A segunda prova do Campeonato do Mundo de Superbike (WSBK) realiza-se no rápido e exigente circuito de Portimão, conhecido pela ‘montanha-russa’ do motociclismo, onde Miguel Oliveira procura divertir-se e ser feliz. Não é o único evento que se realiza em Portugal, o Circuito do Estoril vai receber a penúltima prova do Mundial, entre 9 e 11 de outubro.
MotoGP e Superbike são as duas principais competições do motociclismo mundial. São organizadas pela Federação Internacional de Motociclismo (FIM) e mantêm os fãs em suspense ao longo do ano com corridas emocionantes. À primeira vista, os dois campeonatos parecem semelhantes; ambos têm prestigiados construtores e pilotos de alto nível a correr nos melhores circuitos do mundo. Mas as semelhanças terminam aqui. As motos, os orçamentos, as equipas e os prémios monetários são muito diferentes.
O MotoGP está no topo de pirâmide, com motos que são verdadeiros protótipos concebidos para as corridas, a exemplo do que acontece na Fórmula 1, que não estão à venda. As motos são fabricadas à medida e constituem um banco de ensaio para os modelos de série, o que significa que muito do que vemos numa Superbike foi ensaiado no MotoGP. Em contrapartida, o Mundial de Superbike é disputado com motos de série modificadas. Importa dizer que os fabricantes passam por um escrutínio público ao colocar em pista as mesmas motos que estão em comercialização e que são facilmente reconhecidas pelo público. Podemos dizer que as motos de MotoGP são projetadas para correr em pista e ganhar campeonatos, enquanto as Superbike são motos de rua adaptadas às corridas, que qualquer cliente com boa capacidade financeira pode adquirir num concessionário, como é o caso da Bimota KB 988 Rimini, BMW M 1000 RR, Ducati Panigale V4R, Honda CBR 1000 RR, Kawasaki ZX-10RR e Yamaha YZF R1.
Os orçamentos no MotoGP são muitos superiores, uma vez que as fábricas podem gastar o que quiserem no desenvolvimento das motos, nos testes e nos pilotos. Já as equipas de Superbike têm orçamentos limitados para desenvolver as motos e pagar a temporada. As equipas oficiais gastam cerca de 30 milhões de euros por época para ter duas motos. As equipas de topo em Superbike têm um orçamento que ronda os 10 milhões de euros com dois pilotos.
Quem acelera mais?
O MotoGP é o exemplo da performance pura, pelo que é natural que tenha um desempenho superior. As motos têm potentes motores de quatro cilindros com 1.000 cc, fazem18.000 rotações e chegam aos 300 cv. A utilização de materiais leves como a fibra de carbono, alumínio e magnésio baixam o peso até aos 157 kg, resultando numa impressionante relação peso/potência de 0,5 kg/cv! Ao serem mais leves e potentes são também mais rápidas, atingindo velocidades e acelerações assustadoras. O recorde de velocidade máxima foi obtido por Brad Binder (KTM) com 366,1 km/h, no circuito de Mugello. Além disso, a travagem é quase sobrenatural, com discos de carbono que fazem toda diferença na desaceleração. A aerodinâmica é também muito apurada, com asas e outros apêndices que aumentam a estabilidade e deixam a moto agarrada ao asfalto.
Uma Superbike tem motor de dois ou quatro cilindros entre 750 cc e 1.200 cc, faz 16.000 rotações, pode chegar aos 250 cv e alcançar os 339 km/h de velocidade máxima. O peso mínimo de 168 kg permite ter uma relação peso/potência de 0,6 kg/cv. O chassis é em aço e tem alguns componentes em alumínio. Estas motos têm uma afinação de motor diferente, e as suspensões, os travões de aço e o sistema de escape são otimizados para oferecer maior desempenho e segurança aos pilotos. A aerodinâmica está limitada, pois só podem usar elementos que estejam nos modelos de venda ao público.
O apuro técnico faz com que as motos de Grande Prémio sejam significativamente mais rápidas do que as Superbike. Estas têm, no entanto, um encanto próprio, que é ver as motos de estrada a acelerar nas mesmas pistas das rivais e a fazerem tempos muito interessantes. No rápido circuito de Portimão, o recorde em MotoGP pertence a Marc Márquez (Honda), que fez 1.37,226s, enquanto o melhor tempo de uma Superbike foi realizado por Toprak Razgatlioglu (BMW), com 1.39,446 s.
Naturalmente, tudo isto tem um preço e estas poderosas máquinas são quase dez vezes mais caras que as usadas no WSBK. Ocusto de uma moto de MotoGP pode chegar aos 3,5 milhões de euros, incluindo o desenvolvimento e a utilização de materiais ultraligeiros e dispendiosos, já uma Superbike pode custar entre 250 e 400 mil euros. A título de exemplo, só o kit de travões em carbono da MotoGP custa 20.000 euros, o que representa uma parte muito significativa da preparação de uma Superbike.
Outra diferença prende-se com os ordenados. Os dois campeonatos contam com pilotos corajosos e talentosos, só que há uma diferença abissal nos vencimentos, e os mais bem pagos do MotoGP recebem oito vezes mais do que os pilotos de Superbike. Dito de outra forma, Marc Márquez, nove vezes campeão do mundo, tem um vencimento de 17,2 milhões de euros por época, ao passo que Alvaro Bautista recebe dois milhões de euros, e a maioria recebe menos de um milhão.
Alguns fabricantes inscrevem equipas nos dois campeonatos, casos da Ducati, Honda e Yamaha. A KTM alinha apenas no MotoGP e a BMW, Bimota e Kawasaki preferem as corridas de Superbike. A dinâmica da temporada também é diferente. A categoria rainha do motociclismo tem 22 eventos, que incluem o Grande Prémio e a corrida Sprint, o campeonato de Superbike compreende 12 eventos de duas corridas.
Desafio acessível
Miguel Oliveira esteve quatro anos no MotoGP, disputou 117 corridas, obteve cinco vitórias e sete pódios. Sem lugar na principal categoria do motociclismo, optou por correr no Mundial de Superbike com a BMW Motorrad, equipa que venceu os dois últimos campeonatos. «É uma grande mudança, mas estou muito motivado para este novo capítulo na minha carreira», frisou. O piloto admitiu que a condução da BMW M 1000 RR é muito diferente do que estava habituado, e fez uma curiosa comparação: «Foi como ir para Inglaterra e conduzir do lado direito». Numa explicação mais técnica, descreveu: «É uma grande mudança a nível de pneus, eletrónica do motor e travões». O estilo de pilotagem também é diferente: «As trajetórias e a forma como usamos o travão, o acelerador e os pneus é muito distinto. Assim que me senti mais à vontade com a moto, foi muito divertido conduzi-la», concluiu.
Na primeira prova do ano realizada em Phillip Island (Austrália), Miguel Oliveira terminou em 7.º e 8.º lugares as duas corridas. Relativamente à prova portuguesa, afirmou: «Os testes de Portimão deixaram sensações positivas, mas precisamos de mais tempo. É desejo de todos os pilotos correr em casa. Para mim, não é diferente. Estou animado e motivado para agradar ao público com a melhor performance possível».