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O campeonato do mundo entrou na semana passada na fase decisiva, onde a derrota significa o fim do sonho. Portugal defrontou a Croácia nos dezasseis avos de final e venceu, com bastante sofrimento, garantindo o apuramento para os oitavos de final, onde defronta esta segunda-feira, às 20h00 (hora de Lisboa), a eterna rival Espanha. Recorde-se que os croatas ficaram no pódio nos dois últimos Mundiais (2.º em 2018 e 3.º em 2022). Foi o reencontro entre Cristiano Ronaldo e Luka Modric, dois velhos conhecidos do Real Madrid, e um deles voltou para casa.
Já no jogo anterior, com o apuramento garantido, Portugal defrontou a Colômbia sem ambição e sem desejo de vitória. Esteve mais perto de perder do que de ganhar e o empate (0-0) deixou a seleção na segunda posição do grupo, atrás dos ‘cafeteros’. «A experiência diz-me que ser primeiro do grupo não é grande vantagem», dissera Roberto Martínez na antevisão da partida. As declarações mostram uma falta de ambição que não se coaduna com o estatuto da maioria dos jogadores.
Não sabemos se foi por estratégia ou apenas incapacidade de ganhar à Colômbia, a verdade é que Portugal ficou no lado, teoricamente, mais fácil do quadro de jogos. Nos quartos de final, poderá defrontar os Estados Unidos ou a Bélgica e, eventualmente, a França na meia-final. Se tivesse ficado em primeiro lugar do grupo, Portugal defrontava o Gana, treinado por Carlos Queiroz, e poderia ter como adversários nas eliminatórias seguintes os colossos sul-americanos Argentina e Brasil ou a Inglaterra. Do ponto de vista teórico, a seleção fez a escolha certa... da pior forma. Todos os jogos são para ganhar, especialmente quando se está no Campeonato do Mundo.
A participação de Portugal ainda não ganhou vida e o futebol apresentado é muito pobre, apesar de o selecionador ver perfeição onde há mediania. Roberto Martínez pode comprometer o sonho de uma fantástica geração de jogadores – talvez a melhor de sempre – com equívocos atrás de equívocos. Tem a Espanha para emendar o erro... se for capaz.
Depois da entrada em falso frente à República Democrática do Congo (1-1), que sentiu tremendas dificuldades em preparar o Mundial devido ao surto de ébola no país, seguiu-se a goleada (5-0) ao Uzbequistão e, como é habitual, passou-se do oito ao oitenta, só porque a seleção ganhou a um adversário que ocupa a 60.a posição no ranking FIFA. A Colômbia fez questão de colocar as coisas no seu devido lugar e mostrar ao mundo que a equipa orientada por Roberto Martínez tem grandes futebolistas, mas joga pouco. Quando no jogo mais difícil do grupo, o melhor jogador em campo foi o guarda-redes Diogo Costa, está tudo dito... Depois do grito ‘estou de volta!’ no jogo com o Uzbequistão, Cristiano Ronaldo voltou a ser uma figura secundária frente aos sul-americanos.
Surpresas e deceções
Os jogos dos 16 avos de final trouxeram grandes surpresas. O Paraguai eliminou a poderosa Alemanha nas grandes penalidades e causou um dos maiores escândalos do futebol mundial. Definitivamente, a ideia de que são 11 contra 11 e, no final, ganha a Alemanha, passou à história, é que nos dois mundiais anteriores foi eliminada na fase de grupos. É dos momentos mais duros de uma seleção que já foi campeã do mundo quatro vezes e disputou oito finais (um recorde). Em contrapartida, o Paraguai entrou em festa e o presidente Santiago Peña decretou feriado nacional para o dia seguinte «para que os cidadãos pudessem celebrar este feito histórico», disse o chefe de Estado. A outra surpresa foi a eliminação dos Países Baixos frente a Marrocos, também nas grandes penalidades. Depois do sucesso desportivo no Qatar 2022, onde eliminou Portugal nos quartos de final, a equipa africana volta a brilhar.
Este Mundial está a ser duro para os selecionadores e seis já abandonaram o cargo. O último a cair foi o selecionador dos Países Baixos, já antes os treinadores da Tunísia, Escócia, Coreia do Sul, Uruguai e Equador tinham ficado pelo caminho.
Com as principais seleções já apuradas para os oitavos de final, as estrelas do Mundial são Messi e Mbappé com seis golos em quatro jogos, seguidos por Haaland e Kane com cinco e Vinícius Jr. e Dembelé com quatro.
Sempre a faturar
A principal novidade deste Mundial são as pausas de hidratação de três minutos, aos 22 minutos da primeira e da segunda parte. O principal objetivo é a saúde dos atletas, mas a perceção dos envolvidos – jogadores e treinadores – é que não era preciso tanto tempo para hidratação, e a justificação é comercial. O mais curioso é que, em 2018, Maradona previu o que viria a acontecer oito anos mais tarde. «Os americanos vão querer quatro períodos para a publicidade. Não gosto disso, não há paixão», afirmou na altura. O ‘deus’ do futebol sabia o que dizia.
Esse espaço é uma oportunidade inédita para as televisões passarem spots publicitários por valores exorbitantes. Nas referidas pausas para hidratação um spot publicitário de 30 segundos custa entre 190 mil euros e 700 mil euros. Durante a final, esse valor pode chegar aos sete milhões de euros, ainda assim é inferior aos 8,8 milhões de euros pagos por espaços publicitários na final do Super Bowl. A Fox Sports adquiriu os direitos televisivos por 396 milhões de euros e espera faturar 500 milhões de euros em publicidade. O tempo de publicidade é levado ao limite e, no jogo de abertura, o intervalo publicitário continuava no ar já depois do jogo ter recomeçado. A própria FIFA espera uma receita recorde de 3,5 mil milhões de euros proveniente dos direitos de transmissão do Mundial 2026.
Não são só as televisões que ganham fortunas com este torneio. David Beckham é um ícone à escala global e figura central da campanha de conceituadas marcas e já faturou cerca de 25 milhões de euros em anúncios!
As pausas para hidratação têm sido alvo de críticas por cortarem o rimo de jogo, embora sejam comuns no desporto norte-americano. O capitão dos Países Baixos, Van Dijk, criticou o cooling breaks imposto pela FIFA: «Não é necessário em todos os jogos e prejudica a experiência do público. Interromper o jogo para fazer publicidade é algo que não gosto», disse o central neerlandês. O presidente da FIFA, Gianni Infantino, negou qualquer interesse financeiro: «A razão principal é o calor. Numa competição que se joga durante 39 dias, ter um momento para descansar é extremamente importante».
A explicação do calor compreende-se no verão da América do Norte e em locais como Miami, Nova Jersey ou Filadélfia, mas não faz sentido em estádios fechados e climatizados como Atlanta, Dallas e Houston.
Após duas semanas de competição, o Mundial das Américas está a gerar receitas publicitárias sem precedentes. Segundo a FIFA, mais de 4,6 milhões de pessoas de 210 países assistiram, ao vivo, aos 72 jogos, o que representa uma taxa de ocupação de 99,7% e uma ocupação média de 64.508 espetadores por jogo. Foram vendidos 300 mil hot-dogs, 2,8 milhões de cervejas e mais de um milhão de garrafas de água.