O futebol tem coisas surpreendentes. Esperava-se uma final brava entre a Espanha, campeã europeia, e a Argentina, campeã mundial em título e vencedora da Copa Sul-Americana, mas ao que assistimos foi a um domínio absoluto da equipa espanhola. A Argentina esteve irreconhecível e conseguiu o ‘feito’ de ser a primeira equipa na história de um Mundial a não fazer qualquer remate à baliza nos 90 minutos de uma final! Como é que Lionel Scaloni queria ganhar o Mundial se não fez nada para isso? Esta conquista confirma que a Real Federação Espanhola de Futebol (RFEF) está a realizar um bom trabalho, já que é a primeira federação a ser, simultaneamente, campeã do mundo na competição masculina (2026) e feminina (2023). Mas os êxitos desportivos não ficam por aqui. No século XXI, foi duas vezes campeã do mundo (2010 e 2026), venceu três Europeus (2008, 2012 e 2024) e ganhou a Liga das Nações (2023). Acresce ainda o título olímpico, em Paris 2024.
Thierry Henry, antigo jogador do Barcelona, explicou de forma simples o que está na base do sucesso: «Eles sabem o que têm de fazer desde os nove anos».
Estes resultados dizem muito do potencial de Espanha a nível do futebol e mostra como o país se organizou, aplicou os recursos de forma competente e preparou as grandes competições. A RFEF não vive de vedetismos, não patrocina a promoção pessoal do seu presidente e não presta vassalagem a quem acredita que está acima da própria seleção. Tão perto e tão distante de nós… O boné de Ferran Torres, onde se lia ‘Make Spain Great Again’, não era apenas uma (in)direta a Donald Trump, era também a confirmação de uma realidade.
Para bem do futebol
Esperava-se um confronto tático entre o mestre Luis De la Fuente e o discípulo Lionel Scaloni, com interpretação de Lamine Yamal e Lionel Messi. Só que nada disso aconteceu. A Espanha dominou o jogo, foi a única equipa a criar ocasiões de golo e ganhou (1-0) de forma justa no prolongamento. As estatísticas revelam que teve 65% de posse de bola, fez 20 remates contra dois da Argentina, teve nove cantos contra quatro do adversário e realizou 774 passes completos enquanto que os argentinos fizeram apenas 357. Nesta partida estabeleceu também um novo recorde: não perde há 38 jogos, desde 2024 que não conhece o peso da derrota (não são considerados os desempates por grandes penalidades).
O triunfo de Espanha foi importante para dar uma imagem positiva do futebol, coisa que não aconteceu com a Argentina, sempre muito truculenta, isso deveu-se ao trabalho do selecionador Luis de la Fuente. Escolheu os melhores e os que davam garantia de maior rendimento e… não levou nenhum jogador do poderoso Real Madrid. Depois, geriu com mestria o momento de cada atleta e não ficou preso a nomes sonantes. Apostou em Cubarsí, jovem de 19 anos, e em Laporte, jogador do Athletic Bilbao, para formar a melhor dupla de centrais do Mundial - sofreu apenas um golo em toda a competição. Deixou nomes de peso, como Pedri, Gavi e Llorente, no banco e colocou a jogar Fabían Ruiz e Dani Olmo, que davam maior equilíbrio e estabilidade à equipa no meio-campo. Na seleção espanhola não havia intocáveis como em Portugal, o estatuto ficava no balneário e os resultados estão à vista. Recorde-se que Luis de la Fuente já tinha ganho a Liga das Nações e o Europeu com a seleção principal e o Campeonato da Europa de Sub 19 e Sub 21.
Este jogo confirmou também que La Masia continua a formar os melhores futebolistas; sete campeões do mundo passaram pela academia do Barcelona, aos quais se junta Lionel Messi. «Esta geração tem um talento extraordinário e ganhou tudo. Tenho muito orgulho nestes jogadores, que são um exemplo para a juventude espanhola. Demonstrámos que estamos preparados para tudo», frisou o selecionador. Para a festa ser completa, Rodri foi eleito o melhor jogador do Mundial, Pau Cubarsí considerado o melhor jovem e Unai Simon o guarda-redes do torneio.
O fator Messi, decisivo em muito jogos, não apareceu na final porque os adversários nunca deixaram que tivesse bola. Se tivermos em consideração que o capitão esteve envolvido em 87,6% das jogadas que deram golo percebe-se o estrago que isso provocou. Durante toda a competição, o futebol apresentado pela seleção ‘albiceleste’ nunca foi de encher a vista, mas ninguém esperava uma coisa tão má. Os dois remates da Argentina surgiram na segunda parte do prolongamento, quando já estava a perder!
Sem argumentos para contrariar o melhor futebol de Espanha, os argentinos andaram sempre fora da lei e estiveram mais interessados em destruir jogo do que em construir. A paixão sul-americana passou claramente os limites e entrou no jogo violento - ao longo do Mundial aconteceu várias vezes perante a complacência dos árbitros. Nunca como agora o icónico tema Don’t Cry for Me Argentina, do musical Evita, fez tanto sentido.
Pelo facto de ser campeã do mundo, a Espanha vai receber um prémio de 44 milhões de euros (tendo a Argentina direito a 29 milhões de euros). Cerca de 20 milhões de euros vão ser repartidos pelo plantel e cada jogador tem direito a 755 mil euros. Além disso, os vencedores do Mundial vão receber da FIFA anéis personalizados e numerados, bem ao estilo da NBA - cada peça está avaliada em cerca de 130 mil euros.
Mal o jogo terminou, a festa andou de mãos dadas com a paixão e a afición tomou conta das avenidas em todo a Espanha. Como se esperava, a chegada dos novos campeões do mundo a Madrid foi uma loucura total. Mais de dois milhões de adeptos ‘enlouquecidos’ saltaram, dançaram e gritaram à passagem dos seus heróis no trajeto que os levou ao Palácio da Zarzuela, onde foram recebidos pela família real. Uma cerimónia onde o capitão Rodri gritou eufórico: «Viva a mãe que me pariu! Viva a mãe que vos pariu! Viva o Rei e viva a Espanha!». O Rei Felipe VI foi mais sóbrio na resposta: «Foi um triunfo épico».
Depois deste triunfo, a Espanha pensa já no Mundial 2030, onde vai defender o título em casa, uma vez que o torneio tem organização conjunta de Espanha, Portugal e Marrocos.
Momentos marcantes
O Mundial 2026 foi um festival de verão, com boas ideias de jogo de Espanha, Inglaterra e Noruega, com a surpresa de Cabo Verde e as desilusões de Portugal, Alemanha, Brasil e Países Baixos. O Mundial teve 6,8 milhões de adeptos nos estádios a assistir aos 104 jogos e a final contou com a presença de gente famosa, como Mick Jagger, Richard Gere, Tom Cruise, Matt Damon, Brooke Shields, James Harden e Serena Williams, entre muitos outros. Foi, seguramente, o evento desportivo com maior concentração de celebridades.
A final encerrou um Mundial que ficou marcado pelas controvérsias criadas por Donald Trump e pela subserviência do presidente da FIFA, Gianni Infantino, que deixou que o poder político mandasse no futebol. Lamentável!
Entre as grandes deceções aparece Portugal. A seleção não teve um sistema de jogo que aproveitasse as potencialidades dos jogadores, é bom lembrar que Portugal tinha quatro campeões europeus, o melhor jogador da Premier League e o melhor marcador da história do futebol mundial... e não passou dos oitavos de final. Equívocos e decisões absurdas de Roberto Martínez redundaram num fracasso total. E, por muito que a narrativa oficial dissesse o contrário, nunca houve um verdadeiro espírito de grupo e uma ideia coletiva no balneário.
Por fim, o jogo que ninguém queria jogar acabou por ser o mais espetacular do Mundial com dez golos! A Inglaterra derrotou a França (6-4) e levou a medalha de bronze. Kylian Mbappé marcou por duas vezes e sagrou-se o melhor marcador da competição, com 10 golos.
Para a história fica ainda um intervalo da final com um espetáculo bem à americana, com as atuações de Madona, Shakira e Justin Bieber a concetrarem todas as atenções.