) e Mbappé fazer dois golos ao Senegal. Talvez por isso, foi o primeiro a recolher aos balneários, enquanto os seus colegas ficavam no campo a aplaudir os adeptos. É este o exemplo de liderança de que Roberto Martínez gosta?
RD Congo surpreendeu
Voltando ao que se passou no relvado, o selecionador reconheceu mérito ao adversário. «Foram intensos, confiantes e jogaram como que se fosse uma final. Estava difícil chegar à área. Não fazia sentido tirar o maior goleador da história do futebol num jogo em que precisávamos de golos. A experiência dele na área é importante pela maneira como arrasta os defesas», disse. A ideia pode ser boa, só que Cristiano Ronaldo passou ao lado do jogo. Perante uma equipa bem trabalhada no capítulo defensivo, o capitão de Portugal tocou na bola apenas 25 vezes durante toda a partida.
Há 52 anos que a RD Congo não estava presente num Campeonato do Mundo, a última vez (Alemanha Ocidental 1974) ainda se chamava Zaire e saiu da competição após três derrotas e vários episódios de indisciplina. Desta vez tudo foi diferente e conseguiu o primeiro golo e o primeiro ponto num Mundial. O selecionador, Sébastien Desabre, construiu uma equipa resiliente, que sofre para conseguir os seus objetivos. É um conjunto que entra para não perder e sai sempre a ganhar qualquer coisinha. É uma espécie de Grécia no Euro 2004. Portugal tem de corrigir algumas coisas na partida frente ao Uzbequistão, em Houston (dia 23, às 18h00), para depois discutir o primeiro lugar do grupo com a Colômbia, em Miami (dia 28, às 00h30).
Foi uma estreia desastrada da equipa das quinas, a única nota positiva foi perceber que Portugal tem memória. A Federação Portuguesa de Futebol convidou os pais de Diogo Jota e André Silva para assistirem ao jogo, em Houston, e nos ecrãs do estádio passaram imagens do internacional português antes do jogo começar.
Neste jogo foi aplicada uma das novas regras sobre a perda de tempo. O guarda-redes africano demorou mais de cinco segundos a repor a bola em jogo e o árbitro assinalou um pontapé de canto a favor de Portugal, que não teve perigo.
Resultados inesperados
A primeira semana do Mundial disputou-se num contexto político e diplomático complexo, motivado pelo fundamentalismo da Administração Trump e cinismo da FIFA.
Apesar do escândalo do preço dos bilhetes, do critério da não atribuição de vistos, da ameaça que representa a polícia anti-imigração, da proibição da seleção do Irão de pernoitar nos Estados Unidos e da expulsão de um árbitro da Somália por motivos extrafutebol após 11 horas de interrogatório, salvou-se o futebol, com alguns bons jogos.
O Mundial começou num local mítico como é o Estádio Azeteca, na Cidade do México, com o triunfo dos mexicanos (2-0) sobre a frágil África do Sul. Uma partida que ficou marcada pela ausência da Presidente do México, Claudia Sheinbaum, que decidiu doar o seu ingresso VIP a Yolette Cervantes, uma jovem indígena e jogadora amadora de futebol. A Presidente justificou essa posição como um gesto de solidariedade para com os mexicanos que não têm possibilidade de ir aos estádios devidos aos preços exorbitantes praticados pela FIFA.
Durante a primeira semana, registaram-se resultados surpreendentes, como foi o caso do empate sem golos entre o estreante Cabo Verde e a campeã europeia Espanha.
A exibição da ‘Roja’ foi um completo fiasco ao ponto de Lamine Yamal ter escrito: «Foi o nosso primeiro jogo no Campeonato do Mundo e conseguimos somar um ponto…». Em contrapartida, o guarda-redes cabo-verdiano, Vozinha, de 40 anos, sem clube desde que deixou o Chaves, foi eleito o melhor em campo e ganhou mais de 10 milhões de seguidores no Instagram. A alegria só não foi maior porque os Estados Unidos recusaram o visto de entrada à sua mãe por questões financeiras.
Registaram-se outros resultados inesperados, caso dos empates nos jogos Brasil-Marrocos (1-1) e Países Baixos-Japão (2-2) e da vitória da Austrália sobre a Turquia (0-2).