O Mundial da falta de decorro dos presidentes dos Estados Unidos e da FIFA acabou para Portugal! Foi uma derrota justa (0-1), já que a Espanha foi mais competente, teve mais oportunidades de golo e, sobretudo, teve treinador, coisa que Portugal nunca teve desde o primeiro jogo. Não se pode dizer que a eliminação tenha sido uma surpresa, pois o futebol de Portugal foi pobre, sem identidade, desgarrado e medíocre. A narrativa de ser candidato era manifestamente exagerada. O valor individual dos jogadores tinha de ter outro resultado – a primeira parte contra a Croácia mostrou que a equipa portuguesa podia fazer muito melhor. O ex-internacional Ricardo Quaresma, campeão europeu em 2016, disse a pura da verdade: «Se não tivéssemos talento e qualidade, estava tudo certo. Há um enorme talento e qualidade, só que o treinador não descobriu a tática certa para jogar».
A Espanha está a fazer um Mundial quase perfeito. Depois do empate com Cabo Verde, venceu facilmente as outras partidas (Arábia Saudita, Uruguai e Áustria). Além disso, é a única equipa que não sofreu qualquer golo até ao momento, o que revela grande consistência defensiva. Todos sabiam isso, mas o trabalho de casa foi mal feito. Portugal não conseguiu ligar o jogo, apesar de ter dos melhores médios do mundo – só que no sistema de jogo inventado por Roberto Martínez parecem jogadores medianos. Tanto talento desperdiçado.
A reedição da final da Liga das Nações 2025 foi um jogo pouco interessante e com desfecho diferente. Sem ser brilhante, a Espanha dominou grande parte do tempo e teve mais oportunidades para marcar. Portugal esteve melhor na primeira parte, mas nunca conseguiu tirar a posse de bola aos espanhóis e não criou ocasiões de golo (tirando o remate de Nuno Mendes à barra). Apresentou um futebolzinho previsível, lento e chato de ver, jogou mais para o lado e para trás quando o foco devia ser a baliza contrária. No segundo período, só deu Espanha, até porque alguns jogadores portugueses estavam fisicamente de rastos. As estatísticas revelam seis remates à baliza contra dois dos portugueses e 55% de posse de bola. Nas estatísticas individuais, os espanhóis foram também superiores em quase todos os aspetos do jogo.
O selecionador de Espanha mexeu bem na equipa ao lançar Ferran Torres, que fez o passe para Mikel Merino marcar o golo da vitória. Já o selecionador português só fez disparates, ao tirar Vitinha, era o melhor jogador do meio campo, e manter Cristiano Ronaldo e Bruno Fernandes até final. Gonçalo Ramos e Trincão ficaram no banco a ver os outros a arrastarem-se pelo campo.
A despedida de Cristiano Ronaldo do Mundial não podia ter corrido pior. Não teve bola e passou ao lado do jogo, foi uma despedida triste do maior goleador da história do futebol. Roberto Martínez foi de uma fidelidade incompreensível ao seu capitão – devem ficar amigos para o resto da vida – e manteve-o em campo quando nada o justificava. Alimentou o ego de CR7, mas, aos olhos dos analistas e dos adeptos, acabou por queimar o jogador. Quando Portugal precisou da lenda, a lenda não estava lá… e todos perceberam isso. Cristiano Ronaldo também não se soube defender e a ganância de querer jogar todos os minutos mostrou ao mundo que está longe dos momentos de glória.
O final da partida foi emocionante e marcante para o internacional português, que saiu do relvado com um ar contemplativo e em lágrimas. «Podíamos ter feito melhor, mas fomos eliminados por uma equipa que vai estar na final ou perto. Acho que foi um jogo bem disputado, podia dar para qualquer um, tivemos um pouco azar ao sofrer o golo nos últimos minutos», começou por dizer o capitão de Portugal, que acrescentou: «Estou triste por sair assim do Mundial, mas dei o meu melhor e saio de consciência tranquila. Joguei 23 anos na seleção e ganhei três títulos. Antes de Cristiano, Portugal não tinha vencido nada», afirmou. É verdade que a seleção nacional deve muito a Cristiano Ronaldo, mas seria bom que se lembrasse que não joga sozinho e que esteve apenas 25 minutos em campo quando Portugal foi campeão europeu em 2016… Na despedida, voltou a dar mostras de excessivo sentimento de importância de si próprio.
Quanto ao seu futuro na equipa das quinas, disse: «Foi o meu último Mundial, agora terei tempo para pensar e estar com a minha família. Não decido as coisas de cabeça quente, nem quero tirar a atenção daquilo que foi feito no Mundial com uma decisão pessoal». Cristiano Ronaldo disputou seis campeonatos do mundo, participou em 27 jogos e marcou 11 golos. Deixa a marca histórica de ter sido o único a marcar em seis mundiais consecutivos. Este Mundial devia igualmente fazer pensar algumas vedetas da seleção nacional, além de Cristiano Ronaldo, Ruben Dias e Diogo Dalot, sobre a forma como lidam mal com a crítica. Se pensam que são intocáveis, estão enganados, e os resultados mostram isso mesmo. Voltem lá a ganhar qualquer coisa… e depois conversamos.
Trump também joga
O Mundial estava a correr de forma normal até aparecer Donald Trump, que feriu a verdade desportiva com a conivência da marioneta Gianni Infantino, que voltou a alinhar com as anormalidades do Presidente norte-americano. Trump quis e conseguiu anular o cartão vermelho mostrado a Florian Balogun, uma das vedetas dos Estados Unidos, para que pudesse defrontar a Bélgica, nos oitavos de final – desde 1962 que a FIFA não alterava uma decisão de arbitragem.
O inquilino da Casa Branca confirmou que falou com Infantino sobre o cartão vermelho: «Entendo muito de desporto e não foi falta. Houve dois grandes atletas que correram a alta velocidade e chocaram. O árbitro era um pouco suspeito». O mais grave é que a FIFA aceitou a manipulação desportiva pedida por um político e rejeitou o recurso da federação belga. O selecionador Mauricio Pochettino alinhou na farsa e Balogun foi a jogo para ver a Bélgica golear (4-1) os Estados Unidos, sem que Donald Trump pudesse intervir… No futebol (ainda) não vale tudo.
A grande surpresa dos oitavos de final foi a eliminação do Brasil. Mal marcado e com muito espaço na área, o gigante Erling Haaland fulminou o Brasil com dois golos e colocou a Noruega nos quartos de final, onde vai defrontar a Inglaterra. O sonho do hexacampeonato caiu por terra com uma exibição de baixo nível – é a pior participação em Mundiais em 36 anos. A eliminação significa o fim de linha para muitos jogadores da ‘canarinha’, com Neymar a afirmar: «Agora acabou». Nos últimos cinco Mundiais, o Brasil foi sempre eliminado por seleções europeias (França, Países Baixos, Bélgica, Croácia e agora a Noruega).
A seleção de Cabo Verde foi, até ao momento, a grande revelação deste Mundial, personificada na figura do veterano guarda-redes Vozinha, de 40 anos, que brilhou em vários jogos, mas está sem clube. A equipa do pequeno e valente arquipélago defrontou três antigos campeões do mundo e não perdeu qualquer jogo no tempo regulamentar, o que é notável. Colocou em sentido a campeã europeia Espanha (coisa que Portugal não conseguiu), o Uruguai e só foi derrotado pela Argentina aos 111 minutos do prolongamento e com um autogolo. As altas instâncias da FIFA estavam a ficar preocupadas com a possibilidade de haver uma surpresa à escala mundial que tirasse os atuais campeões da competição. Os tubarões azuis perderam o jogo, mas ganharam a admiração e o respeito do mundo do futebol.